UPDATE: Conheça Os Fantasmas do Catálogo da Raphus Press

Com nossa nova campanha no Catarse, Galeria Fúnebre, Pt. 01, temos uma excelente oportunidade para trazer aos nossos novos leitores alguns dos lançamentos passados da editora, já esgotados. Em nossos quase oito anos de existência, publicamos alguns livros que, por motivos diversos, nunca mais foram reeditados — nem sequer em parte. Por conta disso — e tendo em vista atual campanha, focada na conturbada vida e obra de Agustín Pérez Zaragoza, que surgiu em uma época de horrores e transformações velozes — traremos de volta, no primeiro “fantasma” de nosso catálogo: Abismo em Chiaroscuro, uma homenagem que fizemos a Francisco de Goya, grande pintor e contemporâneo de Zaragoza.

A reimpressão de Abismo em Chiaroscuro estará disponível apenas nesta campanha, em dez exemplares numerados — cinco avulsos e cinco em um pacote conjunto com O Triunfo do Remorso e o Guia dos Perplexos n. O1. Ao colecionador, restará apenas escolher como prefere e agir rápido, pois tal reimpressão poderá se esgotar rapidamente.
Um último detalhe: todos os exemplares serão acompanhados pelo pôster com as belas ilustrações de Joseph Dawson (ilustrador de capas conhecido por seus trabalhos na editora Zagava), na frente e no verso, impressos em 2020 mesmo.
Introdução: estranhos caminhos do horror na Espanha
A passagem do século XVIII para o XIX, em Espanha, foi extremamente singular, marcada por brutais oscilações políticas e econômicas, invasões estrangeiras e esboços de modernização para que esse país, visto como exótico para o resto da Europa e do mundo que era a Espanha. Pois, de fato, a Espanha ao início do século XIX — ou seja, no limiar da modernização contemporânea, marcada pelo desenvolvimento da indústria e do colonialismo moderno —, era uma nação de contradições aparentemente insolúveis e brutais.
Por um lado, ainda era um império poderoso, que à época da União Ibérica (quando Portugal e Espanha foram uma unidade, entre 1580 e 1640) chegou a ter controle de quase todo o mundo conhecido e que enfrentou, de igual para igual — até mesmo com relativa superioridade —, potências como Inglaterra e Holanda. Mas, por outro lado, era um país marcado por fé fervorosa, violenta e assustadora, além de sofrer com o domínio político e social do Tribunal da Santa Inquisição (predomínio cuja duração foi de 1478 a 1834), que estabeleceu um Estado dentro do Estado, com suas leis, inquéritos, julgamentos e espantosos rituais, como os imensos “Autos de Fé”.
Auto de fe de la Inquisición, de Francisco de Goya (1812-1819).
E a Espanha, por fim, também foi ocupada pela França revolucionária e napoleônica durante a Guerra Peninsular (1808-1814), evento que impulsionou reformas políticas e rebeliões internas.
Essa estranha instável realidade marcou a arte e a literatura espanhola do período, com o surgimento de uma estranha leitura do gótico e da obra de Agustín Pérez-Zaragoza.
Zaragoza e o gótico espanhol
A vida de Agustín Pérez-Zaragoza Godínez (séc. XVIII-séc. XIX) é um dos grandes mistérios da literatura espanhola. Até mesmo as datas de nascimento e de morte, no caso desse autor, são imprecisas, embora existam pistas de sua existência como uma pessoa, de fato, não um mero pseudônimo. E, claro, também há a singular obra de Zaragoza — rara, obscura, mas ainda preservada em bibliotecas e coleções particulares.
Sabe-se que Zaragoza sofreu acusações de ser um “afrancesado” (nome dados aos colaboradores dos franceses durante a Guerra Peninsular), o que lhe rendeu alguns anos de exílio em França. De volta ao seu país, publicou livros os mais diversos, sempre com títulos singulares e variações de forma que fazem pensar em pastiches de obras francesas. Uma dessas obras — El remedio de la melancolía, de 1821 — foi colocada no Index Librorum Prohibitorum, catálogo de obras consideradas heréticas pelo Vaticano.
A obra-prima de Zaragoza, contudo, foi Galería fúnebre de espectros y sombras ensangrentadas, o sea el historiador trágico de las catástrofes del linaje humano, publicada em Madri, no ano de 1831, em doze volumes. Esse material fez algum sucesso em sua época de lançamento, mas caiu em um esquecimento tão completo que seu relançamento (incompleto, cobrindo apenas os seis primeiros volumes) ocorreria apenas em 1977. As tramas de Galería, embora estejam bem próximas de certas “fontes”, como as obras do escritor francês J. P. R. Cuisin, são remodelados por Zaragoza em uma estranha forma híbrida, entre a tradução e o pastiche estilizado.
Apesar disso, a obra de Zaragoza (e outros pioneiros do gótico espanhol) sobreviveu ao tempo — em parte por colecionadores em busca das mais estranhas edições disponíveis, os “connoisseurs” que buscavam o estranho e o bizarro, mas também pelas próprias qualidades da obra, especialmente ao leitor na atualidade. Mas isso desenvolveremos ao longo deste e dos futuros projetos.
Galeria fúnebre, um projeto dinâmico
Com esta nova campanha, teremos nosso segundo livro da Galeria de Agustín Pérez-Zaragoza, mas este é apenas o início. Este volume, A Casa do Parricida ou o Triunfo do Remorso, será uma brochura trilingue — espanhol, português e inglês — e terá ilustrações internas exclusivas, obtidas após ampla pesquisa, além de sobrecapa. Abaixo, ilustrações da sobrecapa, da capa e do verso da capa:
As ilustrações do livro serão retiradas do álbum ilustrado Ein Totentanz (1922), de Walter Draesner, que empregou uma técnica semelhante ao das silhuetas e das sombras para compor sua visão expressionista do tema “dança da morte”. Abaixo, a capa desse raro álbum.
O formato será de 13 x 20 cm, com cerca de 70 páginas. Frontispício e páginas iniciais podem ser vistas no link abaixo:
Outras recompensas
Como mencionamos antes, o primeiro conto de Galeria Fúnebre foi editado como livro trilingue por nós em 2022 — trata-se de Bristol, o Açougueiro, livro hoje raro. Os últimos exemplares estarão disponíveis nesta campanha.

