A literatura japonesa é permeada de histórias de mistério, onde o sobrenatural e o real coexistem ou, algumas vezes, se confundem. Unido a isso, misteriosas figuras femininas e entidades costumam dar um toque final à trama.
O que conhecemos como características da literatura gótica, estão presentes nos textos japoneses desde muitos séculos atrás. E é por isso que este livro irá trazer uma costura entre o antigo e o moderno.
“A literatura gótica é, em grande parte, uma literatura ligada ao terror e ao medo. Talvez, uma melhor maneira de se compreender o gótico na literatura seja entendê-lo como um momento narrativo no qual a nossa razão é desafiada por um acontecimento insólito. Como discurso literário, o efeito ‘gótico’ consiste na criação de uma atmosfera narrativa, que deve envolver o leitor na história, para em seguida assustá-lo, mas de modo que lhe provoque prazer. Entendida assim como efeito narrativo, a literatura gótica é um dos mais influentes modelos narrativos para as histórias de horror e terror que temos atualmente.” (Cid Vale)
Levando em conta o conceito acima, vários estudiosos da literatura classificam alguns autores como mestres da literatura gótica no Japão, não por terem participado daquele momento, mas por carregarem em suas narrativas características muitíssimo próximas às exploradas nos textos Ocidentais.
Diante isso, temos destacados os nomes de Ueda Akinari (1734 - 1809), Izumi Kyôka (1873 - 1939) e Akutagawa Ryûnosuke (1892-1927). Apesar de alguma distância temporal, é perceptível a semelhança dos laços das tramas que envolvem seus personagens, em especial, pelos três autores utilizarem muito da cultura e literatura tradicional como base.
A tradição japonesa literária começa na poesia, onde existe o chamado Honkadori (tirar de um poema original) é uma tradição literária japonesa em que seu recurso é fazer uma alusão ou reinterpretação de trechos, versos ou trama de um autor respeitado. Isto é tão tradicional quanto o costume da corte de recitar poemas. No compêndio de poemas Man’yoshû (coletânea das dez mil folhas, publicado por volta de 759, período Nara) são encontrados vários poemas que fazem referências a obras de famosos poetas chineses, ou mesmo, poemas que fazem referência a outros poemas publicados no mesmo livro. Pode-se dizer que, reconhecer em um poema um trecho reinterpretado de outro, era sinal de um verdadeiro apreciador e conhecedor da arte.
Desse modo, é muito comum que escritores estejam sempre referenciando obras clássicas ou, algumas vezes, as revisitando.
Para um japonês, pode ser quase intuitivo perceber essa citação, mas para nós, distantes da cultura e das referências literárias japonesas, isso pode ser um desafio.
Pensando nisso, costuramos nesse volume, além das obras desses famosos escritores, trechos de livros clássicos como o konjaku monogatarishû e Genji monogatari, textos do século XI que até os dias atuais são base da cultura e literatura japonesa.
Contos presentes:
- “Lady Aoi-Afuhi”, trecho de “O conto de Genji” escrito por Murasaki Shikibu no século XI
- “Ladrão que viu pessoas mortas quando escalou o portão Rashô”, conto registrado no Konjaku Monogatari, século XI
- “A esposa vai para o país de Tamba, e o homem é amarrado no monte Oe”, conto registrado no Konjaku Monogatari, século XI
- “O caldeirão de Kibitsu”, Ueda Akinari (1734 - 1809)
- “A volúpia da serpente”, Ueda Akinari (1734 - 1809)
- “O biombo do inferno”, Akutagawa Ryûnosuke (1892-1927)
- “O homem santo do monte Kôya”, Izumi Kyôka (1873 - 1939)
Vale ressaltar que todas as traduções são feitas diretamente do japonês e que, dentre os textos selecionados, os contos: “Lady Aoi – Afuhi”, “Ladrão que viu pessoas mortas quando escalou o portão Rashô”, “A esposa vai para o país de Tamba, e o homem é amarrado no monte Oe” são textos clássicos, tendo sido originalmente escritos no japonês antigo (praticamente outra língua, comparado ao moderno).
Outro destaque vai para o conto “O homem santo do monte Kôya”, de Izumi Kyôka nunca antes publicado no Brasil. São todos textos inéditos.
O livro é previsto ser feito em papel pólen natural, tamanho de 14x21, com previsão de 250 páginas (ou mais)
Para além de traduções de textos incríveis, o projeto está trazendo uma costura mais do que necessária para se compreender as referências culturais e literárias japonesas.
