Ao pensar em arte japonesa, é comum lembrar das gravuras de Hokusai, das criaturas do folclore ou dos mangás e animações que conquistaram leitores e espectadores em todo o mundo. Mas essa mesma produção também abriga imagens perturbadoras: corpos que se transformam, desejos obsessivos, situações absurdas e cenas em que a beleza e o horror parecem inseparáveis.
Quem conhece os mangás de Junji Ito, Suehiro Maruo ou Shintaro Kago talvez já tenha se perguntado de onde vem esse imaginário. Como o grotesco, o erotismo e o humor mais desconcertante passaram a ocupar tanto espaço em certas expressões da cultura japonesa?
É esse universo que o livro "Ero Guro Nansensu: conceito, história e influências", de Alexandre Rodrigues da Costa, convida o leitor a explorar, em um percurso pela literatura, pelas artes visuais, pelo cinema, pelos mangás, pelas animações e pelos jogos japoneses.
O interesse de Alexandre Rodrigues da Costa pelo tema começou durante suas pesquisas sobre o artista alemão Hans Bellmer. Ao descobrir que suas obras haviam se tornado referência para artistas japoneses que criavam bonecas de aspecto mórbido, erótico e grotesco, o autor encontrou um caminho para investigar aquilo que os japoneses chamam de ero guro nansensu.
O contato com as obras de Seiu Ito, Toshio Saeki, Takato Yamamoto, Suehiro Maruo e Shintaro Kago ampliou essa pesquisa. Suas imagens revelavam uma linguagem artística capaz de explorar desejos, repressões, marcas históricas e contradições humanas por meio do encontro entre erotismo, horror e absurdo.
Mas as raízes desse imaginário estavam muito antes dos mangás contemporâneos. Para compreendê-las, era necessário voltar às gravuras japonesas, ao teatro kabuki, à literatura e às transformações sociais que acompanharam a modernização do Japão.
Assim nasceu este livro: uma investigação sobre como o erótico, o grotesco e o nonsense se entrelaçam em diferentes épocas e formas de expressão.
Ao longo de cinco capítulos, uma galeria de artistas contemporâneos e uma conclusão dedicada aos jogos, o autor aproxima obras e contextos que ajudam a compreender essa produção. O volume também reúne imagens e uma linha do tempo que relaciona acontecimentos da história japonesa ao desenvolvimento do ero guro nansensu.
ERO GURO NANSENSU:
EROTISMO, GROTESCO E ABSURDO
O nome reúne três elementos que orientam esse universo: o erotismo, o grotesco e o nonsense. Nas obras analisadas, eles se combinam em situações capazes de despertar fascínio, desconforto, repulsa ou mesmo um riso inesperado.
Um corpo pode perder sua forma habitual. Uma cena delicadamente desenhada pode revelar algo terrível. O desejo pode se confundir com o medo, enquanto o absurdo desfaz a lógica que parecia sustentar uma narrativa.
Para entender essas imagens, o livro investiga o ambiente em que elas foram produzidas: a vida nas cidades, o consumo, as mudanças de comportamento, a circulação de referências estrangeiras e os conflitos entre liberdade artística e censura.
O Japão das eras Taishô e do início de Shôwa ocupa um lugar importante nesse percurso. A modernização, o Grande Terremoto de Kantô, em 1923, e as tensões políticas e sociais compõem o cenário em que essa sensibilidade ganhou espaço em revistas, narrativas e outras manifestações culturais.
AS RAÍZES NAS ARTES TRADICIONAIS:
UKIYO-E, SHUNGA E KABUKI
Muito antes da consolidação do ero guro nansensu, as artes japonesas já exploravam o desejo, a violência, as aparições sobrenaturais e as paixões destrutivas.
O livro retorna ao universo do ukiyo-e, às gravuras eróticas conhecidas como shunga e ao teatro kabuki, cujas histórias e encenações ofereciam um repertório de crimes passionais, gestos exagerados e transformações do corpo.
Nesse percurso, ganham destaque as imagens de Tsukioka Yoshitoshi, que aproximam refinamento artístico e cenas de violência, assombração e sofrimento. Suas gravuras ajudam a compreender referências que seriam retomadas e transformadas por artistas posteriores.
Essas conexões permitem acompanhar como elementos das artes tradicionais encontraram novas formas na produção moderna e contemporânea.
OS PIONEIROS NA LITERATURA
Na ficção japonesa, o encontro entre erotismo, mistério, horror e estranhamento ganhou diferentes caminhos.
