Apresentação: um reino distante
Na região setentrional da Europa localiza-se uma península que costuma receber o nome de Escandinávia. Trata-se de um conjunto incerto de países (pois a definição de Escandinávia ora inclui, ora exclui certos países próximos), todos eles marcados pela imagem das baixas temperaturas, das mitologias estranhas e algo brutais, de gêneros singulares como as sagas, da herança tranquila de tempos mais turbulentos, pois tal região seria a terra dos vikings.
Contudo, ultrapassando todos esses elementos pitorescos que surgem, fez por outra, em filmes e séries de TV, a Escandinávia é um verdadeiro continente de tendências e formulações literárias muito particulares, de experimentações únicas. Assim, seguindo nossa senda pelos caminhos menos conhecidos e usuais da literatura, com a valorização que damos ao visionário, insólito, caótico ou herético, apresentamos nossa nova incursão pelo continente literário escandinavo: a novela Kore, de Bo Reinholdt, em tradução direta do dinamarquês por Guilherme da Silva Braga, experiente tradutor já indicado ao prêmio Jabuti (em 2016) por um de seus trabalhos.
Nota: realizamos em vídeo uma breve apresentação dos elementos usuais nas narrativas fantásticas na tradição escandinava; tal vídeo segue abaixo.
A trama: fantástico e paganismo
Em Kore, há uma descoberta inusitada que impulsiona toda a narrativa: um novo conjunto de catacumbas, recém-descoberto em Roma, com pinturas murais de natureza misteriosa. Na tentativa de compreensão de tais representações artísticas antigas, um historiador da arte dinamarquês, homem metódico e que aplica singular metodologia em sua prática como pesquisador, é chamado. As estranhas pinturas, tão incomuns quanto sugestivas, exercem efeito hipnótico no acadêmico dinamarquês, embora, ao mesmo tempo, uma jovem que se apresenta no mercado central da cidade passa a exercer fascínio permanente no pesquisador estrangeiro. O mundo ao redor do homem da ciência perde sua aparente continuidade e a trama segue, impiedosa, por um mundo que deixa de ter sua familiar consistência, suas certezas.

Capa da edição dinamarquesa, pela editora Escho.
O paganismo e o fantástico se mesclam em Kore, que também possui traços fellinianos na construção de um universo ambiguamente instável — filmes do grande diretor italiano como Roma de Fellini (Roma, 1972) e Satyricon de Fellini (Saryticon, 1969) logo surgem à mente conforme a leitura se desenvolve e figuras excêntricas surgem, provenientes tanto do submundo quanto da sociedade mundana de Roma. Reinholdt conduz sua história com invejável domínio de recursos, um minimalismo que jamais resvala para o campo muito subjetivo dos sonhos surrealistas — temos diante de nós um historiador palpável, obcecado por elementos factíveis em um universo sutilmente transfigurado, mas ainda assim possível. Acompanhar essa jornada é um desses prazeres trepidantes, como aquele que experimentamos em uma montanha russa: o pavor diante do risco calculado, mas que ainda persiste em suas possibilidades tétricas.

Capa da tradução para o inglês de Kore, pela Mount Abraxas (foto de Dan Ghetu).
O livro: mitos encadernados
Para materializar essa narrativa única em que mito e fantástico convergem para uma dimensão quase onírica, embora ainda usual, cotidiana, optamos por um trabalho de resgate de gravuras representando elementos do estatuário da Antiguidade. Na capa, fruto de longa pesquisa feita por Rodrigo Kmiecik, temos essa recuperação, bem como a representação de elementos mitológicos em um contexto deslocado, enigmático. A composição escolhida permite uma leitura muito particular do romance já em sua capa, uma espécie de jogo, de quebra-cabeça, antecipação de certos elementos lúdicos e enigmáticos presentes na própria novela.

O livro terá as dimensões 17cm x 24cm, capa dura, impresso na Forma Certa, em edição limitada, ilustrada e numerada, com cerca de 80 páginas de extensão. Abaixo, apresentamos o frontispício da edição, igualmente projetado por Rodrigo Kmiecik.

