Introdução: horror pós-humano
Não é novidade que estamos diante de uma revolução tecnológica sem precedentes com os recentes desenvolvimentos da Inteligência Artificial. Mas essa revolução vai além: ao construir, pela força bruta de servidores espalhados pelo mundo, uma emulação do intelecto, algoritmos e aplicações de IA parecem questionar o nosso estatuto mesmo de espécie racional, consciente de si e de seu destino: seríamos realmente tão conscientes assim? Saberíamos quando essa emulação imperfeita de intelecto se transformaria, por força do avanço tecnológico, em um intelecto consciente, de fato? O que faríamos diante de tal transformação possível, previsível?
Com as narrativas do premiado Brian Evenson, em seu ciclo pós-humano, adentramos nesse universo instável, movediço. Evenson arquiteta duas tramas metodicamente, trabalhando cada elemento da equação narrativa com o cuidado e a sofisticação de um mestre em ourivesaria, alinhavando achados e inovações em termos de trama a um sofisticado escopo filosófico, sem jamais deixar de lado uma percepção visionária e instigante, que projeto o leitor para um universo febril, lisérgico, brutal, vertiginoso — o universo crepuscular da possível extinção.
Os livros
Nós, da Raphus Press, temos a honra de já termos publicado diversas histórias de Brian Evenson — desde 2019, ao menos. E assim, já em 2020, lançamos o projeto Mother/Mater, aqui no Catarse, trazendo aos leitores a primeira narrativa de Evenson ambientada nesse estranho mundo de pós-humanidade, em que máquinas complexas (que não são nem robôs, nem computadores, mas equipamentos singulares moldados pela fervilhante imaginação do autor ) interagem com seres humanos, sempre em busca da respostas para os paradoxos com os quais se deparam através de seus intelectos (e sensibilidades) simulados.
Em 2021, lançamos — fora do Catarse — Annex/Anexo, outra obra em que horror e ficção especulativa conjugavam suas forças na representação de outras formas de compreensão da realidade. O universo pós-humano de Evenson ganhava amplitude, tornava-se vasto e intrincado. A Raphus lançou outros livros do autor, ambientados nessa realidade pós-humana, mas essas duas narrativas originárias, as pedras fundamentais de um horror que se manifestava sem sobrenatural e sem monstros/situações convencionais, tornaram-se raridades.
Para mudar isso, lançamos nossa campanha, Crepúsculo da Humanidade: através dela, relançaremos Mother/Mater e Annex/Anexo, que trará ao leitor ansioso pela descoberta de novas possibilidades do terror, distantes do senso comum, uma leitura instigante.
E, aproveitando o momento, anunciamos o novo título da série de livros de horror pós-humano de Brian Evenson, publicados pela Raphus: Dominion/Domínio, narrativa de terror que possui contornos apocalípticos e quase teológicos, que justamente tematiza a forma como a humanidade parece tratar, displicentemente, essas novas formas de consciência eletrônica… até ser tarde demais! Como nos livros anteriores de Evenson ambientados nesse universo e lançados pela Raphus, temos aqui um cuidadoso trabalho de direção de arte, cujo objetivo é justamente amplificar os significados e impacto da narrativa de Evenson. No caso de Dominion/Domínio, as imagens que convivem com o texto são gravuras do holandês Jan Luyken (1649-1712) representando torturas e execuções resultantes de perseguições aos cristãos desde a época do Império Romano. As imagens realistas de Luyken, representando hereges perseguidos por suas ideias, se casa perfeitamente com a proposta narrativa de Dominion/Domínio.
As concertinas
Apesar de toda a sofisticação de seu universo pós-humano, Brian Evenson está longe de se restringir a um tipo de abordagem, um aspecto específico da narrativa de horror. Suas histórias, embasadas por certo minimalismo narrativo que sugere, à superfície, algum tipo de simplicidade enganosa na trama, se desenvolvem em torno da consciência e percepção dos personagens até os limites tanto do horror físico quanto da sanidade. Assim, aproveitamos o amplo escopo deste projeto para trazer aos leitores outras pérolas do universo narrativo do autor.
Optamos, no caso dessas outras aventuras narrativa, pelo formato concertina: as narrativas serão impressas em longas pranchas que se dobram e desdobram, revelando a história. Nesse formato peculiar, artesanal e interativo, teremos, nesta campanha, duas narrativas: Disciplina e Heathman Lodge.
Disciplina é uma história que tem por pano de fundo a guerra e carnificina, transfigurados por uma percepção alucinada e distorcida. É forte, nesse sentido, o humor negro e a sátira Já Heathman Lodge, concertina que terá uma forma próxima a um mapa que se abre e desdobra, apresenta as andanças de personagens por um país, os EUA, de paranóia, em que a distorção da realidade ganha aspectos ao mesmo tempo metafísicos e possíveis.
As recompensas
Para esta campanha, teremos, portanto 3 livros e 2 concertinas. No caso dos livros:
- Mother/Mater e Annex/Anexo, ambos bilíngues, capa dura, 50 páginas com ilustrações, 14 x 20 cm, tradução de Fábio Waki; Dominion/Domínio, livro com as mesmas configurações dos outros dois, tradução de Bruno Costa.
Para as concertinas:
- Disciplina e Heathman Lodge: concertinas com imagens coloridas, traduzidas por Alcebiades Diniz Miguel; Disciplina terá três pranchas de 20 x 20 cm; Heathman Lodge será bilingue e terá o formato de um mapa com oito pranchas de 15 x 20 cm.
