Uma segunda chance PARA O FUTURO
O futuro está lá, Cayce ouve a si mesma dizer, olhando para nós. Tentando entender a ficção em que teremos nos tornado. E de onde eles estão, o passado atrás de nós não parecerá nem um pouco com o passado que imaginamos atrás de nós agora.
(William Gibson, Reconhecimento de Padrões)
Há algo de terrivelmente ambíguo, ambivalente, na ideia que temos de futuro: trata-se, por um lado, de um projeto, de uma projeção que temos para um tempo adiante daquele que vivemos; mas também é a realização quase imediata daquilo que vivemos no momento presente sentido como o instante pelo qual passamos velozmente, qual areia em uma ampulheta (das metáforas mais conhecidas de tempo, aliás) ou as águas de um rio que atravessamos. Tão perto que, em um átimo, já está diante de nós; tão longe que, tantas vezes, surge como uma miragem situada a uma distância colossal. Foi para celebrar essa natureza curiosa — por vezes, perturbadora — do futuro que lançamos FUTUROLOGIAS, campanha na qual conseguimos aproximar a visão do futuro dos anos 1920, estabelecida por um futurista peculiar, Fillià (ou Luigi Colombo), com uma visão contemporânea, narrativa cyberpunk de Eduardo Cruz, ://NeuroIguaçu. A campanha original foi bem, mas ampliamos a campanha original com novos elementos, de textos a recompensas exclusivas. Dessa forma, se faz necessário uma “segunda chance” para expandir a campanha original e atingirmos novos patamares.
Conheça e apoie FUTUROLOGIAS, para adentrar visões de futuro tão únicas quanto ferozes.
Atualizações de FUTUROLOGIAS
Algumas atualizações em relação ao projeto inicial já podem ser apresentadas aos apoiadores. Em primeiro lugar, a edição de A Vida do Amanhã terá ilustrações de Antonio Sant'Elia (1888-1916). Falecido ainda bastante jovem durante a Primeira Guerra Mundial (da mesma forma que outros grandes artistas do futurismo italiano que se alistaram nessa guerra terrível por coerência com seus princípios militaristas, como foi o igualmente triste caso de Umberto Boccioni), a obra breve mas colossal desse talentosíssimo “arquiteto do futurismo” é marcada por esboços de dinâmicas “cidades futuras”, em que edifícios reminiscentes a zigurates da antiguidade surgem como titãs em paisagem repleta de elementos tecnológicos, em uma espécie de anti-arquitetura italiana que ignorava deliberadamente (ao menos na superfície) o peso do passado romano e renascentista. Influência óbvia na “segunda geração” futurista de Fillìa (especialmente no conto que serve de título para nossa coletânea), as ilustrações de Sant’Ellia vão compor a parte imagética de nossa coletânea.

O segundo livro da campanha, ://NeuroIguaçu, por sua vez, trará uma série de novos textos em anexos que fornecerão novos elementos do delirante e feroz universo futuro criado por Eduardo Cruz.
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"Não é possível alterar as coisas lutando contra a realidade existente. Para mudar algo, construa um novo modelo que torne o modelo atual obsoleto."
(Buckminster Fuller)
"Tempo e Espaço morreram ontem."
(Filippo Tommaso Marinetti)
Introdução: o futuro e o futurismo

Mistério Aéreo, Fillìa (1930).
No dia 20 de fevereiro de 1909, o Manifesto Futurista do poeta italiano Filippo Tommaso Marinetti seria publicado no jornal francês Le Figaro. Esse foi o princípio de um complexo, polêmico e problemático movimento vanguardista que, entretanto, teve tremenda influência nas mais diversas percepções e campos artísticos, algo que persiste até os dias de hoje. Dessa forma, vanguardas à época buscavam referências no futurismo italiano: dos cubo-futuristas russos/soviéticos aos modernistas brasileiros. Pois, de fato, tratava-se de um movimento artisticamente inovador: a idolatria do dinamismo representado pela máquina se refletia em uma tipografia poética revolucionária que dissipava a diferença entre composição tipográfica e criação artística, em pinturas que decompunham formas em busca das estruturas abstratas do movimento veloz, em uma música ruidosa que buscava no timbre e na distorção sua melodia, em uma arquitetura de elementos geométricos e sólidos que deslizavam, como se não mais existisse gravidade. Mas esses aspectos inovadores contrastavam com a visão política reacionária do movimento — representada na defesa da guerra —, as tendências machistas de muitas das concepções filosóficas e estéticas futuristas e, afinal, na aproximação entre futurismo e fascismo, realizada diligentemente por Marinetti.
