Introdução: uma fulgurante investigação
O que há de ser aqui narrado é um segredo terrível e sanguinolento, que nem mesmo o próprio autor conhece por inteiro. Um segredo que nem mesmo a polícia de Paris ousa investigar a fundo, embora o chefe de polícia detenha todos os recursos necessários a essa empreitada.
Noite, um imenso hospital psiquiátrico em Paris, no início do século XX; no consultório do psiquiatra-chefe, temos um médium amarrado e com uma adaga na mão, em misterioso transe. Logo, surge um chamado do chefe de polícia, com estranhas instruções, para inacreditável e arriscada missão de captura em uma sala de cinema — uma missão que parece oferecer elos de ligação entre o médium, uma mulher fatal que opera manipulações psíquicas continentais e um puma selvagem e sanguinário…
Capa da tradução em inglês, pela Wakefield.
O trecho inicial e a breve sinopse que apresentamos acima poderiam figurar nos grandes clássicos do cinema expressionista alemão, alguma versão desconhecida de O Gabinete do Dr. Caligari (Das Cabinet des Dr. Caligari, 1920), dirigido por Robert Wiene ou de Dr. Mabuse (Dr. Mabuse, der Spieler, 1922), de Fritz Lang. Mas não: trata-se de um singularíssimo romance, bizarro já no título: O homem-cebola Kzradock, matusalém viçoso: Anotações do dr. Renard de Montpensier, escrito pelo prolífico autor dinamarquês Louis Levy. Assim, é essa obra de imensa originalidade que oferecemos aos nossos leitores nesta nova campanha.
Sobre Kzradock
Louis Nicolai Levy (1875-1940) foi um prolífico escritor dinamarquês. Escreveu de tudo: peças de teatro, artigos de jornal, romances e até mesmo texto para tetro de bonecos. Seus trabalhos mais célebres são seus poemas infantis, que fizeram dele algo como um Hans Christian Andersen do século XX. Também escreveria libelos pacifistas e de denúncia do antissemitismo e do fascismo, como The Truth About France, que se tornou célebre pela tradução para o inglês realizada já em 1941 pela Penguin.

O autor, Louis Levy, em foto anterior aos anos 1920.
Contudo, seria seu romance Menneskeløget Kzradoch, den vårfriske Methusalem, nosso homem-cebola de nome difícil, Kzradock, que garantiria a glória do autor. A narrativa foi originalmente publicada em 1909, na revista ilustrada mensal Maaneds-Magasinet; em livro, saiu no ano seguinte. A estranha narrativa de Levy ganharia, algum tempo depois, tradução para o alemão: em 1912 era lançado Die Menschenzwiebel Kzadock und der Frühlingsfrische Methusalem, com a tradução assinada por Hermann Kiy. Seria essa versão traduzida que faria a fama do livro, pois cairia nas mãos de um bibliófilo feroz e célebre: Walter Benjamin. Benjamin indicaria o livro para o seu amigo, o maior estudioso da cabala no século XX, Gershom Scholem. Seria através das conversas entre esses dois proeminentes intelectuais a respeito das esquisitices presentes na fantástica narrativa de Louis Levy que o livro sobreviveria ao seu tempo e se tornaria quase lendário. Mesmo em sua velhice Scholem ainda se lembraria da marcante leitura desse romance pleno de uma “metafísica da dúvida”, entranhada na sua estrutura de romance policial e de suspense expressionista.
Capa da revista em que o romance foi publicado.
Não é preciso muito esforço para perceber como a abordagem anárquica e iconoclasta das nascentes pulp fictions foi importante para a construção de Kzradock, uma narrativa única em muitos sentidos, entre metafísica e terror, entre sátira e psicanálise. Louis Levy conseguiu antecipar o mesmo tipo de abordagem das pulp fictions feita por autores subversivos da narrativa, de Boris Vian a William S. Burroughs.

Capa da edição dinamarquesa do romance, lançado pela Escho.
E apresentamos essa pérola da narrativa de vanguarda ao leitor brasileiro, em edição sofisticada e primorosa tradução.
