Introdução: outros criadores do mundo
Desde o princípio se distingue o papel (fecundo ou funesto, não importa) que desempenha, na origem dos acontecimentos, não a felicidade, mas a ideia de felicidade, ideia que explica por que, tendo a idade de ferro a mesma extensão da história, cada época dedica-se a divagar sobre a idade de ouro.
(Emil Cioran, História e Utopia)
“Demiurgo” (do grego δημιουργός, demiourgos), a palavra, significa literalmente “artífice (ou trabalhador manual) que trabalha para o público”. Platão empregou esse termo — que designava na Grécia certos magistrados — para indicar o artesão divino responsável pela alma do mundo. O gnosticismo (complexa e poderosa linha de pensamento herética surgida nos primeiros momentos do cristianismo) se apropriou do termo para denominar, explicando assim o Mal no mundo, um “criador incapaz”, responsável pelo mundo como o conhecemos, repleto de imperfeições. Trata-se de uma perspectiva que inverte a visão platônica mas que, de certa forma, assegura ao ser divino uma certa inocência do Mal no mundo, uma vez que suas ações seriam inadvertidas, tentativas equivocadas na busca da perfeição.
Esse breve e didático resumo introdutório, repleto de simplificações, torna-se necessário para que possamos apresentar o conceito central de nossa nova campanha no Catarse: Demiurgos Sombrios. Assim, estamos diante de um tipo muito peculiar de artesão do mundo, de alguém que consegue moldar, de certa forma, o mundo e a realidade ao seu redor. Ainda como uma espécie de memória do demiurgo platônico, o demiurgo sombrio possui um tipo de impulso utópico, de vontade (ou ideia) de um mundo melhor, mais feliz, a ser alcançado ao fim de sua intensa atividade transmutadora. Mas esse tipo de demiurgo sabe, ao mesmo tempo, que essa esperança não passa de ilusão: seu objetivo é a obtenção do poder mais absoluto possível, tornando realidade pesadelos (ou sonhos) aparentemente subterrâneos. O demiurgo sombrio, dessa forma, instrumentaliza o mal e a imperfeição do mundo, acrescentando algo mais de sua lavra — perdem a inocência do demiurgo dos gnósticos e se imortalizam pelos seus feitos tenebrosos. Seu nome passa a ser sussurrado como sinônimo de um mal disseminado na realidade social e política, que se espalha por estruturas da realidade como os sistemas políticos.
A descrição acima poderia ser facilmente aplicada a duas figuras histórias cujas trajetórias, repletas de feitos terríveis, abandonaram a esfera da História e ganharam a altitude da mitologia: Haçane Saba (ou Ḥasan Ṣabbāḥ), o “Velho da Montanha” (ca. 1050-1124), o fundador da Ordem dos Assassinos, e Sergei Nechaev (1847-1882), notório revolucionário russo. Essas duas figuras, transcendendo suas respectivas épocas, se tornariam não apenas sinônimo de manipulação insidiosa e violência política, mas verdadeiras lendas, cercadas de fatos reais que se mesclam com pura ficção. E no ramo da criação ficcional, tanto Ṣabbāḥ quanto Nechaev impulsionariam criações como Os Demônios, de Dostoiévski e Alamut, de Vladimir Bartol. Nesta campanha, apresentaremos algumas narrativas que recuperam o estranho, feroz e terrível legado de ambos, os mais destacados demiurgos sombrios.
Demiurgos Sombrios
As recompensas centrais da campanha serão dois livros de excelente acabamento, brochura, focados cada um deles em nossos demiurgos sombrios. As duas edições terão formato maior que o usual (15 x 27 cm) e em torno de 100 páginas cada. O miolo será em papel Pólen, bastante adequado para a leitura.
Abaixo, as capas de cada uma das edições de nosso projeto:

No que diz respeito ao conteúdo, a edição dedicada a Ḥasan Ṣabbāḥ trará o seguinte:
- Um documento bem raro, o fragmento de um texto da época de Renascimento de título Memórias de Hakem, com o título “Do paraíso pertencente ao Velho da Montanha”, descrevendo os jardins que simulavam o paraíso, erigidos pelo “Velho da Montanha”.
- “O sono dos assassinos”, conto evocativo da seita de Ṣabbāḥ escrito por Damian Murphy.
- “Debaixo das Asas Negras”, conto de terror apavorante sobre os últimos dias de Alamut, por L. F. Lunardello.
- “Olhos de Carne, Olhos de Fogo”, conto de terror a respeito dos ciclos instituídos por Ḥasan Ṣabbāḥ, por Michael Uhall.
