Sobre o projeto: o horror lírico
No primeiro semestre deste ano, através de nossa campanha (financiada com sucesso) Sortilégios/Incantations, o público brasileiro apreciador da insólita mescla de horror sobrenatural e lirismo conheceu Wade German. German é uma figura conhecida no ambiente Weird, de publicações e coletâneas organizadas por nomes como S. T. Joshi, grande scholar em H. P. Lovecraft. E essa notoriedade, de Wade German, não é para menos, como bem está provado em suas coleções de poemas Dreams from a Black Nebula (pela Hippocampus Press), The Ladies of the Everlasting Lichen and Other Relics(em edição magnífica de Dan Ghetu da lendária Mount Abraxas Press, de Bucareste) e o nosso Sortilégios. A poesia de German segue o lirismo horrorífico, filosófico, metafísico praticado pioneiramente (ao menos no século XX) por H. P. Lovecraft (um poeta notável, cuja riqueza lírica só agora começa a ser explorada, analisada e editada) ou Clark Ashton Smith, tendo entre seus realizadores contemporâneos nomes como o de Thomas Ligotti. Mas a dicção do autor de Sortilégios é muito própria, original, visionária; um paganismo primitivo, vivo e dinâmico atravessa esses poemas com a eletricidade da subversão, da heresia.
Depois, trouxemos aos nossos leitores a peça de teatro, em versos brancos, As Crias de Hypnos/The Children of Hypnos. Mais uma obra espetacular de Wade German – uma espécie de redimensionamento do pensamento vigente na época do paganismo da Antiguidade em seus aspectos mais tétricos e brutais. Síntese entre invocação dos efeitos da tragédia grega e narrativa de terror Weird, Crias foi reconhecido como um livro espetacular.
Agora, trazemos nosso terceiro livro de Wade German para o leitor brasileiro – novamente em primorosa edição bilíngue, inglês e português. Trata-se de outra série de poemas breves e evocativos, intensos como um conto de horror de H. P. Lovecraft ou testemunhar, de fato, a um rito ancestral e sangrento. Esse novo experimento de terror, produzido por German, leva um título bastante adequado: Aparições/Apparitions.
Aparições, o livro
A poesia de German, poderosa e plena de um aspecto visionário e sombrio notável, vincula-se à grande tradição da lírica de horror, que teve já no século XX um H. P. Lovecraft como grande expoente. A poesia lírica, ao se configurar desde a Antiguidade como um estranho gênero em que reina a subjetividade – não sendo, portanto, necessária ou naturalmente descritivo/narrativo – fornece possibilidades inauditas de terror pela comunhão das experiências e da visão do poeta com seu leitor, como uma prece ou a expressão de espanto vagamente articulada que temos após um sonho maravilhoso ou terrível pesadelo. A poesia de German, nesse sentido, oferece essa completa comunhão do leitor em uma experiência de terror breve, única e inesquecível.
A tradução desses poemas espetaculares foi realizada pelo editor da Raphus Press, Alcebiades Diniz Miguel. Alcebiades é professor, tradutor, pesquisador e escritor, tendo por especialidade as narrativas, a criação de histórias e o registro de universos fantásticos no papel. Bacharel em linguística pela Universidade de São Paulo (USP), realizou mestrado, doutorado e pós-doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), tendo, nesse percurso, passado por um estágio de pesquisa na Brunel University e na British Library, em Londres. Realizou traduções para as editoras Sol Negro, Carambaia, Sebo Clepsidra e Perspectiva, de autores como H. G. Wells, Dolfi Trost, Nathanael West e Thomas de Quincey.
