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Introdução: mistérios sagrados da tradução
“Hierophantēs”, palavra de origem grega que, etimologicamente, indica aquela pessoa que guarda, comenta ou estuda os mistérios sagrados, que ensina aos não iniciados os ritos sacrificiais, que percebe nas nuances da existência os elementos de uma linguagem estruturada, cuja expressão busca decifrar. Esse, portanto, é o nome de batismo da nova série da Raphus Press, baseada em traduções de obras singulares — seja por seu conteúdo ou por sua abordagem — de autores importantes, em domínio público, tendo em vista tanto o leitor curioso pela descoberta de estranhezas e mistérios quanto do pesquisador, que busca outras possibilidades, outras referências.
Assim, iniciando essa nova série, teremos dois autores importantes, contemporâneos, com abordagens diferenciadas a partir de visões de mundo estetizantes próximas: Vernon Lee e Gabriele d’Annunzio. Nesse sentido, é importante destacar que, nós dois casos, teremos obras pouco conhecidas, mas fundamentais na produção desses autores, algo que será explicado detalhadamente a seguir.
Os livros
Os dois itens centrais de nossa campanha serão os livros Crônicas Jornalísticas de Gabriele d’Annunzio e Um Fantasma da Cultura; ou A Aventura de Winthrop de Vernon Lee. Ambos serão em formato brochura, 14 x 20 cm. As capas, por sua vez, serão inspiradas nos trabalhos de editoras associadas ao movimento Private Press, que revolucionou o meio editorial no início do século XX. No caso dos dois livros, as editoras pioneiras homenageadas serão a Doves Press (em Um Fantasma da Cultura) e a Fratelli Treves (Crônicas Jornalísticas).

O livro Crônicas Jornalísticas baseia-se em uma coletânea de textos do escritor italiano Gabriele d’Annunzio. Além de dar destaque a um autor pouco traduzido no Brasil, a coletânea revela uma faceta menos explorada do pai do decadentismo na Itália: sua fase jornalística, que precede o debute d’O prazer (1889), considerada sua obra-prima. Durante quase toda a década de 1880, d’Annunzio contribuiu como cronista em jornais de destaque como o Cronaca Bizantina e o La tribuna; os escritos selecionados para esta antologia têm como ponto em comum o fato de serem publicados em 1886 – um prolífico ano de contribuições jornalísticas do autor para o La tribuna. Sob pseudônimos como Duque Mínimo, Mab e Swelt, o autor oferece crônicas que ensaiam os seus primeiros passos em direção ao decadentismo através da criação de personagens singulares, possuídos pelo spleen e adeptos do culto da “arte pela arte”, passando por críticas mordazes à situação política da época e comentários sardônicos sobre a moral e os bons costumes italianos, culminando em imaginários fantásticos.
A crônica História de um beijo narra as desventuras de Guido Paulati, um jovem dândi entediado que gasta toda a sua herança com uma vida luxuosa. Após sua ruína, decide se jogar de uma ponte e ali tem um encontro singular; em A epistolar aventura da Marquesa de Malláre, uma bela viúva hospedada em um hotel escuta a conversa de dois homens no quarto ao lado sobre as preferências acerca da beleza feminina, o que a motiva a dar uma lição nos homens; a Autobiografia de uma cigarrilha descreve o insólito e breve percurso de vida de um cigarro, do nascimento à morte; Os incompreendidos conta a estória de um jornalista de província que aprimora o jornal local com notícias falsas; por fim, em English Spoken, um oficial do exército e um amigo conversam em um vagão de primeira classe ao lado de uma dama que segurava jornal inglês, levando os dois a um jogo nada incomum para impressionar a moça. Nessa coletânea, oferecemos ao leitor um material que, embora seja da lavra de um autor jovem, permanece poderosa ao revelar os primeiros traços da grandiosidade daquele que seria conhecido como o poeta vate da Itália.

Um Fantasma da Cultura; ou A Aventura de Winthrop—, publicado pela primeira vez na Fraser’s Magazine em abril de 1881, não é um dos trabalhos mais conhecidos de sua autora, Vernon Lee — enfim consagrada por sua coletânea de terror Hauntings (1890) —, mas é um dos que melhor destaca uma característica muito ímpar de sua estética literária. Duas características, na verdade: primeiro, sua incrível habilidade em amalgamar ficção e crítica, em escrever um texto cujas linhas oscilam harmoniosamente entre os mistérios do fantástico (A Aventura de Winthrop) e os mistérios das artes (Um Fantasma da Cultura); segundo, sua maturidade absoluta em fundir esses dois mistérios para criar sua própria estética de terror e horror—a saber, uma estética estruturada não sobre manifestações sobrenaturais consagradas, como fantasmas e monstros, mas sobre o que se pode entender como uma espectralidade da arte em meio às suas reformulações históricas.