Fragmento do texto original, traduzido
“Lá estava a estátua de uma jovem grega, que parecia ter saído de um livro de arte. Em estilo arcaico. A famosa kore de Atenas, vestida com o peplo. Naquela versão, explodindo com todas as cores do arco-íris. Conforme o esquema reconstruído, que tenta desfazer a ideia de que a arquitetura e a escultura da época clássica eram claras, brancas, limpas e virginais. Os matizes eram um espetáculo para os olhos. Erlingcolocou os óculos. A pessoa viva por trás daquela forma escultórica sem dúvida tinha estudado história da arte. Ou então recebido a ajuda de um especialista, pois tudo estava conforme o modelo – cada nuance, cada drapeado. Tudo.“ (Kore, de Bo Reinholdt, tradução do dinamarquês por Guilherme da Silva Braga).
As outras recompensas
Como usual em nossos projetos, apresentamos recompensas em torno de um eixo temático central, que congrega a obra principal da campanha — nets caso, o livro Kore — mas também as recompensas adicionais. No caso específico deste projeto, trata-se da releitura do mito, a partir de novas perspectivas. Nesse caso, temos dois autores dinamarqueses e um brasileiro, diretamente ligado ao projeto em si.
Para acompanhar obra tão instigante, escolhemos recompensas exclusivas que dialogam com o universo de Kore: essa tentativa de reinstituir e/ou reinterpretar a percepção mítica do mundo. Assim, a concertina O Cisne Branco, escrita pelo talentoso Rodrigo Kmiecik (que também trabalhou como capista de Kore neste projeto), transforma velhas mitologias em uma essência de horror puro, a ser impressa em processo serigráfico pela Sutto Serigrafia, utilizando papel especial em tom esverdeado escuro.
A outra obra escolhida é de um autor já veterano da Raphus Press, presente em outras obras já publicadas graças ao financiamento coletivo do Catarse: o polímata dinamarquês Karim Ghahwagi, músico, escritor, fotógrafo e diretor de filmes. Apresentamos, dele, para este projeto, uma narrativa enigmática: As Angústias do Livro de Satã; inspirando-se em um célebre filme — Páginas do Livro de Satã (Blade af Satans bog, 1920) — do maior diretor de cinema dinamarquês de todos os tempos, Carl Dreyer, o autor nos apresenta um roteiro perdido e o mistério de um crime terrível, metafísico. Esse volume especial será uma plaquette produzida por Circe Clingert da Phonte88. Apresentamos, abaixo, a capa dessa edição única, com uma simulação do papel azul escuro no qual será impressa.
Sobre os autores
Bo Reinhold, nascido em 1948, é um dos grandes segredos da rica literatura dinamarquesa contemporânea. Graduou-se em latim e dinamarquês pela Universidade de Copenhague em 1975. Estreou nesse mesmo ano na ficção, com um conto memorialístico, "Veranda", na revista Gyldendals. Reinhold também trabalhou em curtas-metragens ainda nos anos 1960. Kore foi traduzido para o inglês pela lendária editora romena Mount Abraxas.
Rodrigo Kmiecik é medievalista, escritor e designer editorial. Sua ficção apareceu em revistas e antologias dedicadas ao fantástico e ao horror na literatura. Colaborou com paratextos para a Editora Corvus e atualmente é editor assistente da Editora Ex Machina. Também trabalhou na capa e frontispício de Kore.
Karim Ghahwagi é diretor de vídeos musicais, fotógrafo e escritor. Suas narrativas forma publicadas por editoras como Mount Abraxas, Egaeus Press, Zagava e Raphus Press. Seus contos foram publicados em antologias homenageando Mikhail Bulgakov, William Blake, Bruno Schulz, Thomas Ligotti e Emil Cioran. Criou colagens visuais e vídeos musicais para artistas como Efterklang, Trentemøller, Kúra e Celestial Son. Graduou-se em Filme, Mídia Eletrônica e Literatura em Língua Inglesa na Bard College, de Nova Iorque.
Sobre os tradutores