Nosso Kzradock
Para a edição da Raphus Press de Kzradock — a primeira em português, aliás —, chamamos o grande tradutor Guilherme da Silva Braga para realizar a tradução direto do dinamarquês. Os livros terão 17 x 20 cm, capa cartão — um formato bastante confortável para leitura, semelhante ao usado pela célebre editora da República Tcheca, Twisted Spoon. Com cerca de 80-90 páginas; nosso Krzadock trará ainda a fotografia urbana de Tiago Jonas (que realizou um trabalho quase cinematográfico ao captar a atmosfera de decadência de São Paulo em nosso projeto O Palacete das Romãs) no frontispício e em segmentos específicos, representando as matrizes de angústia e estranheza do livro original em fotografias de cinemas abandonados de São Paulo. O livro também contará com introdução do editor, situando a obra em meio ao turbilhão de vanguardas que surgiam ao redor dessa narrativa equidistante de qualquer compromisso programático em termos de arte.
Capa da edição brasileira de Kzradock.
A excelência de nosso projeto e da tradução de Guilherme Braga foi, por outro lado, reconhecida pela Danish Arts Foundation, que garantiu um auxílio para nossa edição. Dessa forma, será possível manter nosso livro com um valor bem mais acessível que o usual, dada a qualidade e o esmero aplicado ao projeto. Esta campanha também permitirá a inclusão de elementos mais interessantes em termos de leiaute e impressão.
Por outro lado, nossa campanha também trará outras pérolas da rica tradição do fantástico escandinavo, como veremos a seguir.
Recompensas
No tópico anterior, descrevemos (e apresentamos algumas páginas) do principal lançamento desta campanha, Kzradock. Aqui apresentamos as outras recompensas, lançamentos igualmente importantes e representativos desse fantástico estranho, original e sombrio que povoa o universo literário escandinavo.
A começar teremos a novela Convite para a Invocação, de outro visionário dinamarquês, Karim Ghahwagi. Desse autor extraordinário, já publicamos diversas obras em inglês (o idioma original de suas obras) e traduzidas para o português — uma produção tanto perturbadora quanto lisérgica, em títulos como The Black Hand, Civilian e As Angústias do Livro de Satã. Nesta nova trama, temos a apresentação de preparativos e formas ritualísticas para invocação de seres sobrenaturais que, contudo, ganham contornos muito mais sinistros e terríveis que o esperado. O livro será uma brochura e terá em torno de 40-50 páginas, 13 x 20 cm.
Capa de Convite para a Invocação.
E celebrando o trabalho extraordinário do tradutor Guilherme Braga, trazemos aqui também nossa primeira colaboração com ele: a tradução espetacular que realizou para a novela Kore de outro dinamarquês, Bo Reinholdt, que lançamos no Catarse tempos atrás e cuja edição está quase esgotada. Paganismo greco-romano e fantástico se entrelaçam nessa fabulosa peça de ficção.
Por fim, um ex-voto (formato desenvolvido pelas experiências editoriais da Raphus Press, uma espécie de cartaz em miniatura impresso em papel laminado pela Phonte88) com o poema em prosa (bilingue, português e inglês) Paisagem Espectral. Originalmente publicado na raríssima coletânea A Vigil of Black Stars, editada por Dan Ghetu para a editora Mount Abraxas de Bucareste, esse breve poema capta a sobrenatural paisagem invernal que parece inspirar, ainda que indiretamente, as percepções fantásticas dos autores escandinavos desse gênero. A imagem empregada neste ex-voro será de nosso usual colaborador, Fábio Waki, das geleiras na Patagônia, uma demonstração de que, seja no norte ou no sul do planeta, a desolação, como a estranheza, é um componente constante. O tamanho deste pequeno artefato gráfico: A5 (148 x 210 cm) e a tiragem será limitada e exclusiva da campanha.
Foto das geleiras de El Calafate, na Argentina, de Fábio Waki.
A editora
Nos últimos anos, a Raphus Press dedicou-se a lançar obras únicas tanto em termos de forma quanto de conteúdo. São edições breves, cuja extinção, por assim dizer, é rápida – ou seja, logo ficam fora de catálogo e como não costumamos fazer reimpressões, deixam seus vestígios no mundo real e virtual. Por isso nossos livros são únicos, artesanais, com elementos formais diferenciados que buscam tornar a experiência de leitura única. Já no quesito conteúdo, nosso foco sempre foi um certo tipo de ficção fantástica experimental, brutal e feroz que ganhou diversas denominações – neodecadentismo, Ficção Hiperimaginativa (FHi), etc. Por conta da natureza do material em si e das editoras obscuras aos quais esse tipo de criação está vinculado, seus autores, advindos das mais diversas e remotas paragens (incluindo Israel, Groelândia, Dinamarca...) optaram por utilizar o inglês como língua franca em seus manuscritos.