Trata-se de um trabalho cuidadoso de tradução de um idioma que não mais existe que é o japonês clássico. Para exemplificar, se temos algumas dúvidas sobre algumas passagens de Castro Alves por conta de palavras desconhecidas, imagine não conseguir ler nada de “O navio negreiro”? pode-se dizer assim, a grosso modo, da diferença entre o japonês clássico e o japonês moderno. E por moderno, vamos ter cautela, afinal até o inicio do século XX o japonês não era como é o de hoje. Sua complexidade era ainda maior do que o idioma escrito a partir dos anos 30 pra cá...
Nesta coletânea, temos 3 textos clássicos escritos no século XI (vale lembrar, são mais de 1000 anos de distância): “Lady Aoi – Afuhi”, “Ladrão que viu pessoas mortas quando escalou o portão Rashô” e “A esposa vai para o país de Tamba, e o homem é amarrado no monte Oe”, em que os tradutores precisaram consultar várias fontes (texto original, texto japonês traduzido do clássico pro moderno, e versões), por isso é um trabalho minucioso mesmo para os contos “Ladrão que viu...” e “A esposa vai...” que pelo o que poderíamos chamar de tamanho são quase mini contos (mas não se iludam, às vezes os textos menores são os mais complexos para traduzir. No trabalho literário menos as vezes é, literalmente, mais trabalho. Quantidade não é o que comanda).
Um destaque importantíssimo é o conto “Afuhi” que é possivelmente a mais famosa passagem do Genji Monogatari (também chamado de “O romance de Genji” ou “O conto de Genji”, considerado o primeiro romance do mundo!) escrito por Murasaki Shikibu, uma das mais reverenciadas escritoras japonesas (sim, uma mulher), onde na passagem fala sobre um fenômeno único da cultura japonesa, o ikiryô ou “possessão por espírito de gente viva”. Essa passagem é tão famosa que já foi recontada em várias mídias, com destaque para o teatro nô (Zeami adaptou no século XV, Mishima no século XX), mas pode-se dizer que o fenômeno é descrito em várias obras literárias (desde a era Heian até Haruki Murakami) após a publicação de Genji.
O que temos de característica abordada no romance gótico ocidental, no Japão, se fazem presentes em vários textos desde o período Heian. Dessa forma, seria impossível não trazer esses contos clássicos que são referências para os escritores e leitores japoneses até a atualidade. Afinal, como entender a mulher ressentida de Ueda Akinari (séc. XVIII) sem conhecer Lady Rokujô? Ou como compreender os questionamentos do monge de Kyôka (séc. XIX-XX) sem conhecer o que se passava no portão Rashô (em japonês “Rashômon”, te lembra alguma coisa?).
É uma costura valiosa e imprescindível para admiradores, amantes e curiosos sobre a cultura e literatura japonesa, e além, para quem aprecia um trabalho dedicado e inédito no Brasil.
Além do livro impresso, planejamos algumas outras recompensas exclusivas para apoiadores do Catarse.
Marcador metalizado: marcador em papel triplex colorido com efeito metalizado.
Pin metálico importado: Pin de metal importado, medindo aproximadamente 3x3cm, com a imagem de uma hannya.
Postal retrô "rostos misteriosos": O postal é reprodução de um postal japonês dos anos 20, "arte do ilusionismo "rostos misteriosos", considerada arte de guerra (do exército imperial e da marinha japonesa). Nós tratamos a imagem exata do postal e o apresentamos aqui.
Bag Reflexos: Uma bag de tecido com a reprodução de uma fotografia da Era Meiji, anônima. A bag tem aproximadamente 30x30.
E-book: e-book do livro em formato fluído. Ele não contém formatações especiais e deverá ser retirado no Google Books ou Amazon.
Arte digital: Arte da capa para impressão em tamanho A3.
Ao chegarmos aos 100% vamos garantir a produção do livro, mas se ultrapassarmos essa meta, vamos ter várias melhorias, onde TODOS os apoiadores ganham! Conheça:
Izumi Kyôka (1873 - 1939)
Pseudônimo de Izumi Kyôtarô, foi um autor japonês de romances, contos e peças kabuki que atuou durante o período pré-guerra.
A escrita de Kyôka diferia muito da dos escritores naturalistas que dominavam a cena literária da época. Ele é mais conhecido por um tipo característico de romantismo, preferindo contos sobrenaturais fortemente influenciados por obras do período Edo anterior nas artes e letras japonesas, que ele temperou com sua própria visão pessoal de estética e arte na era moderna.
Ele também é considerado um dos estilistas supremos da literatura japonesa moderna, e a dificuldade e a riqueza de sua prosa têm sido frequentemente observadas por outros autores e críticos.
