A nossa nova antologia é uma homenagem a Gabriel Garcia Márquez e ao realismo mágico latino-americano, através de releituras contemporâneas e dialogando com as várias regiões do Brasil
O realismo mágico, que começou no pós-segunda guerra, mas que explodiu mesmo nos anos 1960 e 1970 não foi a primeira expressão literária internacional da nossa região, mas foi a mais rica e que, com o seu nome meio paradoxal, refletia uma relação específica com a sua história e cultura.
Recolhendo inspirações de autores como Aimé Césaire e Juan Rulfo, essa geração de autores viu que uma narrativa que, nas condições europeias, seria considerada surreal, acaba sendo mais efetiva para mostrar os absurdos do desenvolvimento das sociedades latino-americanas, que foge muito dos padrões e normas do realismo do século XIX.
Assim, é possível contar sobre as dinastias informais que se sucedem no poder (Cem Anos de Solidão), os encontros inesperados entre períodos distantes no tempo e no espaço (Todos os Fogos o Fogo), a trajetória convulsiva e absurda das revoltas populares no continente (O Reino deste Mundo, A Casa dos Espíritos), a tensão entre a ruptura na vida cotidiana e a política, mesmo a clandestina (O beijo da mulher-aranha) ou muitos outros temas.
E, claro, apesar de ser um movimento principalmente da Hispanoamérica, influi em autores brasileiros, como podemos ver em Incidente em Antares, Sombras de Reis Barbudos, O Pirotécnico Zacarias, obras e autores fantásticos (nos dois sentidos) que precisamos resgatar melhor. E não só na literatura, o realismo mágico se espalhou pelo teatro, na música, no cinema e nas novelas, que mostraram essa estética a milhões de pessoas no mundo inteiro.
Vamos entrar então nessa viagem por um mundo onde o lendário e o cotidiano se confundem – como em qualquer dia na nossa América.
Características físicas do livro: Formato: 14 x 21 cm / 240 páginas (aproximadamente) / Capa brochura (capa dura se atingir 200%).
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✓ 15 histórias inéditas de 15 escritores brasileiros.
Importante: Caso o livro seja devolvido pelos Correios por impossibilidade de entrega (endereço não localizado, incompleto ou incorreto), será necessário o pagamento de um novo frete para reenvio (R$13).
Alexandre Gossn — O deserto de chiados
André Martins — Yvirapitã
Bruno Carvalho — A eleição
César Martins Guimarães — A presença de Aná
Cristina Faga — Todos os cheiros do mundo
Edwaldo Rodrigues — Incontinência
Geraldo Magela — Vilarejo na alma
Guilherme de Martino — O morto agradecido
Matheus Torres Bezerra — O mapa das casas afogadas
Max Mendes Fischer — João Ninguém
Paulo Florindo — O jipe na sala
Roberto Stahelin — Tudo que sei sobre Vixemaria
Robson Campos de Abreu — A cidade que não enterrava
Schleiden Nunes Pimenta — A faca
William Ramires — Entre as serras
Yvirapitã
André Martins
Quem toma a estrada que leva a Yvirapitã raramente chega a Yvirapitã. A cidade fica escondida entre a Serra das Nuvens Baixas e as Montanhas do Vigia Cego e as curvas e voltas do caminho confundem qualquer um. Poucos viajantes, nenhum turista. Apenas o velho Anselmo com seu caminhão parece ser capaz de se localizar no labirinto de trilhas. Uma vez por semana, uma vez por mês, é ele que faz a ligação com o resto do país. Leva alguns suprimentos e jornais com notícias de fora que quase ninguém lê. De volta, carrega o mel escuro das encostas ao redor da cidade. No passado, as viagens eram ainda mais raras, demorando meses entre cada visita. O velho Anselmo, assim como seu pai e seu avô, quase sempre chegava e saia sozinho.
Sair de Yvirapitã é ainda mais difícil. Não porque alguém se perca, os locais entendem o suficiente os estranhos caminhos ao redor da região para se aventurarem sozinhos. Além disso, todos conhecem Anselmo e sabem que, se um dia alguém estiver suficientemente decidido a sair, basta pegar uma carona com ele. Mas ninguém sai, porque ninguém tem tanta certeza de que deve ir. Não uma certeza que compense a certeza dos que acham que a pessoa deva ficar.
A última pessoa que deixou a cidade o fez já tem cinquenta anos. E, por pouco, não teve de ficar. Ismael, filho de dona Briolângia, dizia desde pequeno que queria conhecer o mundo. A mãe e todos os demais tentaram toda a sua infância dissuadi-lo da ideia, contando histórias de como a vida além das montanhas era perigosa e imprevisível. Lá, diziam, as pessoas vivem sem saber quem tem razão, em perpétua dúvida e ignorância. Mas, para o pequeno Ismael, tudo o que lhe contavam soava como o começo de uma aventura.