- Introdução, “Palavra sussurrada em sonho”, de Alcebiades Diniz Miguel.
Já na edição de Nechaev, o sumário será constituído dos itens a seguir:
- O Catecismo do Revolucionário (em russo Катехизис революционера), polêmico manifesto escrito entre abril e agosto de 1869 e que inauguraria o chamado niilismo político russo. Tradução direta do russo, pela primeira vez em nosso idioma, realizada pela experiente tradutora Priscila Nascimento Marques.
- Amado Caos que Chega pela Noite, de Jonathan Wood, espécie de reimaginação fulgurante dos acontecimentos na Rússia durante o auge do niilismo político. Uma entrevista que realizamos com o autor está disponível neste link e um comentário analítico a respeito de Amado Caos, aqui.
- “A criança” e “Ravachol”, dois contos do grande autor decadentista e anarquista, Octave Mirbeau (1848-1917) que demonstram a visão da crítica política à época, alinhada ao extremismo como denúncia.
- O posfácio “O demônio da utopia ou como inspirar Dostoiévski” de autoria do editor, Alcebiades Diniz Miguel.
Recompensas extras
Além dessas recompensas, os apoiadores poderão adquirir Os Anjos Negros, concertina já clássica escrita por Jonathan Wood descrevendo um grupo de terroristas muito peculiar e a estranheza de suas ações.
Outra obra que constará, em edição limitada, é a coletânea (em língua inglesa) The Grand Master of Assassins, focada na complexa e estranha figura de Ḥasan Ṣabbāḥ e seus Assassinos. Ainda em produção, deverá ser lançada em breve.
Haverá, ainda, ebooks disponíveis para todos os apoiadores, que serão anunciados ao longo da campanha.
Pesquisas e fontes
Boas editoras envolvem, em sua estrutura de produção, pesquisas, nos mais diversos campos — de autores e obras a tipologia, acabamento e imagética. A Raphus, humildemente, se alinha a tais editoras (referências no setor) para produzir seus livros; e tal processo, inclusive, foi levado às últimas consequências no projeto Demiurgos Sombrios.
Os documentos centrais dos dois livros foram frutos de trabalhos árduos de pesquisa; em russo, no caso de Nechaev, com a inestimável colaboração de Priscila Marques — para encontrar a publicação original digitalizada de O Catecismo do Revolucionário — e Neide Jallageas — a tradutora e editora da excelente Kinoruss foi uma grande ajuda na busca da iconografia da imprensa independente durante a chamada Revolução (Russa) de 1905. Assim, desde as imagens, escolhidas pelo seu peso simbólico e feroz articulação de elementos associados aos horrores históricos (algo típico das caricaturas e ilustrações produzidas na Rússia à época da Revolução de 1905).
Durante a campanha, abordaremos esses aspectos da pesquisa que levaram ao projeto em vídeo-ensaios no canal RES FICTA. Mas já comentamos a respeito de “Do paraíso pertencente ao Velho da Montanha” neste vídeo.
Status do projeto
Tendo boa parte dos documentos originais já traduzidos, nosso foco será na tradução e edição dos contos e demais materiais dos livros.
Sobre os autores e tradutores
Este projeto é fruto da conjunção de excelentes autores (além de nossos dois demiurgos) e do trabalho de tradução. Destacamos, abaixo, esses dois campos.
Autores
Damian Murphy, nascido em Seattle no ano de 1972, é o artífice de ficção decadente, deliciosamente ocultista e esotérica, que transita de sua prática no campo do esoterismo com seu vasto conhecimento nesse campo e influências como o Nouveau Roman francês. Figura no movimento internacionalista de vanguarda subversiva conhecido como neodecadentismo.
L. F. Lunardello é nordestino, pai, professor, tradutor, autor e revisor. Depois de não se encontrar no Direito, foi para as Letras. Criou a @nerdenglish Consultoria Linguística, em 2007 e já trabalhou em mais de mil publicações científicas internacionais; recentemente tem se enveredado para suas paixões: literatura e quadrinhos, trabalhando com criadores independentes e editoras como BRASA e Da Rosa. Seu trabalho como crítico de literatura e cinema é feito no @baiaodacaveira e também é membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Norte. Sua ficção envolve sertões e terrores. Às vezes misturando os dois. É autor de Vingue Seus Mortos (KDP, 2023), Um Novo Cósmico (KDP, Escuro Medo, 2023), Mundiça (Diário Macabro, Dossiê Insetos, 2024) e A Perdição (Espada & Feitiçaria, Tábula, 2024).