Outro livro que estará disponível nesta campanha, igualmente raro e imaginativo: Angústias do Livro de Satã, de Karim Ghahwagi, que foi lançado na campanha para Kore, de Bo Reinholdt. Serão os últimos exemplares desta fantasia sombria e assustadora a respeito de um rolo de filme perdido de uma obra pouco conhecida do grande diretor dinamarquês Carl Dreyer — um tipo de narrativa que se comunica de forma exemplar com as tramas intrincadas e tétricas de Agustín Pérez-Zaragoza. Tendo as mesmas dimensões de Bristol e deste novo Triunfo do Remorso, o livro de Karim Ghahwagi também conta com cerca de 70 páginas.

Por fim, marcando nosso compromisso em publicar nesse formato avulso todos os contos publicados em dois tomos originalmente (e nunca mais republicados em sua totalidade), traremos para o leitor, a cada campanha, uma recompensa adicional exclusiva da campanha, que não será comercializada. Esse material servirá para contextualizar — seja na forma de ensaio ou paratexto ou como narrativa da época — o complicado momento do gótico espanhol. Nesta primeira campanha, traremos uma plaquete de título Galeria Fúnebre de Espectros e Sombras Ensanguentadas — Guia dos Perplexos n. 01; tal recompensa trará, além do precioso prefácio de Zaragoza para a edição original, de título “Prolegômeno do autor aos leitores”, o ensaio “A poética do massacre”, em que Alcebiades Diniz Miguel dissertará a respeito dos terrores de uma Inquisição ativa em pleno século XVIII-XIX e de uma guerra de extermínio, a Guerra Peninsular, em que supostamente haveria um “lado racional” na França Napoleônica; essas exibições de atrocidades marcariam a geração de Zaragoza e do pintor Francisco de Goya.
Sobre a Raphus Press
Nos últimos anos, a Raphus Press dedicou-se a lançar obras únicas tanto em termos de forma quanto de conteúdo. São edições breves, cuja extinção, por assim dizer, é rápida – ou seja, logo ficam fora de catálogo e como não costumamos fazer reimpressões, deixam seus vestígios no mundo real e virtual. Por isso nossos livros são únicos, artesanais, com elementos formais diferenciados que buscam tornar a experiência de leitura única. Já no quesito conteúdo, nosso foco sempre foi um certo tipo de ficção fantástica experimental, brutal e feroz que ganhou diversas denominações – neodecadentismo, Ficção Hiperimaginativa (FHi), etc. Por conta da natureza do material em si e das editoras obscuras aos quais esse tipo de criação está vinculado, seus autores, advindos das mais diversas e remotas paragens (incluindo Israel, Groelândia, Dinamarca...) optaram por utilizar o inglês como língua franca em seus manuscritos.
A Raphus publicou seus livros exclusivamente em inglês por algum tempo, mas chegou o momento de trazer para o leitor brasileiro toda a riqueza dessas novas tendências do fantástico, da ficção terrorífica e da literatura especulativa em português! Nesse sentido, e dando continuidade ao projeto que iniciamos com a campanha bem-sucedida de O Baluarte Tomado, narrativa visionária de Damian Murphy, seguida pela campanha para lançamento das inovadoras visões poéticas e narrativas em Cartes de Visite,de Mark Valentine e Dádiva, de D P. Watt, depois a prosa tensa de Justin Isis em A Neve e a poesia solar de Jonathan Wood em Dias de Sol. Já em 2020 tivemos a narrativa de uma outra Europa escrita por Mark Valentine e John Howard, Restos de Sombra, além da ficção especulativa extremamente densa de Brian Evenson com Mater. Um de nossos últimos projetos: a poesia de horror cósmico, através de seu expoente atual mais importante, Wade German, com seu Incantations/Sortilégios.
Sobre o editor e tradutor
Alcebiades Diniz Miguel é professor, tradutor, pesquisador e escritor, tendo por especialidade as narrativas, a criação de histórias, o registro de universos fantásticos em forma de narrativa. Bacharel em linguística pela USP, realizou mestrado, doutorado e pós-doutorado na Unicamp e na USP, tendo, nesse percurso, passado por um estágios de pesquisa na Brunel University, na British Library e na Fundação Biblioteca Nacional, onde realizou minucioso trabalho analítico em torno da imprensa simbolista brasileira. Realizou traduções para diversas editoras como Sol Negro, Carambaia, Sebo Clepsidra, Ex Machina, Novo Século e Perspectiva, de autores como Gérard de Nerval, H. G. Wells, Dolfi Trost, Nathanael West, Arthur Machen, Henry James, Robert Aickman e Thomas de Quincey. Algumas de suas pesquisas/traduções, de obras escritas por J. G. Ballard e Xul Solar, permanecem inéditas.
Estado atual do projeto
No momento, a tradução das principais recompensas — Triunfo do Remorso e Guia dos Perplexos — está em curso, estando finalizada em algumas poucas semanas, provavelmente; o mesmo vale para o ensaio. Parte das recompensas já está impressa.