Sua certeza de que queria ir embora tornou-se tão forte que Joana, sua noiva desde que os dois tinham quinze anos, resolveu que não aguentava mais. Se ir embora era mais importante do que ela, ela encontraria outro, mesmo que Ismael realmente nunca saísse da cidade. A rejeição apenas fortaleceu a vontade de Ismael, rejeitado e ávido por aventuras. Pouco tempo depois, ao completar vinte anos, disse que estava certo de que deveria ir. E tinha tanta certeza que fez uma petição, como era de seu direito. Ideia que foi prontamente encorajada por todos. O resultado, parecia, seria óbvio. Ninguém poderia imaginar que ele tivesse mais certeza de que devia ir embora do que dona Briolângia, mãe dedicada e possessiva, sabia que ele deveria ficar.
A cerimônia foi marcada para o fim de semana seguinte, na entrada da igreja, onde o bebaiógrafo já estava e permanece até hoje. Gente de todos os bairros veio para assistir e rir da audácia de Ismael, todos sabendo que o jovem sairia humilhado e nunca mais tocaria no assunto. Joana sentou-se bem a frente, pronta para ridicularizar seu antigo noivo e partir dali vitoriosa. Mas não foi isso o que aconteceu.
Os relatos dos presentes não concordam em todos os detalhes. Há quem diga que um tremor de terra atingiu a cidade logo antes do início. Outros, que, no momento da medida, a igreja foi invadida, apenas por um momento, por um bando de pardais que simplesmente entrou e saiu em silêncio. Mas há elementos comuns em quase todas as histórias e é possível contar-se a história com razoável confiança, mesmo que nenhuma das testemunhas tenha tido, posteriormente, seu relato corroborado pelo bebaiógrafo.
Sendo o solicitante, coube a Ismael sentar-se primeiro na cadeira da máquina. O juiz instruiu que seus pulsos fossem amarrados aos braços de seu assento e que o chapéu da verdade colocado e preso sobre sua cabeça. A máquina foi ligada, tremendo e demorando quase um minuto para estar completamente pronta para o trabalho. No final de seu processo de inicialização, uma lâmpada amarela acendeu em meio a seus mostradores e o ponteiro de certeza começou a subir.
Que Ismael realmente queria ir e tinha uma opinião forte sobre isso, todos sabiam. Mas conforme o ponteiro se mexia mais e mais, a multidão ficou em silêncio. Mesmo que dona Briolângia estivesse mais certa que seu filho, era muito raro observar-se tamanha convicção. E quando o ponteiro finalmente andou até o final da escala, indicando certeza irredutível e verdadeira, a multidão explodiu em murmúrios e comentários abafados. Apenas a mãe de Ismael, pelo que contam, permaneceu calada, quase congelada, enquanto Joana, ofendida, levantou-se e abandonou a igreja antes mesmo do final da cerimônia. O juiz teria pedido silêncio e esperado que a multidão se acalmasse antes de prosseguir. A solenidade e importância que o bebaiógrafo exigiam jamais permitiriam que prosseguissem enquanto todos não se calassem.
Quando finalmente dona Briolângia sentou-se à cadeira, a pobre senhora tremia e era incapaz de consentir. Todos esperaram que ela se recuperasse, a medição era inevitável mas exigia que ela estivesse dona de si, capaz de assentir com o procedimento. E, mesmo que parecesse que ela levaria muito tempo para se acostumar com a certeza que seu menino tinha de deixá-la, a senhora logo olhou para o juiz e assentiu.
– Estou pronta!
Desde então, sempre que a máquina é ligada, há sempre uma pessoa, e nunca mais do que uma, que jura ouvir uma voz sofrida de mulher dizer essa mesma frase.
Mas a cerimônia continuou, como deveria. Todo o preparo foi feito e a multidão, que viera para uma festa, estava apreensiva. O que aconteceria, se perguntavam, se os dois oponentes tivessem certeza perfeita sobre suas posições. Isso nunca fora observado antes, ninguém jamais considerara a hipótese. Mas ali, por um momento, as pessoas tinham medo de que, pela primeira vez, o bebaiógrafo poderia falhar.
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Somos a Editora Cyberus. Este nome surge das palavras Cyperus, o gênero da planta originária responsável pela produção do papiro e Cérbero, o cão mitológico. Assim como o cão de três cabeças da mitologia grega, a linha editorial apresenta três gêneros: Fantasia, Ficção Científica e Horror.
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