introdução
É indiscutível certa necessidade muito peculiar que todas as sociedades humanas — das ancestrais até aquelas ditas “civilizadas” — possuem, que podemos sintetizar como a necessidade de indivíduos visionários e malditos existirem. Trata-se, de fato, de uma carência premente em pulsões e materializações heréticas, em percepções únicas, em formalizações inovadoras, em concepções fora de tempo e de lugar. Tudo isso ganha forma com objetos de culto, adoração, arte: rituais, edifícios, telas pintadas, narrativas, poesias.
Celebrando a essencial busca humana por heresia, mudança e revolução, essa nossa necessidade de visões e maldições, que a Raphus Press e a Contravento Editorial uniram forças para trazer aos leitores 3 traduções inéditas de autores vigorosamente visionários e/ou malditos: Mügle, de René Daumal, Sr. Morfeu, envenenador público, de Roger-Gilbert Lecomte, Em um Mundo Sonoro, de Victor Segalen.
3 autores & obras

Victor Segalen (1878-1919) encarnou em seu tempo algo como uma versão atualizada do polímata, tão usual à época do Renascentismo – o indivíduo em busca ce um saber universal. De fato, suas múltiplas ocupações parecem indicar esse espírito renascentista em plena Europa do século XIX: Segalen foi médico da marinha, romancista, poeta, etnógrafo, sinólogo e arqueólogo. Contudo, diferente dos polímatas do passado, centrados em um tipo de maravilhamento tecnológico, Segalen buscou em viagens, interiores e exteriores, novas percepções do mundo captado pelos sentidos.
E é exatamente essa descoberta de todo um mundo sinestésico que temos na novela Dans un monde sonore, publicada em 1907 pela Mercure de France, em que Segalen usou o pseudônimo de Max-Anély. Nessa narrativa, simultaneamente lírica e algo perturbadora, o autor mergulha na alucinação sinestésica, tornando o sentido da visão e da audição intercambiáveis e suspendendo o usual primado da visualização da narrativa escrita. A trama trata de um inventor me meio às descobertas de um imersivo espaço harmônico no qual se vê inserido.
Roger-Gilbert Lecomte nasceu em 1907 na cidade de Reims, onde futuramente viria a ser formado o grupo Le Grand Jeu, do qual foi um dos fundadores. Lecomte foi sem dúvida um dos poetas mais obscuros do grupo, realizando tantos poemas com ares de canção de bebedeira quanto cantos de negror e sombras.
Segundo seus amigos, Lecomte media o valor de uma pessoa pela sua capacidade de admiração, o que o levava aliás a dedicar pouca atenção à sua própria produção. Talvez seja por isso que, ao falecer aos 36 anos em 1943, a maior parte de sua produção estivesse inédita. Seu pai, enquanto único herdeiro, impediu durante anos a publicação dos escritos do filho, posição assumida após sua morte pela governanta da família. Foi somente graças a uma associação de amigos que os escritos de Lecomte começaram a ser sistematicamente reunidos e publicados na segunda metade do século XX.
Sem dúvida, tanto Senhor Morfeu, envenenador público quanto A horrível revelação... a única ocupam um lugar de proa no conjunto de sua obra, destacando-se como dois de seus textos mais provocantes e inventivos por associarem à sua ferocidade ensaística ímpar uma extraordinária bravura e criatividade. Não é à toa que Antonin Artaud falava da "trajetória incandescente": o que agora chega até nós são faíscas de uma vida.
Nascido em 1908 na cidade Boulzicourt (França), René Daumal se destacou ao lado de Roger-Gilbert Lecomte como um dos fundadores do grupo Le Grand Jeu [O Grande Jogo]. Junto com seus amigos do grupo, Daumal levou às últimas consequências o "desregramento de todos os sentidos" preconizado por Arthur Rimbaud, o que viria a lhe garantir um lugar em meio aos "malditos".
Mügle é uma novela escrita por René Daumal aos 17 anos e que permaneceu inédita até 1978, quando foi publicada pela Fata Morgana, com prefácio de Claudio Rugafiori. Em seu texto, Rugafiori é categórico ao afirmar que "Mugle pode ser considerado como um dos textos mais originais dos anos de 'prosa surrealista'", procedendo de uma "necessidade interior" e "escrito de um só jato e sem rasuras".
Todas as 3 edições que agora trazemos à luz são marcadas pelo duplo signo das editoras Raphus Press e Contravento Editorial. Meticulosas traduções inéditas assinadas por Natan Schäfer, além paratextos e orelhas assinados por pesquisadores da área
As recompensas

Essencialmente, as recompensas serão 3 edições desses autores fundamentalmente visionários e malditos — Victor Segalen, René Daumal e Roger-Gilbert Lecomte. Tais livros, nas dimensões 12 x 24 cm, foram cuidadosamente projetados para oferecer aos leitores um efeito sensorial compatível ao impacto fornecido pelo conteúdo narrativo e poético de cada uma das 3 obras, cada uma delas com cerca de 100 páginas. Cada edição terá acabamento, na capa e no miolo, em uma cor diferente — cor essa pensada a partir dos elementos da própria trama individual dos livros.