Tais questões gerais são importantes, evidentemente, mas insuficientes diante da complexidade presente na produção estética dos futuristas — inclusive as divergências que o movimento apresentou em seu interior. Apesar da aparência de monolítico que seu líder e sumo sacerdote, Marinetti, queria dar ao movimento na totalidade, havia diferenças tanto regionais quanto individuais, desentendimentos abertos além, claro, de muitas contradições. Por outro lado, a visão futurista de combate ao que denominavam de passadismo gerou todo um sentimento vanguardista que permanece vigente mais de um século após a publicação do primeiro manifesto futurista. Da mesma forma, a percepção de um futuro tecnológico agressivo e devastador, a utopia dos futuristas, prossegue, de forma predatória, na atualidade — transformando-se de uma projeção fantástica, de êxtase, na visão de Marinetti e seus amigos vanguardistas para a materialidade distópica do brain rot das IAs na atualidade.
Tendo tudo isso em vista, oferecemos aos leitores a oportunidade de conhecer algumas visões de futuro. Do início do século XX, temos os contos singulares de Fillìa (pseudônimo do grande poeta, escritor e pintor Luigi Colombo), A Vida do Amanhã e Outras Excentricidades Futuristas, além da concertina A Guerra Elétrica (visão hipotético-futurista), de F. T. Marinetti, um texto/manifesto repleto de imagens em que distopia e utopia entram em choque e se entrelaçam em um tipo de apocalipse otimista. Como contraposição às visões místicas da máquina do futurismo italiano, o jovem escritor brasileiro Eduardo Cruz (na narrativa cyberpunk ://NeuroIguaçu e no poema narrativo em prosa A Cidade é uma Grande Simulação) oferece aos leitores um convulsivo, violento e tétrico universo futuro que já é, de certa forma, o nosso presente.
Sobre os livros e autores
Luigi Colombo, aliás Fillià (1904-1936), foi pintor (embora seus trabalhos abranjam áreas como design, arquitetura e decoração) e escritor da assim chamada “segunda geração” do futurismo — quando, nos anos 1920, o movimento já estabelecido buscava novos caminhos e sínteses. Foi expoente da assim chamada L'Aeropittura (pintura aérea), que buscava mesclar tecnologia e elementos etéreos em um horizonte aéreo perpétuo. Em termos de literatura, uma de suas grandes obras foi La Morte Della Donna, coletânea de contos publicada em 1925 com ilustrações de artistas futuristas como Enrico Prampolini e Giacomo Balla. É desse livro raríssimo, que a Raphus Press encontrou após exaustivas buscas por arquivos italianos, que extraímos os contos de nossa coletânea.

Com tradução de Julia Lobão e posfácio da pesquisadora Silvia La Regina, apresentamos as narrativas mais singulares de Fillià, aquelas que antecipam, de forma notável, algumas das mais celebradas tendências da futurologia e da literatura distópica e especulativa no século XX e também XXI. Assim, o conto título de nossa coletânea, “A Vida do Amanhã”, é uma narrativa pioneira que apresenta uma sociedade futura inteiramente controlada pela máquina, em seus mínimos detalhes de sobrevivência cotidiana — algo que nutre revoltas da humanidade submetida ao jugo maquínico. Já “Quarta dimensão de mim mesmo” (um título espetacular, diga-se) apresenta as possibilidades de fusão do homem com a máquina, antecipando em décadas uma das mais conhecidas vertentes da ficção científica. Por fim, o conto “O sexo de metal” e a peça de teatro breve “Sensualidade” apresentam os dilemas (anti)sentimentais dos seres humanos em novas configurações físicas e sociais, dentro de sociedades planificadas e estruturadas em torno da mística da velocidade e do mecanismo.

Por sua vez, //NeuroIguaçu, narrativa de Eduardo Cruz, jovem autor carioca que publicou pela Raphus Press uma magnífica narrativa de psicogeografia, A Última Deriva, apresenta um futuro que já parece ter chegado até nós, como todo seu horror. Em ://NeuroIguaçu, acompanhamos a história de Bentinho, um jovem periférico e sua luta pela sobrevivência diária na Megafavela de Nova Iguaçu, às voltas com o cruel cotidiano de uma Baixada Fluminense ambientada quarenta anos no futuro. Forte e sagaz, o rapaz sobrevive realizando trabalhos de segurança, cobrança, entre outras atividades que exijam certa violência. Quando seu amigo Fernando pede auxílio para realizar uma entrega na perigosíssima Zona de Exclusão que um dia foi Belford Roxo, o pagamento é irrecusável, entretanto há alguma coisa estranha neste serviço e a entrega pode não sair como o esperado. Um conto cyberpunk com altas doses de violência e pitadas de humor negro, ://NeuroIguaçu é um exercício de futurologia instigante que extrapola uma realidade já insalubre e caótica, um pesadelo do qual nos aproximamos lenta e irrevogavelmente, dia a dia. Nossa edição incluirá Resgatando Sophia – Um Corre de NeuroIguaçu, imaginativa expansão do vertiginoso universo de ://NeuroIguaçu.