O livro examina autores como Izumi Kyôka, Ryûnosuke Akutagawa, Jun’ichirô Tanizaki, Yumeno Kyûsaku e Edogawa Ranpo, observando como suas narrativas exploram obsessões, desejos, estados psicológicos extremos e acontecimentos que desafiam a razão.
O folclore e as tradições japonesas dialogam com referências estrangeiras, entre elas Edgar Allan Poe, em histórias que refletem as inquietações de um país em transformação.
Edogawa Ranpo ocupa um lugar de destaque nessa discussão. Suas narrativas permitem investigar a maneira como o mistério e o grotesco se aproximam, produzindo situações em que a curiosidade do leitor convive com o desconforto diante do que é revelado.
SEIU ITO E O JAPÃO DO PÓS-GUERRA
A trajetória de Seiu Ito conduz o leitor a outro encontro entre tradição artística, representação do sofrimento e erotismo: o kinbaku, a prática japonesa de amarração erótica.
O livro examina suas referências visuais e o papel de suas obras na formação de um imaginário que circulou em desenhos, fotografias e publicações.
No pós-guerra, esse percurso se cruza com a cultura das revistas kasutori. Em meio às dificuldades materiais e às mudanças provocadas pelo fim do conflito, essas publicações abriram espaço para temas antes reprimidos, disputando leitores e testando os limites da censura.
Suas páginas ajudam a compreender como desejos, fantasias e inquietações encontraram meios de circulação em um Japão que reconstruía sua vida cotidiana.
MANGÁ, CINEMA E ANIME:
NOVAS FORMAS PARA UM IMAGINÁRIO TRANSGRESSOR
Na segunda metade do século XX, o erotismo e o grotesco encontraram novos espaços na cultura popular japonesa.
Nos quadrinhos, o livro acompanha o gekiga, associado a narrativas de abordagem adulta, e o ero gekiga, em que a sexualidade se aproxima de questões sociais e de representações extremas do corpo.
No cinema, o percurso passa pelo pinku eiga, examinando filmes e diretores que exploraram relações entre erotismo, violência e crítica social.
A pesquisa também aborda Gô Nagai, a produção de mangás eróticos e os OVAs, animações lançadas diretamente para o mercado de vídeo. Esses formatos e circuitos de publicação ajudam a entender como determinadas obras chegaram ao público e quais possibilidades abriram para seus criadores.
Ao aproximar essas diferentes mídias, o autor mostra como temas e referências foram retomados, transformados e levados a novos limites.
UMA GALERIA DE ARTISTAS CONTEMPORÂNEOS
Como esse repertório aparece nas obras de artistas que conhecemos hoje?
Uma seção do livro é dedicada a Toshio Saeki, Jun Hayami, Waita Uziga, Suehiro Maruo, Hideshi Hino, Junji Ito, Kazuo Umezu, Takato Yamamoto, Shintaro Kago e Daikichi Amano.
Cada um oferece um caminho próprio para explorar o corpo, o desejo, o medo e o absurdo. O leitor encontra desde o horror dos mangás até imagens que dialogam com o folclore, a fotografia e as possibilidades de desconstrução da própria linguagem dos quadrinhos.
A galeria permite reconhecer aproximações entre esses artistas e perceber as particularidades de suas obras, conectando a discussão histórica às expressões contemporâneas.
O ESPELHO SOMBRIO DOS JOGOS JAPONESES
O percurso chega também aos videogames, onde o erotismo, a violência e o nonsense assumem uma dimensão particular: a interação com o jogador.
A conclusão examina produções que exploram o horror corporal, situações extremas e universos oníricos, discutindo também as controvérsias que determinadas representações provocam.
Entre os exemplos está LSD: Dream Emulator, cuja experiência de exploração de cenários ilógicos permite pensar o absurdo para além das imagens violentas ou eróticas.
Esse último olhar amplia a discussão sobre as maneiras pelas quais o imaginário estudado no livro continua a encontrar novas formas de expressão.
Apesar do interesse crescente pela cultura japonesa, ainda são escassos os livros teóricos em português dedicados ao ero guro nansensu. Existem pesquisas acadêmicas e análises sobre artistas e obras específicos, mas quem deseja conhecer suas raízes e acompanhar suas diferentes expressões frequentemente precisa recorrer a materiais dispersos ou a publicações em outros idiomas.