Em parte, portanto, Um Fantasma da Cultura parece se guiar pela máxima de que sempre chegará um momento em que certas gerações — de pessoas ou de cânones artísticos — serão forçadas a encarar suas próprias obsolescências, o que implicará em diversas estratégias de resistência ao novo. Em parte, porém, o leitor haverá de notar como o conto também parece se guiar por um sentimento muito mais cínico com relação à estrutura social da época — um sentimento hostil à elitização da arte como meio para se separar a burguesia e a nobreza das camadas populares, e favorável à pluralidade de crenças, opiniões e afetos que colorem a cultura dessas camadas.
Outras Recompensas
Para acompanhar os dois livros centrais da campanha, teremos textos adicionais impressos nos formatos tradicionais da Raphus Press para itens breves, mas intensos: a plaquette e a concertina, ambas de feitura artesanal a ser realizada pela Phonte88 (no caso das plaquettes) e da Sutto Serigrafia (no caso da concertina). Trata-se de um material que dialoga com os dois livros principais — em termos de influência, de ideias, de sensibilidade e de interpretação estetizante dos fatos cotidianos.
Assim, a primeira plaquette que apresentamos é Sobre o Retrato —, publicado pela primeira vez nos Salões de 1846, consiste em um ensaio breve cujo teor são as impressões e opiniões de Baudelaire diante de uma série de retratos então recém-concebidos. Muitos dos pintores mencionados no ensaio não se tornaram nomes conhecidos, mas isso só reitera sua importância enquanto crítica: com base em tal amostragem, tão ampla e diversa, Baudelaire elabora em poucas palavras suas próprias hipóteses sobre o que torna um retrato—um gênero por si só às margens da crítica de arte—esteticamente rico ou esteticamente pobre—hipóteses que, o leitor irá perceber, são facilmente válidas e por isso mesmo da maior relevância.
Como os comentários de Baudelaire têm por base breves descrições dos retratos que estavam à sua frente, a Raphus Press se mobilizou para incluí-los — ao menos parcialmente — à guisa de ilustração do texto dessa edição, pequena galeria que ao mesmo tempo facilitará o entendimento dos leitores e providenciará evidências em primeira mão da sensibilidade estética desse importante pensador.

Ainda no formato plaquette, teremos o breve conto de terror “O Coche Fantasma” (1864), aqui publicado em uma nova tradução pela Raphus Press. Embora Edwards tenha escrito um grande volume de romances, livros teóricos e relatos de viagem, sua obra mais notável persiste sendo esse conto.
O coche fantasma é hoje um mito ou topos literário perfeitamente consagrado, mas, se há algo que a Raphus Press busca deixar claro com esta publicação, é o fato de que ele só é assim porque o texto de Edwards ajudou a consagrá-lo. Mas a intenção da editora vai além disso: embora o coche fantasma concentre o clímax do enredo, a narrativa toda do conto possui uma estrutura muito particular — sobretudo para os padrões vitorianos — que desafia a ideia de que essa se trate simplesmente de uma história de terror sobrenatural.
Por fim, teremos uma concertina — em papel especial de tonalidade vermelho-escuro. Trata-se da crônica O Sonho Místico, traduzida por Julia Lobão; na trama, um poeta sonha que sobe aos céus e adentra o Paraíso. Ali, em meio a divindades e corpos celestes, encontra os Eleitos: homens e mulheres homenageados pelos seus grandes feitos na terra através de louvores e incensos ofertados por querubins. Nessa breve sátira, d’Annunzio se aventura pela literatura de fantasia sem, no entanto, abandonar uma das maiores características de sua fase jornalística: a crítica aos costumes da sociedade italiana.
Sobre os autores
Violet Paget (1856-1935) — mais conhecida por seu pseudônimo masculino Vernon Lee — foi uma intelectual, crítica, escritora, musicista e pacifista britânica nascida na França e radicada na Itália pela maior parte de sua vida. Filiada ao Esteticismo Britânico, conviveu com Oscar Wilde, William Morris, John Addington Symonds, John Singer Sargent e Walter Pater, cujas teorias sobre crítica impressionista vieram orientar grande parte de seus pensamento e estética. Embora tenha sido relegada um tanto às margens do movimento, Lee era sem dúvida uma das mais competentes italianistas dentre seus membros, e embora seja hoje mais conhecida por seus contos de terror, é também autora de muitos dos mais instigantes tratados sobre crítica de arte produzidos na época.
Gabriele d'Annunzio (1863-1938), poeta, romancista, cronista e dramaturgo italiano que se tornaria uma espécie de encarnação do herói decadente, ao mesmo tempo herói da Primeira Guerra Mundial e primeiro Duce da história, ao tornar-se regente, na região do Fiume, um território independente: a Regência Italiana de Carnaro (1919-1920). Estreou nas letras italianas com coletâneas de poesia de contos, ambas publicadas no mesmo ano (1882), Canto novo e Terra vergine. Seus romances, a começar por Il Piacere (1889), tiveram impacto considerável não apenas na literatura italiana.
