Pois essa grande mente e essa grande memória podem ser evocadas por meio de símbolos.
(W. B. Yeats)
Introdução
Em uma busca incessante por novos caminhos — no que diz respeito a autores e tradições, sem dúvida, mas também por novos formatos para o objeto livro —, a Raphus Press encontrou inúmeros pioneiros e precursores, apontando caminhos instigantes, únicos. Assim, recentemente tivemos contato com duas editoras extraordinárias: a Occult Press, da Itália/EUA, e a Black Letter Press, de Hannover, na Alemanha. Essas duas pequenas editoras se especializaram em um tipo de ocultismo não ritualístico, uma literatura visionária extremamente rica e simbolicamente densa, representando aos leitores uma espécie de jornada iniciática na forma de narrativa e poesia. Focados nessa singular produção que atravessou séculos desde o Renascimento, essas duas editoras publicam romances pouco usuais, volumes de poesia esotérica e mesmo grimórios e volumes de ocultismo renascentista (essas duas categorias finais são uma especialidade da Black Letter Press). Trata-se de um cânone muito peculiar, antecipador de obras do século XX como Uma Jornada para Arcturus, de David Lindsay, Uma Visão, de W. B. Yeats e mesmo O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco ou certas obras de Alan Moore, como Anjos Fósseis.
Para trazer ao leitor esse estranho cânone visionário, apresentamos aos nossos leitores a série CONSTELAÇÕES, especializada nessas obras que escapam das padronizações convencionais, dos cânones consagrados. Inaugurando essa série, teremos dois livros extraordinários: O Deus-Sonho, singular obra visionária de John Cunningham, e Urx Quonox, conjunto de narrativas de um bárbaro em um transfigurado mundo pós-apocalíptico, escritas por Adam S. Cantwell, além das estranhezas poéticas de Milenko Županović na concertina bilingue Poesia Herege na Terra da Magia e da Hipnose. Também lançaremos na campanha a mais nova colaboração da Raphus Press com a Contravento Editorial: O Lince de Lábios Azuis, de Hervé Delabarre, um espetacular experimento poético vertido em escrita automática — obra em diálogo com as outras da campanha, pois o automatismo surrealista possuía suas ressonâncias ritualísticas e ocultas.
As recompensas
As três recompensas — dois livros e uma concertina — foram pensadas para fornecer aos nossos leitores experiências únicas dentro da série de livros que inauguramos aqui, Constelações. Assim, esses dois livros servem como uma apresentação de um conjunto de obras muito singular, ampliando bastante a noção usual de literatura ocultista que temos no mercado editorial brasileiro, em geral voltado a abordagens ritualísticas ou de ensaios histórico-biográficos a respeito do tema.
O Deus-Sonho é um relato bastante peculiar: trata-se de uma narrativa visionária, extremamente complexa e elaborada, realizada sob o efeito da morfina. Originalmente publicado com o título The Dream-God, or A Singular Evolvement of Thought in Sleep, publicado em 1873. As imagens vividas surgem durante essa jornada lisérgica, enquanto diferentes influências — como é o caso de Fausto, em suas múltiplas formas — entrecortam a trama. Sem dúvida, trata-se de uma obra cuja leitura constitui extraordinária experiência — e a tradução de Bruno Costa preserva os detalhes únicos da prosa visionária dessa enigmática obra. Tal viagem, produzida pela misteriosa figura de seu autor John Cunningham, será acompanhada do ensaio “Deus-sonho e viagem imóvel”, de Alcebiades Diniz Miguel.
Já Urx Quonox, de Adam S. Cantwell — um autor frequente das coletâneas produzidas pela Raphus Press — é uma das obras mais estranhas produzidas por autores ligados ao movimento neodecadentista. Publicada originalmente pela lendária editora romena Mount Abraxas, essa coletânea de três histórias possui, como protagonista, Grasm, espécie de bárbaro e mercenário que sobrevive em uma paisagem de pesadelo pós-apocalíptico. Damian Murphy, um dos mais importantes autores neodecadentes, disse o seguinte deste livro: “Imagine os romances da série Viriconium, de M. John Harrison, ou a New Sun, de Gene Wolfe, escritos por Gabrielle Wittkop — talvez essa imagem dê uma ideia do conteúdo deste livro, embora ele seja, em última análise, uma obra bem única. Exuberante, audacioso, errático e infinitamente sedutor, o texto de Urx Quonox consiste em três fragmentos consecutivos da vida de um bárbaro que consegue, de alguma forma e contra todas as possibilidades, alcançar certos objetivos, inacessíveis por meios convencionais.” Tradução e texto de apresentação por Alcebiades Diniz Miguel.