Michael Uhall é pesquisador, teórico em política e autor (além de aficionado) da chamada prosa horrífica e estranha. Está particularmente interessado em ecologia obscura e biologia especulativa. O seu trabalho pode ser encontrado no seu website, na revista Vastarien, e m volume recente de histórias inspiradas em E. T. A. Hoffmann, na novela The Frost Crabs of Friedrich Wilhelm Nietzsche (publicada pela prestigiosa Mount Abraxas e que será traduzida para o português pela Raphus Press) e em várias revistas académicas.
Jonathan Wood vive em Londres e é o proprietário da Arbor Vitae Press. Sua ficção foi amplamente publicada pela Zagava, Ex Occidente/Mount Abraxas, Raphus e Egaeus, assim como artigos literários para a Private Libraries Association e a Tartarus Press. É um colecionador inveterado de livros e um livreiro ocasional, especializado nos caminhos obscuros da literatura, acompanhando a cena londrina de livros raros há trinta e cinco anos.
Octave Mirbeau (1848-1917) foi escritor, crítico de arte, jornalista e entusiasta do anarquismo francês. Autor de diversos romances e peças teatrais, costuma ser considerado uma das personalidades mais originais da literatura francesa na chamada Belle Époque. Tolstoi, que o admirava, certa vez o definira como "o maior escritor francês contemporâneo e aquele que melhor representava o gênio secular da França".
Tradutores
Priscila Nascimento Marques nasceu em São Paulo em 1982. É formada em Psicologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, com mestrado e doutorado em Literatura e Cultura Russa pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Traduziu, entre outras obras, a novela Uma história desagradável, de Fiódor Dostoiévski (2016) para a Editora 34, além de ser autora da organização, tradução e notas da coletânea Liev S. Vigotsky: escritos sobre arte (Mireveja, 2022).
Alcebiades Diniz Miguel é professor, tradutor, pesquisador e escritor, tendo por especialidade as narrativas, a criação de histórias, o registro de universos fantásticos em forma de narrativa. Bacharel em linguística pela USP, realizou mestrado, doutorado e pós-doutorado na Unicamp e na USP, tendo, nesse percurso, passado por um estágios de pesquisa na Brunel University, na British Library e na Fundação Biblioteca Nacional, onde realizou minucioso trabalho analítico em torno da imprensa simbolista brasileira. Realizou traduções para diversas editoras como Sol Negro, Carambaia, Sebo Clepsidra, Ex Machina, Novo Século e Perspectiva, de autores como Gérard de Nerval, H. G. Wells, Dolfi Trost, Nathanael West, Arthur Machen, Henry James, Robert Aickman e Thomas de Quincey. Algumas de suas pesquisas/traduções, de obras escritas por J. G. Ballard e Xul Solar, permanecem inéditas.
Sobre a editora
Nos últimos anos, a Raphus Press dedicou-se a lançar obras únicas tanto em termos de forma quanto de conteúdo. São edições breves, cuja extinção, por assim dizer, é rápida – ou seja, logo ficam fora de catálogo e como não costumamos fazer reimpressões, deixam seus vestígios no mundo real e virtual. Por isso nossos livros são únicos, artesanais, com elementos formais diferenciados que buscam tornar a experiência de leitura única. Já no quesito conteúdo, nosso foco sempre foi um certo tipo de ficção fantástica experimental, brutal e feroz que ganhou diversas denominações – neodecadentismo, Ficção Hiperimaginativa (FHi), etc. Por conta da natureza do material em si e das editoras obscuras aos quais esse tipo de criação está vinculado, seus autores, advindos das mais diversas e remotas paragens (incluindo Israel, Groelândia, Dinamarca...) optaram por utilizar o inglês como língua franca em seus manuscritos.
A Raphus publicou seus livros exclusivamente em inglês por algum tempo, mas chegou o momento de trazer para o leitor brasileiro toda a riqueza dessas novas tendências do fantástico, da ficção terrorífica e da literatura especulativa em português! Nesse sentido, e dando continuidade ao projeto que iniciamos com a campanha bem-sucedida de O Baluarte Tomado, narrativa visionária de Damian Murphy, seguida pela campanha para lançamento das inovadoras visões poéticas e narrativas em Cartes de Visite,de Mark Valentine e Dádiva, de D P. Watt, depois a prosa tensa de Justin Isis em A Neve e a poesia solar de Jonathan Wood em Dias de Sol. Já em 2020 tivemos a narrativa de uma outra Europa escrita por Mark Valentine e John Howard, Restos de Sombra, além da ficção especulativa extremamente densa de Brian Evenson com Mater. Um de nossos últimos projetos: a poesia de horror cósmico, através de seu expoente atual mais importante, Wade German, com seu Incantations/Sortilégios.