É nesse contexto que "Ero Guro Nansensu: conceito, história e influências", de Alexandre Rodrigues da Costa, oferece uma contribuição importante: reunir, em um único volume, um percurso pela história, pela literatura, pelas artes visuais, pelo cinema, pelos mangás, pelas animações e pelos jogos japoneses. Essa amplitude permite compreender as conexões entre manifestações que muitas vezes conhecemos separadamente, aproximando as gravuras tradicionais das narrativas e imagens contemporâneas.
O livro conta com prefácio da historiadora japonesa Azumi Kawahara, professora associada da Fukuoka Women’s University, especializada na história moderna e contemporânea do Japão, com ênfase na sexualidade, no sadomasoquismo e no kinbaku. É autora de SM no Shisōshi (2024), sobre dominação, violência e desejo no Japão do pós-guerra, e de uma pesquisa bibliográfica sobre os primeiros anos da revista Kitan Club (2025), ambas publicações diponíveis somente em japonês.
Para quem gosta de mangás de horror, literatura fantástica, cinema japonês ou arte, a obra oferece caminhos para descobrir as referências que atravessam essas produções. Para estudantes, pesquisadores e artistas, reúne discussões que podem servir de ponto de partida para novas investigações.
Ao apoiar a campanha, você ajuda a Laboralivros a transformar essa pesquisa em livro e a ampliar o acesso, em português, a um tema ainda pouco explorado em nosso mercado editorial.
De onde vêm as imagens que nos fascinam e nos perturbam? Este é um convite para investigar suas raízes.
O livro terá formato de 14×21 cm, capa e imagens internas coloridas, com previsão de aproximadamente 300 páginas. Seu preço de venda após o lançamento está previsto em no mínimo R$85.
Na campanha, você poderá garantir seu exemplar por R$69 na primeira semana, em uma condição especial para quem apoiar o projeto desde o início. Depois, o apoio com o livro passa a R$80, ainda abaixo do preço previsto de venda.
Além do livro, a campanha contará com recompensas pensadas para acompanhar essa viagem pelo universo do ero guro nansensu.
Marcador: marcador de páginas de 18x5, em papel triplex 300g e colorido frente e verso, com a imagem de Tsukioka Yoshitoshi, Imagem da casa solitária de Adachigahara, na província de Ōshū, 1885.
Postal: postal em papel supremo 300g, colorido, com arte de Ito Seiu, Árvore, cerca de 1930.
imã: imã para geladeira medindo 5x8 com imagem inspirada no eroguro nansensu.
Confira as opções disponíveis e escolha a combinação que mais combina com você!
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Alexandre Rodrigues da Costa é doutor em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde também realizou pós-doutorado em Estudos Literários, com pesquisa sobre Georges Bataille e Samuel Beckett. É professor da Escola Guignard e do Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). Autor e pesquisador, publicou Objetos Difíceis (2004), Fora de Quadro (2005), Peso morto (2008), Corpos cegos (2012), Bela Lugosi no ateliê de Kandinski (2013), A mímica invertida dos desaparecidos (2014), Acidentes de Leitura (2015), Como assistir a um road movie em pé (2016), Do outro lado sedimentos, ou até onde a vista alcança (2018) e A transfiguração do olhar (2019). Organizou e traduziu Poemas de Georges Bataille (2015) e Corpos labirínticos: textos de Hans Bellmer (2019). Sua produção transita entre literatura, crítica e artes visuais. Desenvolve pesquisas sobre cultura visual japonesa, mangá, anime e ero guro nansensu. Escreve para a revista digital Shunga Gallery sobre arte erótica, com ênfase na produção japonesa.
A Laboralivros é uma editora-laboratório dedicada ao resgate literário, com foco em contos fantásticos, tradições orais e literatura asiática. Seu trabalho parte da pesquisa e da curadoria cuidadosa para transformar textos esquecidos em edições que convidam à descoberta — unindo alquimia editorial, beleza gráfica e uma paixão profunda por boas histórias. A editora atua por meio de dois selos: Urso e BuruRu.
O selo Urso é o espaço da Laboralivros onde arte, pensamento e literatura se encontram. Aqui, traduções, ensaios, poesia e pesquisas ganham forma em livros que preservam, provocam e fazem circular conhecimento e cultura.
Este projeto é resultado de um trabalho coletivo, artesanal e atento aos detalhes, realizado por uma equipe que acompanha o livro desde a pesquisa até sua forma final:
Lua Bueno Cyríaco — edição-chefe, projeto gráfico e capa
Alcebíades Diniz — Revisão
Daise de Oliveira Rodrigues — diagramação.
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