Por fim, teremos O Lince de Lábios Azuis, bela edição com prefácio assinado por Jean-Pierre Guillon e posfácio por Guy Girard, além da tradução de Natan Schäfer, grande tradutor das vanguardas mais heréticas relacionadas ao surrealismo ao português. Temos, neste livro de Hervé Delabarre, uma breve obra-prima inspirada nas noções de escrita automática, tão caras ao surrealismo — ou seja, a ideia de uma escrita rápida, sem tema pré-estabelecido, como se o autor abrisse a possibilidade do desconhecido surgir, inadvertidamente, no meio de seu processo de construção do livro. Além de André Breton e dos surrealistas, grandes místicos e ocultistas contemporâneos — como W. B. Yeats — empregaram a escrita automática e Delabarre, nesse sentido, parece escancarar ao leitor as portas do ignoto em seu texto.
Por fim, teremos, em nossa campanha, a concertina Poesia Herege na Terra da Magia e da Hipnose, de Milenko Županović. Trata-se de uma breve e intensa jornada pelos arquétipos poéticos da devoção e da heresia. Milenko e sua poesia — de inspiração expressionista, concisa e explosiva —, nesse sentido, evocam a experiência de leitura de um autor como o místico medieval Mestre Eckhart (1260-1328), em textos nos quais a piedosa visão religiosa é recortada pela percepção herética. Mais uma pequena pérola, desta vez traduzida para o português.
Os quatro materiais da campanha serão impressos em papel especial, tendo formato (no caso dos dois da coleção Constelações) 12x19 cm (por volta de 70 páginas para O Deus-Sonho e 80 em Urx Quonox), recuperando os assim chamados livros de horas — livros de devoção pessoal para leigos, populares na Idade Média e no Renascimento, que continham orações para diferentes horas do dia, calendários, salmos e, em muitos casos, ricas iluminuras, que refletiam a riqueza e gosto pessoal do proprietário do livro.
Outras recompensas
Além desses lançamentos, traremos obras de nosso catálogo diretamente relacionadas ao oculto e ao tenebroso. Começando com um livro já clássico no catálogo da Raphus Press, o horror ocultista de Convite para a Invocação, do dinamarquês Karim Ghahwagi, um autor com vários livros publicados pela Raphus Press. Lançado em 2024, essa peculiar narrativa centrada em eventos horríficos que teriam ocorrido durante a anexação da Áustria pela Alemanha nazista, em meados dos anos 1930, é de fato apavorante como os melhores exemplos de folk horror em literatura. Uma resenha bastante precisa do livro de Karim pode ser vista aqui.
Ainda nessa categoria de recompensa adicional, oferecemos aos apoiadores da campanha (em certas categorias de apoio) uma obra centrada na necromancia: a narrativa em forma teatral Crias de Hypnos, escrita por um poeta especializado em horror cósmico vertido através de versos, Wade German — outro autor que aprecia publicar seus sombrios manuscritos pela Raphus Press. Em Crias de Hypnos, temos a descrição dos rituais ancestrais (situados na antiguidade grega) de evocação dos mortos, ao mesmo tempo em que divindades infernais se apossaram do universo conhecido. Trata-se de uma vertiginosa trama de horror cósmico, que foi muito bem resenhada pelo pesquisador, editor e agitador cultural Ismael Chaves aqui.

Dos tradutores
Alcebiades Diniz Miguel é professor, tradutor, pesquisador e escritor, tendo por especialidade as narrativas, a criação de histórias, o registro de universos fantásticos em forma de narrativa. Bacharel em linguística pela USP, realizou mestrado, doutorado e pós-doutorado na Unicamp e na USP, tendo, nesse percurso, passado por um estágios de pesquisa na Brunel University, na British Library e na Fundação Biblioteca Nacional, onde realizou minucioso trabalho analítico em torno da imprensa simbolista brasileira. Realizou traduções para diversas editoras como Sol Negro, Carambaia, Sebo Clepsidra, Ex Machina, Novo Século, Perspectiva e Contexto, de autores como Gérard de Nerval, H. G. Wells, Dolfi Trost, Nathanael West, Arthur Machen, Henry James, Robert Aickman e Thomas de Quincey. Algumas de suas pesquisas/traduções, de obras escritas por J. G. Ballard e Xul Solar, permanecem inéditas.