Excêntrico e supersticioso, Kyôka desenvolveu a reputação de escrever sobre o grotesco e o fantástico. No entanto, ele não usou a fantasia para fugir do que estava acontecendo no mundo real, mas para criticá-lo. Kyôka viu o humano através das lentes "da regressão evolutiva, seja o homem em besta ou adulto em criança", indicativo de sua crítica à sociedade moderna. Pegando emprestado e embelezando temas da ficção popular do período Edo, folclore e drama Noh, mais da metade das obras de Kyôka incorporam alguma forma de elemento sobrenatural, bem como simbolismo aparente na forma de codificação de cores explícita. O estilo narrativo de Kyôka toma emprestado de narrativa tradicional de rakugo, e também usa diálogos dramáticos semelhantes aos usados no drama kabuki . Outro conceito temático forte em seus escritos é o de uma bela mulher mais velha cuidando de um jovem.
Akutagawa Ryûnosuke (1892 - 1927)
Nome artístico Chôkôdô Shujin, foi um escritor japonês ativo no período Taishô. Ele é considerado o "pai do conto japonês", e o principal prêmio literário do Japão leva seu nome.
Em 1914, Akutagawa reviveu o jornal literário Shinshichō (Novas Correntes de Pensamento), publicando traduções de William Butler Yeats e Anatole France junto com suas próprias obras. Akutagawa publicou seu segundo conto Rashômon no ano seguinte na revista literária Teikoku Bungaku ("Literatura Imperial"), quando ainda era estudante. A história, baseada em um conto do século XII, não foi bem recebida pelos amigos de Akutagawa, que a criticaram extensivamente. No entanto, Akutagawa reuniu coragem para visitar seu ídolo, Natsume Sôseki, em dezembro de 1915 para os círculos literários semanais de Sôseki. Em novembro, publicou seu conto Rashômon na Teikoku Mongaku, uma revista literária. No início de 1916, ele publicou Hana (O nariz, 1916), que atraiu uma carta de elogios de Sōseki e garantiu a Akutagawa seu primeiro gostinho da fama.
Akutagawa seguiu com uma série de contos ambientados no período Heian , período Edo ou início do período Meiji no Japão. Essas histórias reinterpretaram obras clássicas e incidentes históricos. Exemplos dessas histórias incluem: Gesaku zanmai (1917) e Kareno-shō (1918), Jigoku hen (O biombo do inferno, 1918); Hōkyōnin no shi (1918) e Butôkai (1920).
As histórias de Akutagawa foram influenciadas por sua crença de que a prática da literatura deve ser universal e pode reunir as culturas ocidental e japonesa. Isso pode ser visto na maneira como Akutagawa usa obras existentes de uma variedade de culturas e períodos de tempo e reescreve a história com sensibilidades modernas ou cria novas histórias usando ideias de várias fontes. A cultura e a formação de uma identidade cultural também é um tema importante em várias obras de Akutagawa. Nessas histórias, ele explora a formação da identidade cultural durante os períodos da história em que o Japão estava mais aberto a influências externas.
Ueda Akinari (1734 - 1809)
Autor, estudioso e poeta waka, e uma figura literária proeminente no Japão do século XVIII. Ele foi um dos primeiros escritores do gênero yomihon e suas duas obras-primas, Ugetsu Monogatari ("Contos da Chuva e da Lua") e Harusame Monogatari ("Contos da Chuva de Primavera"), são fundamentais para o cânone da literatura japonesa.
Ueda começou a estudar medicina com Tsuga Teishō, que além de ensinar Ueda a ser médico também o ensinou sobre ficção chinesa coloquial. Em 1776 começou a exercer a medicina e também publicou Ugetsu Monogatari. Este trabalho coloca Ueda ao lado de Takizawa Bakin entre os mais proeminentes escritores de yomihon — um novo gênero que representou uma mudança dramática nas práticas de leitura da ficção popular que veio antes dele.
Além de sua ficção, Ueda se envolveu no campo de pesquisa conhecido como kokugaku, o estudo da filologia e da literatura clássica japonesa, frequentemente tipificado por uma rejeição de influências estrangeiras na cultura japonesa, notadamente a língua chinesa, o budismo e o confucionismo . Ueda assumiu uma posição altamente independente dentro desses círculos. Alguns argumentam que Ueda também resolveu esse conflito em histórias como as que aparecem em Ugetsu Monogatari ao começar suas histórias baseadas em histórias chinesas e discursos morais e intelectuais e que ele então colocou em primeiro plano uma sensibilidade japonesa invocando elementos sobrenaturais e fazendo seus personagens sentirem emoções profundas (em oposição à confiança chinesa no intelecto).