A Raphus publicou seus livros exclusivamente em inglês por algum tempo, mas chegou o momento de trazer para o leitor brasileiro toda a riqueza dessas novas tendências do fantástico, da ficção terrorífica e da literatura especulativa em português! Nesse sentido, e dando continuidade ao projeto que iniciamos com a campanha bem-sucedida de O Baluarte Tomado, narrativa visionária de Damian Murphy, seguida pela campanha para lançamento das inovadoras visões poéticas e narrativas em Cartes de Visite,de Mark Valentine e Dádiva, de D P. Watt, depois a prosa tensa de Justin Isis em A Neve e a poesia solar de Jonathan Wood em Dias de Sol. Já em 2020 tivemos a narrativa de uma outra Europa escrita por Mark Valentine e John Howard, Restos de Sombra, além da ficção especulativa extremamente densa de Brian Evenson com Mater. Um de nossos últimos projetos: a poesia de horror cósmico, através de seu expoente atual mais importante, Wade German, com seu Incantations/Sortilégios.
Os colaboradores
Alcebiades Diniz Miguel é professor, tradutor, pesquisador e escritor, tendo por especialidade as narrativas, a criação de histórias, o registro de universos fantásticos no papel. Bacharel em linguística pela USP, realizou mestrado, doutorado e pós-doutorado na Unicamp e na USP, tendo, nesse percurso, passado por estágios de pesquisa na Brunel University, na British Library e na Fundação Biblioteca Nacional, onde realizou minucioso trabalho analítico em torno da imprensa simbolista brasileira. Realizou traduções para diversas editoras nacionais, Sol Negro, Carambaia, Sebo Clepsidra, Ex Machina, Novo Século e Perspectiva, de autores como Gérard de Nerval, H. G. Wells, Dolfi Trost, Nathanael West, Arthur Machen, Henry James, Robert Aickman e Thomas de Quincey. Algumas de suas pesquisas/traduções, de obras escritas por J. G. Ballard e Xul Solar, permanecem inéditas.
Guilherme da Silva Braga é doutor e mestre em estudos de literatura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e concluiu com distinção um pós-doutoramento na área de tradução literária na Universidade de Coimbra. Desde 2005 dedica-se à tradução literária, e nesse período traduziu mais de sessenta volumes de obras clássicas e contemporâneas a partir do inglês, do sueco, do norueguês e do dinamarquês para as mais renomadas editoras brasileiras. Ministrou oficinas e disciplinas de tradução literária no Brasil, em Portugal e na Irlanda e publicou artigos científicos relacionados à disciplina no Brasil e na Europa. Em 2016 foi indicado ao prêmio Jabuti de melhor tradução literária publicada no Brasil.
Fábio Waki é bacharel em Estudos Literários (2012) e Mestre em Linguística - Estudos Clássicos (2015) pela Universidade Estadual de Campinas e Doutor em Materialidades da Literatura pela Universidade de Coimbra (2021). Foi pesquisador visitante nos Departamentos de Inglês da King's College London (2015) e da Universidade de Estocolmo (2018). É especialista em literatura comparada, com ênfase em literaturas clássica, britânica, irlandesa e brasileira, e em materialidades da literatura, com ênfase nas relações entre literatura, cinema e artes visuais.
Tiago Jonas de Almeida (ou TW Jonas) é químico de formação. Autodidata, fotografa há 22 anos. Participou de coletivas em locais como ICBA-Instituto Cultural Brasil-Alemanha (em Salvador), nos eventos Santa Teresa de Portas Abertas e MOLA - Mostra Livre de Artes (no Rio de Janeiro) e no evento Voodoohop (em São Paulo). Publicou em 2015 algumas imagens no jornal de poesia RelevO. Em 2016, recebeu o prêmio de terceiro lugar no 7º Euroclick – Prêmio do Centro Europeu de Fotografia. Em 2017, esteve entre os 25 selecionados para a exposição #DesafioSP25 “A Cidade se transforma” na Doc Galeria. Em 2018, publicou o fotolivro Science is sexy e, em parceria com Ricardo Rodrigues, o livro de poesias e fotografias A descoberta do segundo sexo, ambos pela editora Gosto Duvidoso. Em 2019, foi um dos fundadores da editora Mocho, pela qual lançou diversos livros como editor. Criou recentemente o selo Vertigem, editora especializada em fotolivros e zines de fotografia.
Andamento do projeto
A tradução já foi finalizada e se encontra, no momento, em revisão. As fotografias estão em processo de feitura/edição e a tradução de Convite, já começou a ser feita. Acreditamos que em um curto prazo, dois ou três meses após o término da campanha, todas as recompensas estarão impressas e prontas para o envio