Tais recompensas estão organizadas em apoios cujo valor crescente corresponde ao número de livros escolhidos. Assim, em primeiro lugar teremos recompensas que correspondem aos livros individuais: Mother/Mater, Annex/Anexo e Dominion/Domínio podem ser adquiridos individualmente, para quem deseja completar a coleção, através de recompensas de R$ 55,00 cada. Por outro lado, podem ser adquiridos em recompensas nos quais há combinações de dois deles (por R$ 90,00).
As concertinas terão uma recompensa exclusiva, aos entusiastas do formato (no valor promocional de R$ 50,00). Também será possível obter as concertinas em pacotes com os livros: (4x Evenson, com dois livros e duas concertinas por R$ 130,00; Toda a Extinção, pacote mais completo da companha, com todos os itens disponíveis, cujo preço ficou em R$ 180,00).
Sobre o autor
Nascido em 1966 em Iowa, Brian Evenson destacou-se nos últimos anos como autor de obras de ficção como seu premiado romance Last Days. Estudioso de filosofia e da crítica literária tanto quanto um virtuose nas artes narrativas, consegue estruturar suas tramas com elementos minimalistas que se encaminham em formulações de crescente complexidade para finais singulares e inusitados.
Sobre a equipe de produção
Alcebiades Diniz Miguel é professor, tradutor, pesquisador e escritor, tendo por especialidade as narrativas, a criação de histórias, o registro de universos fantásticos em forma de narrativa. Bacharel em linguística pela USP, realizou mestrado, doutorado e pós-doutorado na Unicamp e na USP, tendo, nesse percurso, passado por um estágios de pesquisa na Brunel University, na British Library e na Fundação Biblioteca Nacional, onde realizou minucioso trabalho analítico em torno da imprensa simbolista brasileira. Realizou traduções para diversas editoras como Sol Negro, Carambaia, Sebo Clepsidra, Ex Machina, Novo Século e Perspectiva, de autores como Gérard de Nerval, H. G. Wells, Dolfi Trost, Nathanael West, Arthur Machen, Henry James, Robert Aickman e Thomas de Quincey. Algumas de suas pesquisas/traduções, de obras escritas por J. G. Ballard e Xul Solar, permanecem inéditas.
Bruno Costa é editor, tradutor e organizador de antologias. Foi sócio e editor da Hedra, onde idealizou e editou a Série Lovecraft, a Série Erótica e lançou traduções pioneiras, sempre do original, de autores clássicos contemporâneos islandeses, finlandeses, suecos, romenos e húngaros. Em 2013, fundou a Editora Ex Machina. Como tradutor, coordenou o núcleo de traduções da Editora Abril e verteu obras de Diderot, Yves Michaud, Crevel, Artaud, Georges Sebbag, Satie, Jonathan Lethem, Fritjof Capra, Edgar Lee Masters, Ambrose Bierce, entre outros. Em 2022, a Editora Ex Machina foi a única editora brasileira a receber fomento da Wales Literature Exchange.
Fábio Waki é Bacharel em Estudos Literários (2012) e Mestre em Linguística/Estudos Clássicos (2015) pela Universidade Estadual de Campinas e estudante de doutorado em Materialidades da Literatura (2016) na Universidade de Coimbra. Foi pesquisador visitante nos Departamentos de Inglês da King’s College London (2015) e da Universidade de Estocolmo (2018) e na Biblioteca Nacional da Suécia (2018). É especialista em Literatura Clássica e Literatura Inglesa, bem como em Crítica Criativa e Investigação Artística Literária.
Sobre a Editora
Nos últimos anos, a Raphus Press dedicou-se a lançar obras únicas tanto em termos de forma quanto de conteúdo. São edições breves, cuja extinção, por assim dizer, é rápida – ou seja, logo ficam fora de catálogo e como não costumamos fazer reimpressões, deixam seus vestígios no mundo real e virtual. Por isso nossos livros são únicos, artesanais, com elementos formais diferenciados que buscam tornar a experiência de leitura única. Já no quesito conteúdo, nosso foco sempre foi um certo tipo de ficção fantástica experimental, brutal e feroz que ganhou diversas denominações – neodecadentismo, Ficção Hiperimaginativa (FHi), etc. Por conta da natureza do material em si e das editoras obscuras aos quais esse tipo de criação está vinculado, seus autores, advindos das mais diversas e remotas paragens (incluindo Israel, Groelândia, Dinamarca...) optaram por utilizar o inglês como língua franca em seus manuscritos.
A Raphus publicou seus livros exclusivamente em inglês por algum tempo, mas chegou o momento de trazer para o leitor brasileiro toda a riqueza dessas novas tendências do fantástico, da ficção terrorífica e da literatura especulativa em português! Nesse sentido, e dando continuidade ao projeto que iniciamos com a campanha bem-sucedida de O Baluarte Tomado, narrativa visionária de Damian Murphy, seguida pela campanha para lançamento das inovadoras visões poéticas e narrativas em Cartes de Visite,de Mark Valentine e Dádiva, de D P. Watt, depois a prosa tensa de Justin Isis em A Neve e a poesia solar de Jonathan Wood em Dias de Sol. Já em 2020 tivemos a narrativa de uma outra Europa escrita por Mark Valentine e John Howard, Restos de Sombra, além da ficção especulativa extremamente densa de Brian Evenson com Mater. Um de nossos últimos projetos: a poesia de horror cósmico, através de seu expoente atual mais importante, Wade German, com seu Incantations/Sortilégios.