Murasaki Shikibu (973 - 1014 ou 1025)
Foi uma romancista, poetisa e dama de companhia japonesa na corte imperial no período Heian. Ela é mais conhecida como a autora de Genji Monogatari (O conto de Genji), amplamente considerado um dos primeiros romances do mundo, escrito em japonês entre cerca de 1000 e 1012. Murasaki Shikibu é um nome descritivo; seu nome pessoal é desconhecido, mas ela pode ter sido Fujiwara no Kaoriko, que foi mencionada em um diário da corte de 1007 como uma dama de companhia imperial.
Uma década após a conclusão de sua mais famosa obra, Genji foi distribuído por todas as províncias; em um século, foi reconhecido como um clássico da literatura japonesa e tornou-se objeto de crítica acadêmica. No início do século 20, seu trabalho foi traduzido; uma tradução em inglês de seis volumes foi concluída em 1933. Os estudiosos continuam a reconhecer a importância de seu trabalho, que reflete a sociedade da corte de Heian em seu auge. Desde o século 13, suas obras têm sido ilustradas por artistas japoneses e mestres conhecidos da xilogravura ukiyo-e.
Três obras são atribuídas a Murasaki: O Conto de Genji, O Diário de Lady Murasaki e Memórias Poéticas , uma coleção de 128 poemas. Seu trabalho é considerado importante por refletir a criação e o desenvolvimento da escrita japonesa, durante um período em que o japonês passou de um vernáculo não escrito para uma língua escrita. Até o século IX, os textos em língua japonesa eram escritos em caracteres chineses usando o sistema de escrita man'yōgana. Uma conquista revolucionária foi o desenvolvimento de kana, uma verdadeira escrita japonesa, em meados do século IX. Os autores japoneses começaram a escrever prosa em sua própria língua, o que deu origem a gêneros como contos (monogatari) e diários poéticos (Nikki Bungaku). O historiador Edwin Reischauer escreve que gêneros como o monogatari eram nitidamente japoneses e que Genji, escrito em kana, "foi o trabalho notável do período".
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ORGANIZAÇÃO
Márcia Hitomi Namekata
Professora Dra na Universidade Federal do Paraná, é formada pela USP e especialista em literatura japonesa e teatro, tendo foco nas narrativas tradicionais.
Lua Bueno Cyríaco
Editora da Laboralivros, edita livros dedicados à literatura asiática (em especial japonesa) desde 2018, tendo mais de 10 livros publicados.
PREFÁCIO
Cid Vale Ferreira
É bacharel em Letras pela FFLC-USP, livreiro e editor. Começou a publicar no underground dos zines góticos com Aranhas do aquário (1996), e editou posteriormente os sites Sépia Zine (1998-2000) e Carcasse (2000-2005). Atuou no mercado de livros didáticos entre 2004 e 2015, em editoras como Scipione, Atual, Moderna, Saraiva, IBEP, Aymará e Oxford University Press, entre outras. Desde 2016, é sócio do Sebo Clepsidra, empresa que reúne uma editora independente e dois sebos-livrarias na cidade de São Paulo. À frente da editora, coordena sua curadoria e o processo de edição e produção. Em 2018 fundou a Coesão Independente, coletivo que reúne mais de 100 editoras independentes. Como organizador, publicou Voivode (2003, Pandemonium) e As trevas e outros poemas de Lord Byron (2007, Saraiva).
TRADUÇÃO
A tradução dos contos foi feito com exclusividade para este livro por Jovanca Kamizi Ichikawa, Marina Gonçalves Pietsch e Dioney Ribeiro da Silveira Junior, todos alunos do curso de letras - Japonês da UFPR com exceção do conto "O caldeirão de Kibistu", feito pela Profª Dr. Nana Yoshida.
EDITORA
A Editora Urso (que é a irmã mais velha da Editora BuruRu) é uma empresa incubada pela Laboralivros, que oferece seus recursos de serviços editoriais para que nossas publicações se tornem realidade! A Urso tem como proposta a publicação e divulgação de trabalhos voltados às áreas artísticas e demais ramificações das ciências humanas. Dentro desse espectro, realizamos publicações de traduções, poesia, ensaios, teses e dissertações com propostas culturais e estéticas a fim de auxiliar na divulgação destes trabalhos.
Assim, partimos do interesse em nos debruçarmos em trabalhos que possuam envolvimento no universo das belas-artes com suas ramificações culturais e teóricas de ordem especulativa em diálogo com o âmbito estético. Conteúdos ensaísticos, dissertativos, literários e de tradução são bem-vindos.
APOIO OFICIAL
A editora paulistana Sebo Clepsidra, ligada às livrarias de mesmo nome e membro-fundador da Coesão Independente, tem como foco principal a edição de obras que orbitam os imaginários gótico, romântico e decadentista (sem, porém, restringir-se a eles).
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