Em termos de layout, o livro terá uma abordagem semelhante aos outros volumes de Wade German publicados pela Raphus Press. Capa dura, em torno de 50 páginas, acabamento de primeira e construções visuais para acompanhar as sinistras elocubrações do poeta. Se em Sortilégios/Incantations utilizamos as cartas de um velho baralho de tarô, com todo seu mistério e simbologia, enquanto em As Crias de Hypnos/The Children of Hypnos reproduzimos as páginas de um velho tratado de astrologia, aqui utilizaremos fotografias e ilustrações de bizarros fenômenos da natureza – aparições abstratas e tétricas disponíveis ao olhar mais atento de artistas e seus aparatos de registro. Assim, a capa trará slides antigos de lanternas mágicas, dispositivo precursor do cinema, descrevendo um evento apocalíptico à época (século XIX). A ideia, nessas escolhas estéticas, é captar a atmosfera de presságio que atravessa todos os poemas do livro. Assim, as ilustrações internas serão reproduções das capas da revista Le Petit Journal, um semanário sensacionalista parisiense bastante popular entre o final do século XIX e início do século XX, cujas espetaculares ilustrações, fora de seu contexto imediato – já, por si só, perturbador, uma vez que o foco dessa revista eram os acidentes e demais ocorrências mais sangrentas possível – tornam-se estranhos presságios, imagens premonitórias como de um tarô alucinante.
Abaixo, a reprodução da capa, do frontispício, da folha de rosto, da epígrafe e do primeiro poema do livro, já traduzido.
Epígrafe.
Ilustração interna, referente ao poema "Runa".
As recompensas
Além do livro Aparições/Apparitions, os apoiadores poderão optar por combinações com o código para download de poemas do livro anterior de German publicado por nós, Sortilégios, recitados pelo excepcional Oscar Nestarez, um dos grandes nomes do terror contemporâneo nacional.
Também será possível adquirir os últimos exemplares de Sortilégios/Incantations ou a versão (limitada e numerada) em CDR do recital de Nestarez, com capa impressa pela Phonte88, além de postal exclusivo. Nesse CD-R, estará também, com exclusividade, o recital de Nestarez para "Eu, Goya", poema de German que figura na coletânea em homenagem ao pintor espanhol Chiaroscuro Void/Abismo em Chiaroscuro, lançada recentemente pela Raphus Press.
Acima, imagens da maquete da capa do CDR, a ser produzida pelo estúdio Phonte88.
Os últimos exemplares dos livros anteriores do autor, os poemas tétricos de Incantations/Sortilégios e a mescla de horror cósmico e tragédia grega, As Crias de Hypnos, estarão, igualmente, disponíveis em algumas recompensas.
Sobre a editora
Nos últimos anos, a Raphus Press dedicou-se a lançar obras únicas tanto em termos de forma quanto de conteúdo. São edições breves, cuja extinção, por assim dizer, é rápida – ou seja, logo ficam fora de catálogo e como não costumamos fazer reimpressões, deixam seus vestígios no mundo real e virtual. Por isso nossos livros são únicos, artesanais, com elementos formais diferenciados que buscam tornar a experiência de leitura única. Já no quesito conteúdo, nosso foco sempre foi um certo tipo de ficção fantástica experimental, brutal e feroz que ganhou diversas denominações – neodecadentismo, Ficção Hiperimaginativa (FHi), etc. Por conta da natureza do material em si e das editoras obscuras aos quais esse tipo de criação está vinculado, seus autores, advindos das mais diversas e remotas paragens (incluindo Israel, Groelândia, Dinamarca...) optaram por utilizar o inglês como língua franca em seus manuscritos.
A Raphus publicou seus livros exclusivamente em inglês por algum tempo, mas chegou o momento de trazer para o leitor brasileiro toda a riqueza dessas novas tendências do fantástico, da ficção terrorífica e da literatura especulativa em português! Nesse sentido, e dando continuidade ao projeto que iniciamos com a campanha bem-sucedida de O Baluarte Tomado, narrativa visionária de Damian Murphy, seguida pela campanha para lançamento das inovadoras visões poéticas e narrativas em Cartes de Visite, de Mark Valentine e Dádiva, de D P. Watt, depois a prosa tensa de Justin Isis em A Neve e a poesia solar de Jonathan Wood em Dias de Sol. Já em 2020 tivemos a narrativa de uma outra Europa escrita por Mark Valentine e John Howard, Restos de Sombra, além da ficção especulativa extremamente densa de Brian Evenson com Mater. Um de nossos últimos projetos: a poesia de horror cósmico, através de seu expoente atual mais importante, Wade German, com seu Incantations/Sortilégios.
A Raphus Press faz parte da Coesão Independente.