Bruno Costa é editor e tradutor desde 1997. Colaborou com as principais editoras e instituições do país (Zahar, Globo, Cosac Naify, Bienal de São Paulo, IMS, SESC-SP etc.) e foi sócio e editor da Hedra. Traduziu Diderot, Crevel, Artaud, Sebbag, Satie, Aickman, Capra, Delteil, Yves Michaud, Jonatham Lethem, Bierce, Brian Evenson, entre outros. Em 2013, fundou a Editora Ex Machina. Trabalha desde 200
Natan Schäfer (Ibirama, 1991) é mestre em estudos literários pela Universidade Federal do Paraná e pela Université Lumière Lyon 2. Foi professor do curso de Bacharelado em Artes Visuais da UNESPAR e tradutor convidado nas residências Looren América Latina (Suíça) e Résidence Passa Porta (Bélgica). É autor de Taquaras (Contravento Editorial, 2022) e tradutor de, dentre outros, Por uma insubmissão poética (Sobinfluência, 2022), La promenade de Vénus (Venus D'Ailleurs, 2022) e Sonho e poesia, de Otto Rank (Blucher, 2023). Atualmente é membro da Psychoanalytische Bibliothek Berlin e responsável pela Contravento Editorial, também publicando regularmente na revista Pessoa e assinando a coluna "A Fresta", publicada de 2020 a 2022 na página da editora Sobinfluência, e atualmente na página da editora Aboio. Além disso, dá a ver em desenhos, pinturas, escritos e fotografias algo da poesia que lhe atravessa.
Sobre as editoras
Nos últimos anos, a Raphus Press dedicou-se a lançar obras únicas tanto em termos de forma quanto de conteúdo. São edições breves, cuja extinção, por assim dizer, é rápida – ou seja, logo ficam fora de catálogo e como não costumamos fazer reimpressões, deixam seus vestígios no mundo real e virtual. Por isso nossos livros são únicos, artesanais, com elementos formais diferenciados que buscam tornar a experiência de leitura única. Já no quesito conteúdo, nosso foco sempre foi um certo tipo de ficção fantástica experimental, brutal e feroz que ganhou diversas denominações – neodecadentismo, Ficção Hiperimaginativa (FHi), etc. Por conta da natureza do material em si e das editoras obscuras aos quais esse tipo de criação está vinculado, seus autores, advindos das mais diversas e remotas paragens (incluindo Israel, Groelândia, Dinamarca...) optaram por utilizar o inglês como língua franca em seus manuscritos.
A Raphus publicou seus livros exclusivamente em inglês por algum tempo, mas chegou o momento de trazer para o leitor brasileiro toda a riqueza dessas novas tendências do fantástico, da ficção terrorífica e da literatura especulativa em português! Nesse sentido, e dando continuidade ao projeto que iniciamos com a campanha bem-sucedida de O Baluarte Tomado, narrativa visionária de Damian Murphy, seguida pela campanha para lançamento das inovadoras visões poéticas e narrativas em Cartes de Visite,de Mark Valentine e Dádiva, de D P. Watt, depois a prosa tensa de Justin Isis em A Neve e a poesia solar de Jonathan Wood em Dias de Sol. Já em 2020 tivemos a narrativa de uma outra Europa escrita por Mark Valentine e John Howard, Restos de Sombra, além da ficção especulativa extremamente densa de Brian Evenson com Mater. Um de nossos últimos projetos: a poesia de horror cósmico, através de seu expoente atual mais importante, Wade German, com seu Incantations/Sortilégios.
A Contravento Editorial foi fundada pela artista Flávia Chornobai — hoje radicada em Milão (Itália) — e por Natan Schäfer em 2016. Seu perfil é o de uma microeditora independente, voltada à subversão pela escrita, imagem e tato. Assim, a Contravento busca proporcionar aos seus leitores inquietações através de uma relação íntima com o livro, situando-o na fronteira entre o livro-de-artista e o livro comercial, e abrindo frestas para a transformação do mundo e a mudança da vida. Dentre os autores publicados se encontram a dupla Bolívar Escobar e Gabriel Jacobi, Marcelo De Angelis, Guilherme Gontijo Flores, Julia Raiz, Sergio Lima, Zuca Sardan e Julie Fank.
Estado do projeto
As traduções de O Deus-Sonho, O Lince de Lábios Azuis e Poesia Herege na Terra da Magia e da Hipnose estão prontas, o mesmo valendo para a diagramação. A tradução de Urx Quonox, por sua vez, já começou e será feita de modo tradicional, para que seja possível documentar (em vídeo e no substack da RES FICTA). Os paratextos, da mesma forma, estão prontos ou quase prontos.