Sobre as concertinas
Seguindo com nossas concertinas, essas breves e intensas experiências de leitura alinhavadas ao design de uma peça de beleza única (e limitada em termos de exemplares), apresentamos aos nossos apoiadores duas concertinas exclusivas deste projeto, em tiragem limitada de 40 exemplares.

A primeira delas é A Guerra Elétrica (visão hipotética-futurista), de F. T. Marinetti, texto originalmente publicado em francês na coletânea de manifestos e ensaios diversos Le Futurisme no ano de 1911. É um espanto que essa estranha criação de Marinetti — parte manifesto, parte profecia, parte propaganda agressiva do ideário futurista — tenha sido publicada antes da Primeira Guerra Mundial, pois apresenta uma realidade de “potentados eletrificados” que mobilizam avassaladoras “danças de relâmpagos” na disputa pela ampliação de seus interesses capitalistas. Sem perder em nada de sua bizarra atualidade, o imaginário de guerras futuras de Marinetti parece evocar, por outro lado, a atualidade de nossas infinitas batalhas de drones militares.

A segunda concertina, A Cidade é uma Grande Simulação, de Eduardo Cruz, apresenta um fluxo poético em prosa no qual a cidade contemporânea é evocada em cada um de seus detalhes grandiosos, sinistros e hediondos. Eduardo Cruz, em sua primeira edição pela Raphus Press — cujo título barroco é Delírios Finais de uma Não-entidade em Transição, ou A Última Deriva. Um drama psicogeográfico — recriou o mapa dos Rio de Janeiro através das ruínas e cicatrizes invisíveis provocadas pelo progresso. Em A Cidade é uma Grande Simulação, os horrores das metrópoles são ampliados para as dimensões do mito de origem.
ATUALIZAÇÃO: NOVAS RECOMPENSAS
Estamos no finalzinho das campanha, mas será tempo suficiente para apresentar duas novas recompensas: a miniatura do Necrodrone, terrível criatura criada por Eduardo Cruz para seu ://NeuroIguaçu e dois poemas em prosa a respeito da vida moderna por Fillìa, com tradução de Julia Lobão.
Os poemas de Fillìa serão em formato ex-voto, como dois impressos que acompanharão o livro, com reproduções coloridas das obras de arte etéreas, aéreas, de Luigi Colombo aka Fillìa. Tais ex-votos estarão disponíveis aos apoiadores de recompensas que incluam o livro A Vida do Amanhã e Outras Excentricidades Futuristas. Além disso, estarão disponíveis como recompensa adicional (add on) para quem optou por recompensas que não incluam o livro de Fillìa.
Imagem que estampará a parte dianteira de um dos ex-votos de Fillìa.
Já a miniatura do Necrodrone, produzido em parceria com o estúdio Camaleão 3D Lab, é uma réplica bastante fiel ao temível armamento que surge das páginas de ://NeuroIguaçu. A réplica de 10cm de altura, realizada em parceria com o estúdio Cameleão 3D Lab, está disponível como recompensa adicional ou recompensa autônoma, mas são poucos exemplares! Um exemplar adicional da miniatura será sorteada para todos os apoiadores de FUTUROLOGIAS que não adquiriram a miniatura.
Sobre autores e tradutores
Filippo Tommaso Marinetti (1876–1944) foi escritor, poeta, editor, ideólogo, jornalista, ativista político e polemista italiano. Fundador do movimento futurista, cujo manifesto foi publicado no jornal parisiense Le Figaro, em 20 de fevereiro de 1909, tornou-se igualmente um tipo de líder autocrático de todo esse movimento, notadamente após sua adesão ao Partido Nacional Fascista logo em 1919.
Fillìa (1904–1936) foi o pseudônimo adotado por Luigi Colombo, escritor e artista italiano associado à segunda geração do Futurismo. Além da pintura, seus trabalhos incluem design de interiores, arquitetura, projeto de móveis e objetos decorativos. Na literatura, aprofundou questões tanto dos relacionamentos humanos quanto da psique de personagens em um universo dominado pela máquina, antecipando dessa forma inúmeras tendências contemporâneas da ficção científica.
Eduardo Cruz é o fundador do blog Zona Negativa, onde começou escrevendo artigos e resenhas de livros e HQs até que um dia alguém da redação propôs que a equipe começasse a escrever suas próprias histórias. Dali em diante, ele não parou mais. Depois de quase 20 contos publicados até o momento, inclusive o blasfemo Apocalipse à Brasileira, Eduardo Cruz segue se dedicando a bolar novas formas criativas para deixar seus leitores tão desgraçados da cabeça quanto ele próprio, expondo o horror e as vísceras fétidas do nosso cotidiano insalubre. Se você vive no Brasil e percebe umas vinte vezes por dia o quanto nossa realidade é doentia, parabéns: você é um leitor em potencial do Eduardo!