O projeto gráfico será feito seguindo as diretrizes das duas casas editoriais envolvidas — que privilegiam a reviravolta, a estilização e o efeito vertiginoso. Abaixo, a primeira página e a página de rosto da novela de Segalen no formato que utilizaremos na série e em uma cor avermelhada, relacionada com a trama:


Abaixo, uma projeção de como será cada uma dessas obras:



Sobre o tradutor e os colaboradores
Natan Schäfer (Ibirama, 1991) é mestre em estudos literários pela Universidade Federal do Paraná e pela Université Lumière Lyon 2. Foi professor do curso de Bacharelado em Artes Visuais da UNESPAR e tradutor convidado nas residências Looren América Latina (Suíça) e Résidence Passa Porta (Bélgica). É autor de Taquaras (Contravento Editorial, 2022) e tradutor de, dentre outros, Por uma insubmissão poética (Sobinfluência, 2022), La promenade de Vénus (Venus D'Ailleurs, 2022) e Sonho e poesia, de Otto Rank (Blucher, 2023). Atualmente é membro da Psychoanalytische Bibliothek Berlin e responsável pela Contravento Editorial, também publicando regularmente na revista Pessoa e assinando a coluna "A Fresta", publicada de 2020 a 2022 na página da editora Sobinfluência, e atualmente na página da editora Aboio. Além disso, dá a ver em desenhos, pinturas, escritos e fotografias algo da poesia que lhe atravessa.
Nascido no Rio de Janeiro (1958), o artista plástico Rony Bellinho reside atualmente em Cascavel, após vários anos radicado em Curitiba. Conhecido por sua capacidade de mesclar experiências cotidianas com o universo artístico, produz suas obras com visíveis referências dos diversos campos das artes visuais e da literatura. Rony participou da Bienal Internacional de Curitiba e de outras exposições coletivas e individuais em diversos museus, centros culturais e galerias de diversos países. Entre suas principais exposições individuais estão: Finis Lapa, 2007 (Cascavel/PR); Galeria Subsolo (Curitiba/PR) e Centro Cultural Recoleta (Buenos Aires).
Sobre sua obra, Giovanna Martucci anota: "Imagens com estruturas narrativas intensas, mesmo que emblemáticas, apontam a um posicionamento literário do artista. Em uma crítica escrita por Adalice Araújo no Dicionário de Artes Plásticas do Paraná, comenta-se: 'Rony serve-se de uma figuração gestual de cunho neo-expressionista para liberar seus daemons íntimos'".
Alcebiades Diniz Miguel é professor, tradutor, pesquisador e escritor, tendo por especialidade as narrativas, a criação de histórias, o registro de universos fantásticos no papel. Bacharel em linguística pela USP, realizou mestrado, doutorado e pós-doutorado na Unicamp e na USP, tendo, nesse percurso, passado por um estágios de pesquisa na Brunel University, na British Library e na Fundação Biblioteca Nacional, onde realizou minucioso trabalho analítico em torno da imprensa simbolista brasileira. Realizou traduções para diversas editoras como Sol Negro, Carambaia, Sebo Clepsidra, Ex Machina, Novo Século e Perspectiva, de autores como Gérard de Nerval, H. G. Wells, Dolfi Trost, Nathanael West, Arthur Machen, Henry James, Robert Aickman e Thomas de Quincey. Algumas de suas pesquisas/traduções, de obras escritas por J. G. Ballard e Xul Solar, permanecem inéditas.
Sobre as editoras
Nos últimos anos, a Raphus Press dedicou-se a lançar obras únicas tanto em termos de forma quanto de conteúdo. São edições breves, cuja extinção, por assim dizer, é rápida – ou seja, logo ficam fora de catálogo e como não costumamos fazer reimpressões, deixam seus vestígios no mundo real e virtual. Por isso nossos livros são únicos, artesanais, com elementos formais diferenciados que buscam tornar a experiência de leitura única. Já no quesito conteúdo, nosso foco sempre foi um certo tipo de ficção fantástica experimental, brutal e feroz que ganhou diversas denominações – neodecadentismo, Ficção Hiperimaginativa (FHi), etc. Por conta da natureza do material em si e das editoras obscuras aos quais esse tipo de criação está vinculado, seus autores, advindos das mais diversas e remotas paragens (incluindo Israel, Groelândia, Dinamarca...) optaram por utilizar o inglês como língua franca em seus manuscritos.
A Raphus publicou seus livros exclusivamente em inglês por algum tempo, mas chegou o momento de trazer para o leitor brasileiro toda a riqueza dessas novas tendências do fantástico, da ficção terrorífica e da literatura especulativa em português! Nesse sentido, e dando continuidade ao projeto que iniciamos com a campanha bem-sucedida de O Baluarte Tomado, narrativa visionária de Damian Murphy, seguida pela campanha para lançamento das inovadoras visões poéticas e narrativas em Cartes de Visite,de Mark Valentine e Dádiva, de D P. Watt, depois a prosa tensa de Justin Isis em A Neve e a poesia solar de Jonathan Wood em Dias de Sol. Já em 2020 tivemos a narrativa de uma outra Europa escrita por Mark Valentine e John Howard, Restos de Sombra, além da ficção especulativa extremamente densa de Brian Evenson com Mater. Um de nossos últimos projetos: a poesia de horror cósmico, através de seu expoente atual mais importante, Wade German, com seu Incantations/Sortilégios.
A Contravento Editorial foi fundada pela artista Flávia Chornobai — hoje radicada em Milão (Itália) — e por Natan Schäfer em 2016. Seu perfil é o de uma microeditora independente, voltada à subversão pela escrita, imagem e tato. Assim, a Contravento busca proporcionar aos seus leitores inquietações através de uma relação íntima com o livro, situando-o na fronteira entre o livro-de-artista e o livro comercial, e abrindo frestas para a transformação do mundo e a mudança da vida. Dentre os autores publicados se encontram a dupla Bolívar Escobar e Gabriel Jacobi, Marcelo De Angelis, Guilherme Gontijo Flores, Julia Raiz, Sergio Lima, Zuca Sardan e Julie Fank.
Status do projeto
As 3 obras estão completamente traduzidas, com suas ilustrações já prontas e paratextos preparados. Com a campanha, pretendemos obter os fundos necessários para enviar o material para a gráfica


