“Lembra-te, meu amor, do objeto que encontramos
Numa bela manhã radiante:
Na curva de um atalho, entre calhaus e ramos,
Uma carniça repugnante.”
(“Uma carniça”, de Charles Baudelaire, em tradução de Ivan Junqueira)
Introdução: o belo e o grotesco
São longas e complexas as discussões em torno do belo — especialmente aquele idealizado ou refletido em obras de arte — e as variantes daquilo que está além ou aquém do belo, como o sublime (no primeiro caso) e o grotesco (no segundo). Tais discussões envolveram alguns dos filósofos mais importantes desde o século XVIII, de Edmund Burke (autor de um tratado imprescindível nesse sentido, Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias do sublime e do belo) a Kant ou Hegel. Na verdade é uma discussão que, em termos desse ramo específico da filosofia, a teoria estética, chega até a nossa época.
Charles Baudelaire (1821-1867) talvez seja o marco zero desse tipo de percepção estética do horrível. Afastando-se de um sentimentalismo meditativo e idealizante que por vezes acometia os românticos, Baudelaire aproximou-se do horror físico — como no célebre poema “Une Charogne” (“Uma Carniça”), parte de sua coleção de poemas, Fleurs du Mal (As flores do mal, 1857). Nesse poema, a podridão torna-se um elemento estético sem qualquer tipo de idealização no que tange às suas dinâmicas e processos, sua realidade paupável. Baudelaire, da mesma forma, não se situa exclusivamente em fetiches artísticos (pinturas ou partituras satânicas, cujas lendas são célebres), mas amplifica essa busca pelo fetiche do belo (e do horrível, quase que paralelamente) para um universo muito maior de objetos, eventualmente belos (ou horríveis), como a carniça que está no meio do caminho dos passantes. Ou como sintetiza em um poema célebre (e escandaloso, à época), "Ao leitor": "Em tudo o que repugna uma jóia encontramos".

O poeta Charles Baudelaire.
Assim, com nosso projeto HORRORES ESTÉTICOS, apresentamos uma intuição, uma percepção — apontada também por nossos tradutores — entre a criação, ou evocação, da beleza e sua aparente antítese: a feiúra, o grotesco. Um filme de horror que se tornou um clássico contemporâneo como A Substância (2024), de Coralie Fargeat, explora justamente o horror estético, em contrastes entre visões e imagens de beleza idealizada em choque com um agônico grotesco.
Assim, nós, da Raphus Press — sempre em busca da heresia, daquilo que foge de paradigmas e parâmetros usuais— apresentamos aos nossos leitores um conjunto de narrativas nas quais diferentes aspectos dessa sensação de horror estético são explorados: Uma Aposta & Outros Contos de Horror Estético, de Luigi Gualdo; O Clube Perpétuo, de Arthur Gray; Um Fantasma da Cultura, de Vernon Lee; A Devoração, de Brian Evenson; al-Qābid, de Damian Murphy (e um bônus).
Como usual em nossas campanhas, apresentaremos múltiplos desdobramentos da ideia central da campanha em nossas redes sociais na forma de vídeos, imagens, textos, músicas (em playlists de streamings), etc.
Entre o Grotesco, o Belo e o Horror
Luigi Gualdo (1847-1898) foi um autor paradoxal em muitos sentidos. Dividido entre o preciosismo parnasiano (e simbolista, de um Mallarmé) e a tendência ao caos de seus companheiros milaneses vanguardistas aglutinadas na Scapigliatura, entre Paris e Milão, Gualdo soube bem plasmar a perplexidade das contradições de sua existência em sua obra literária. Assim, buscou sínteses entre a beleza algo etérea da Arte idealizada de seu tempo com o grotesco, resultando em singulares e irônicas construções de terror e loucura, como podemos bem observar nos três contos reunidos neste Uma Aposta & Outros Contos de Horror Estético. A tradução foi realizada por Julia Lobão, uma das grandes especialistas na italianística macabra, das muitas tendências relacionadas ao pavor na literatura italiana dos séculos XIX e XX.