Julia Lobão é doutora e mestra em Literatura Italiana pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e graduada em Letras - Italiano pela mesma instituição. Seu campo de estudo concentra-se nas áreas de Gótico Italiano, Gótico Feminino, Decadentismo e na poética do autor Gabriele d’Annunzio. Em 2025, foi vencedora do Prêmio da Associação Brasileira de Professores de Italiano (ABPI) de teses “Gina Galeffi” com a tese Um gótico nos Abruzos: a estética do Horror em Novelle della Pescara, de Gabriele d’Annunzio. Dentre as suas publicações recentes, destacam-se as seguintes traduções: Poesia Scapigliata (diversos autores) e A scapigliatura milanesa: fragmentos, de Cleto Arrighi (Ex Machina, Sebo Clepsidra, 2022); os contos “Mariposa”, “A morte do menino” e “A convenção dos sete pecados”, de Neera, presentes na coletânea Lua em foice (Ex Machina, Sebo Clepsidra, 2023) e “O vampiro”, de Salvatore Taglioni (Sebo Clepsidra, 2024). Pela Raphus Press, Julia Lobão traduziu as novelas A origem dos fósforos (2022) e O sonho místico (2022), e organizou a coletânea Crônicas jornalísticas (2023), todas do autor decadente Gabriele d’Annunzio. Mais recentemente, organizou e traduziu a obra Uma aposta e outros contos de horror estético (2025), do autor Luigi Gualdo.
Alcebíades Miguel Diniz é professor, tradutor, pesquisador e escritor, tendo por especialidade as narrativas, a criação de histórias, o registro de universos fantásticos. Bacharel em Linguística pela USP, realizou mestrado, doutorado e pós-doutorado na Unicamp e na USP, e estágios de pesquisa na Brunel University, na British Library e na Fundação Biblioteca Nacional, onde realizou minucioso trabalho analítico em torno da imprensa simbolista brasileira. Realizou traduções para diversas editoras como Sol Negro, Carambaia, Sebo Clepsidra, Ex Machina, Novo Século e Perspectiva, de autores como Gérard de Nerval, H. G. Wells, Dolfi Trost, Nathanael West, Arthur Machen, Henry James, Robert Aickman e Thomas de Quincey.
Sobre a editora
Nos últimos anos, a Raphus Press dedicou-se a lançar obras únicas tanto em termos de forma quanto de conteúdo. São edições breves, cuja extinção, por assim dizer, é rápida – ou seja, logo ficam fora de catálogo e como não costumamos fazer reimpressões, deixam seus vestígios no mundo real e virtual. Por isso nossos livros são únicos, artesanais, com elementos formais diferenciados que buscam tornar a experiência de leitura única. Já no quesito conteúdo, nosso foco sempre foi um certo tipo de ficção fantástica experimental, brutal e feroz que ganhou diversas denominações – neodecadentismo, Ficção Hiperimaginativa (FHi), etc. Por conta da natureza do material em si e das editoras obscuras aos quais esse tipo de criação está vinculado, seus autores, advindos das mais diversas e remotas paragens (incluindo Israel, Groelândia, Dinamarca...) optaram por utilizar o inglês como língua franca em seus manuscritos.
A Raphus publicou seus livros exclusivamente em inglês por algum tempo, mas chegou o momento de trazer para o leitor brasileiro toda a riqueza dessas novas tendências do fantástico, da ficção terrorífica e da literatura especulativa em português! Nesse sentido, e dando continuidade ao projeto que iniciamos com a campanha bem-sucedida de O Baluarte Tomado, narrativa visionária de Damian Murphy, seguida pela campanha para lançamento das inovadoras visões poéticas e narrativas em Cartes de Visite,de Mark Valentine e Dádiva, de D P. Watt, depois a prosa tensa de Justin Isis em A Neve e a poesia solar de Jonathan Wood em Dias de Sol. Já em 2020 tivemos a narrativa de uma outra Europa escrita por Mark Valentine e John Howard, Restos de Sombra, além da ficção especulativa extremamente densa de Brian Evenson com Mater. Um de nossos últimos projetos: a poesia de horror cósmico, através de seu expoente atual mais importante, Wade German, com seu Incantations/Sortilégios.
Estado da tradução/edição
Todas as traduções da campanha estão finalizadas, bem como o manuscrito de Eduardo Cruz. Entraremos no processo de edição e leiaute assim que a campanha terminar.