Charles Baudelaire (1821-67) ocupa hoje uma posição privilegiada no panteão das artes e da literatura por seu papel nuclear na formação e expansão do movimento artístico e cultural conhecido como Decadentismo. No entanto, mais de uma década antes de escrever obras fundamentais a esse movimento, como As Flores do Mal (1857) e Paraísos Artificiais (1860), Baudelaire publicou duas séries de ensaios—os Salões de 1845 (1845) e os Salões de 1846 (1846)—que, embora antecipassem muitas das ideias desenvolvidas nessas obras, tinham como objetivos principais desafiar a frieza e a imparcialidade da crítica de arte então veiculada nos jornais e promover artistas então em atividade e em exposição nos Salões de Paris—exibições de arte organizadas pela Academia de Belas Artes de Paris.
Amelia B. Edwards (1831-92) foi uma novelista, jornalista e exploradora que se consagrou como um dos principais nomes da egiptologia em uma sociedade vitoriana movida por intensas ondas de expansão imperialista para mundos antigos.
Sobre os tradutores
Fábio Waki é bacharel em Estudos Literários (2012) e Mestre em Linguística - Estudos Clássicos (2015) pela Universidade Estadual de Campinas e Doutor em Materialidades da Literatura pela Universidade de Coimbra (2021). Foi pesquisador visitante nos Departamentos de Inglês da King's College London (2015) e da Universidade de Estocolmo (2018). É especialista em literatura comparada, com ênfase em literaturas clássica, britânica, irlandesa e brasileira, e em materialidades da literatura, com ênfase nas relações entre literatura, cinema e artes visuais.
Julia Lobão é professora substituta de Língua e Cultura italiana na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e graduada em Letras: Português/ Italiano (UFRJ). Em 2020, tornou-se mestre em Literatura Italiana com ênfase em estudos sobre paisagem e a estética da feiura pela UFRJ e, atualmente, cursa seu doutorado pela mesma instituição. Dentre as suas publicações recentes, destacam-se as seguintes traduções: Poesia Scapigliata (diversos autores) e A Scapigliatura milanesa: fragmentos, de Cleto Arrighi (Ex Machina/ Sebo Clepsidra, 2022), Os crisântemos, de Gabriele d’Annunzio (Melusine, 2022) e A origem dos fósforos, de Gabriele d’Annunzio (Raphus press, 2022). Além disso, é autora de diversos artigos sobre a relação entre literatura e pintura e os revérberos do gótico e do horror na literatura italiana do século XIX.
Sobre a editora
Nos últimos anos, a Raphus Press dedicou-se a lançar obras únicas tanto em termos de forma quanto de conteúdo. São edições breves, cuja extinção, por assim dizer, é rápida – ou seja, logo ficam fora de catálogo e como não costumamos fazer reimpressões, deixam seus vestígios no mundo real e virtual. Por isso nossos livros são únicos, artesanais, com elementos formais diferenciados que buscam tornar a experiência de leitura única. Já no quesito conteúdo, nosso foco sempre foi um certo tipo de ficção fantástica experimental, brutal e feroz que ganhou diversas denominações – neodecadentismo, Ficção Hiperimaginativa (FHi), etc. Por conta da natureza do material em si e das editoras obscuras aos quais esse tipo de criação está vinculado, seus autores, advindos das mais diversas e remotas paragens (incluindo Israel, Groelândia, Dinamarca...) optaram por utilizar o inglês como língua franca em seus manuscritos.
A Raphus publicou seus livros exclusivamente em inglês por algum tempo, mas chegou o momento de trazer para o leitor brasileiro toda a riqueza dessas novas tendências do fantástico, da ficção terrorífica e da literatura especulativa em português! Nesse sentido, e dando continuidade ao projeto que iniciamos com a campanha bem-sucedida de O Baluarte Tomado, narrativa visionária de Damian Murphy, seguida pela campanha para lançamento das inovadoras visões poéticas e narrativas em Cartes de Visite, de Mark Valentine e Dádiva, de D P. Watt, depois a prosa tensa de Justin Isis em A Neve e a poesia solar de Jonathan Wood em Dias de Sol. Já em 2020 tivemos a narrativa de uma outra Europa escrita por Mark Valentine e John Howard, Restos de Sombra, além da ficção especulativa extremamente densa de Brian Evenson com Mater. Um de nossos últimos projetos: a poesia de horror cósmico, através de seu expoente atual mais importante, Wade German, com seu Incantations/Sortilégios.
Andamento do projeto
A tradução de boa parte dos textos (inclusive das recompensas adicionais) já está concluída. Passaremos, nas próximas semanas, para as etapas de edição, finalização e impressão, que podem ser complicadas por conta dos eventos de final de ano (que impactam especialmente a impressão). Por isso, optamos por estabelecer o envio das recompensas no início do ano que vem.