Guilherme da Silva Braga é doutor e mestre em estudos de literatura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e concluiu com distinção um pós-doutoramento na área de tradução literária na Universidade de Coimbra. Desde 2005 dedica-se à tradução literária, e nesse período traduziu mais de sessenta volumes de obras clássicas e contemporâneas a partir do inglês, do sueco, do norueguês e do dinamarquês para as mais renomadas editoras brasileiras. Ministrou oficinas e disciplinas de tradução literária no Brasil, em Portugal e na Irlanda e publicou artigos científicos relacionados à disciplina no Brasil e na Europa. Em 2016 foi indicado ao prêmio Jabuti de melhor tradução literária publicada no Brasil.
Alcebiades Diniz Miguel é professor, tradutor, pesquisador e escritor, tendo por especialidade as narrativas, a criação de histórias, o registro de universos fantásticos no papel. Bacharel em linguística pela USP, realizou mestrado, doutorado e pós-doutorado na Unicamp e na USP, tendo, nesse percurso, passado por um estágios de pesquisa na Brunel University, na British Library e na Fundação Biblioteca Nacional, onde realizou minucioso trabalho analítico em torno da imprensa simbolista brasileira. Realizou traduções para diversas editoras como Sol Negro, Carambaia, Sebo Clepsidra, Pyro, Ex Machina, Novo Século e Perspectiva, de autores como Gérard de Nerval, H. G. Wells, Dolfi Trost, Nathanael West, Arthur Machen, Henry James, Robert Aickman e Thomas de Quincey. Algumas de suas pesquisas/traduções, de autores como J. G. Ballard e Xul Solar, permanecem inéditas.
Sobre a editora
Nos últimos anos, a Raphus Press dedicou-se a lançar obras únicas tanto em termos de forma quanto de conteúdo. São edições breves, cuja extinção, por assim dizer, é rápida – ou seja, logo ficam fora de catálogo e como não costumamos fazer reimpressões, deixam seus vestígios no mundo real e virtual. Por isso nossos livros são únicos, artesanais, com elementos formais diferenciados que buscam tornar a experiência de leitura única. Já no quesito conteúdo, nosso foco sempre foi um certo tipo de ficção fantástica experimental, brutal e feroz que ganhou diversas denominações – neodecadentismo, Ficção Hiperimaginativa (FHi), etc. Por conta da natureza do material em si e das editoras obscuras aos quais esse tipo de criação está vinculado, seus autores, advindos das mais diversas e remotas paragens (incluindo Israel, Groelândia, Dinamarca...) optaram por utilizar o inglês como língua franca em seus manuscritos.
A Raphus publicou seus livros exclusivamente em inglês por algum tempo, mas chegou o momento de trazer para o leitor brasileiro toda a riqueza dessas novas tendências do fantástico, da ficção terrorífica e da literatura especulativa em português! Nesse sentido, e dando continuidade ao projeto que iniciamos com a campanha bem-sucedida de O Baluarte Tomado, narrativa visionária de Damian Murphy, seguida pela campanha para lançamento das inovadoras visões poéticas e narrativas em Cartes de Visite, de Mark Valentine e Dádiva, de D P. Watt, depois a prosa tensa de Justin Isis em A Neve e a poesia solar de Jonathan Wood em Dias de Sol. Já em 2020 tivemos a narrativa de uma outra Europa escrita por Mark Valentine e John Howard, Restos de Sombra, além da ficção especulativa extremamente densa de Brian Evenson com Mater. Um de nossos últimos projetos: a poesia de horror cósmico, através de seu expoente atual mais importante, Wade German, com seu Incantations/Sortilégios.

Status do projeto
A tradução, realizada pelo experiente Guilherme Braga, está consideravelmente adiantada. A tradução de As Angústias do Livro de Satã, obra consideravelmente menor, já foi iniciada por Alcebiades Diniz Miguel. Em breve, as três peças deverão seguir para a etapa de impressão, em suas respectivas gráficas.