O livro terá o mesmo formato de um sucesso da Raphus Press: Kzradock, de Louis Levy: 17 x 20 cm, capa cartão — um formato bastante confortável para leitura, com cerca de 60-70 páginas. Na capa, a gravura Ebbrezza (1888), do grande artista pertencente ao movimento Scapigliatura, Luigi Conconi (1852-1917).
O horror erudito
Arthur Gray (1852-1940) costumava assinar suas histórias (não seus doutos tratados sobre Shakespeare ou abordando a história de Cambridge) com o nome de um monge medieval ao qual se atribuíram falsamente textos antigos: Ingulphos. Assim, a narrativa se configurava como um espaço mais ou menos interdito ao vetusto professor do Jesus College, na venerável Universidade de Cambridge. Dessa forma, no espaço das narrativas, ele podia mergulhar em suas obsessões fora dos limites ordenados e permitidos pela sociedade vitoriana e eduardiana. Um desses liames de estranheza, explorado por Gray em suas tramas, são as ritualizadas e estetizadas relações sociais (em diferentes épocas, pois o homem era um notável historiador).
Trata-se de uma forma elaborada de construção do abjeto inserido no universo estetizado. Pois, em O Clube Perpétuo, temos uma estranha “sociedade secreta”, com seus ritos, formas de comunicação e formas de interação que subvertem os princípios da sociedade organizada. Nesse sentido, não é surpresa descobrir que o próprio Gray montou uma sociedade secreta na virada do século XIX para o XX.
Para O Clube Perpétuo, preparamos uma concertina bastante especial, no formato 20 x 20 cm para seus seis painéis, com o conto acompanhado de uma breve apresentação de seu estranho autor, “Ingulphos” ou Arthur Gray, "Master of Jesus College".
Uma precursora do grotesco estetizado
Entre tantos lançamentos, apresentamos uma obra e uma autora que, em certo sentido, situaram o caminho (ao menos, no âmbito da Raphus Press) a ser desbravado por noções como a de horror estético. Um Fantasma da Cultura, noveleta de Vernon Lee (ou Violet Page, 1856-1935) em que certos questionamentos envolvendo a mais abstrata das Artes — a Música — impulsionam reviravoltas estranhas, bizarras e, em última análise, abjetas ou escandalosas. Trata-se de uma trama muito bem estruturada, que se mantêm no fio da navalha entre a sugestão e ambivalência, e na qual existe uma percepção muito ampla e complexa tanto da cultura quanto de seus efeitos estéticos — e de terror. Por conta de seu pioneirismo, embora este livro tenha sido publicado graças a uma campanha anterior aqui no Catarse, reaparece aqui, para os leitores que perderam a oportunidade de adquirí-lo por um preço especial.

Novos formatos, novos horrores estéticos
Desde 2017,a Raphus Press realiza pesquisas em busca de novos formatos para nossos materiais, narrativas e poemas. Assim, como resultado dessas pesquisas, além das concertinas, temos agora a analecta, nosso novo formato. Cada analecta recria o universo do manuscrito como um maço de papéis manuscritos encontrados em algum lugar. Assim, nesta campanha, teremos duas narrativas breves nesse formato, bastante artesanal, como recompensa. A Devoração, de Brian Evenson, em que um tipo de sonho apresenta a atrocidade cotidiana remodelada em paisagem cíclica; e al-Qābid, de Damian Murphy, temos uma doença (ou seria melhor dizer heresia?) estranha e rara, que exige rituais especiais para sua cura.

A série analecta é produzida com papéis especiais, de alta gramatura, como o Pólen ou os papéis da alemã Hahnemühle, que produz papéis especiais para pintura e desenho.
BÔNUS
Para todos aqueles que apoiares este projeto, um bônus especial: o ebook com o conto Licantropia, de Arthur L. Salmon. Autor hoje esquecido (embora recuperado recentemente pela editora inglesa Tartarus Press), especializou-se em guias de viagem do interior da Inglaterra. Escreveu, conto, poemas e alguns contos, vinhetas e esboços entre o fantástico e o terror, coletados no livro The Ferry of Souls (1926). Esse é o caso dos contos “The Were-Wolf” e “the Horror”, traduzidos no ebook Licantropia/O Horror, que enviaremos a todos os apoiadores desta nossa campanha em sua primeira semana. Tais ebooks serão enviados um dia após o término da campanha, em tempo para que os apoiadores possam usufruir de um belo conto terrorífico como leitura às vésperas das festas natalinas.

Status do projeto
As traduções de Luigi Gualdo e Arthur Gray já estão finalizadas (inclusive, o texto de Gray já está diagramado), o mesmo valendo para Vernon Lee (cujo livro já está impresso). Os textos mais curtos, de produção artesanal, já estão quase totalmente traduzidos










