“Tremendo. Permanecer imóvel, de pé, numa escuridão solitária, numa atitude sem gesto de suplicante: súplica, mas sem gesto e, sobretudo, sem esperança. Perdido e suplicante, cego, semimorto. Como Jó sobre o esterco, mas não imaginando nada, noite escura, desarmado, sabendo que está tudo perdido.”
(Georges Bataille, O Suplício)
NOVIDADES: NOVO EBOOK AOS APOIADORES, CASO ALCANCEMOS 100%
Temos uma novidade: como na campanha anterior, oferecemos um ebook sem custos a todos os apoiadores (bem como o ebook anunciado anteriormente, Caçador de Almas, de Aleister Crowley) caso alcancemos os 100%. Trata-se de História Verdadeira de um Vampiro & Outros Relatos, do Conde Stenbock, um extraordinário decadente inglês. faremos um vídeo em breve a respeito de Stenbock, e a capa segue abaixo.

Introdução: novas mitologias do pavor
Um dos aspectos mais produtivos do horror enquanto possibilidade estética é sua amplitude mitológica, que parece dispor de infinitas possibilidades de renovação e reconstrução. Se os mitos originários ancestrais costumam ser renovados, recontados e refeitos com certa periodicidade (é o que ocorre com o mito do morto que se alimenta dos vivos, do ser humano possuidor de uma ferocidade animalesca, do ser artificial que se revolta contra o criador, do ser duplicado tão semelhante (e mortal) em relação ao mesmo.
Mas existe, contou, um campo interessante de desenvolvimento da mitologia noturna do horror e do fantástico: justamente a construção de outras percepções do elemento terrífico — percepções que se situam nos limites da sanidade, do delírio, do pesadelo, do êxtase religioso. Essa metodologia de criação do horror como um tipo de colapso do universo convencional já era prenunciado pelas narrativas mais enigmáticas de Edgar Allan Poe (como A narrativa de Arthur Gordon Pym) e na anti-mitologia de H. P. Lovecraft. Com Octave Mirbeau e seu O Jardim dos Suplícios (1899), o horror físico evocado pela tortura estabeleceu peculiares mitos noturnos a partir da carne viva (e aberta, por vezes) dos seres humanos. Mas a mitologia noturna teve sua definição mais nítida com autores de certa vanguarda, que buscavam justamente um extremismo situado além das convenções usuais do decadentismo. Autores como Georges Bataille ou os vanguardistas ligados ao surrealismo e ao expressionismo alemão souberam explorar essa mitologia noturna quase como uma nova religião de horrores. E esse caminho seguiu sendo trilhado por autores tão díspares quanto Robert Aickman, Clive Barker ou Thomas Ligotti. Esse processo mitológico ultrapassou os limites da ficção e chegou à especulação filosófica, com o singular conceito de hiperstição.

O autor Georges Bataille.
Assim, seguindo nosso caminho de apresentar aos leitores experiências incomuns e heréticas em literatura, trazemos aos nossos leitores quatro exemplos desse tipo peculiar de mitologia pessoal em diversos formatos: Caçador de Almas, de Aleister Crowley (ebook), Dissecação, seguido de Tentativa de uma nova religião, de Georg Heym (concertina), Veneração em Polwhevereal Manor, de Benjamin Tweddel e O Sulco mais Profundo, de Jonathan Wood (os dois últimos em formato brochura).
Devido à complexidade do tema desses mitos noturnos (e suas ressonâncias em outros campos e na sociedade), indicamos um vídeo que fizemos a respeito desse tema, que pode ser visto abaixo.
Nosso conjunto de mitos noturnos
Em vídeo recente (que pode ser visto neste link), destacamos a complexidade em torno do conceito que apresentamos, da mitologia noturna. Mas, seguindo os caminhos usuais da Raphus Press (incluindo a publicação de material herético, pouco conhecido e maldito), optamos por trazer aos nossos leitores os mitos de alguns autores pouco diferentes ou não tão reconhecidos no campo da ficção.
No caso das obras em domínio público, temos em primeiro lugar Aleister Crowley (1875-1947), um autor muito mais conhecido por suas atividades no campo do ocultismo. Mas foi um contista de grande talento, em narrativas tensas, lisérgicas e tenebrosas como neste conto Caçador de Almas (The Soul-Hunter), originalmente publicado na revista The Equinox, volume I, número 03 (o motivo pelo qual Crowley abandonou a ficção é bastante singular e será mencionado na introdução deste ebook). A intensidade e a crueldade deste conto são bastante notáveis, no sentido de uma espécie de ritual para um novo culto. No formato epub, este ebook estará disponível a todos que apoiarem a campanha em seus dez primeiros dias (do dia 03 ao dia 13 de fevereiro). Tradução de Alcebiades Diniz Miguel.
O segundo autor em domínio público deste projeto é Georg Heym (1887-1912), um grande poeta expressionista alemão, associado aos membros do Neopathetisches Cabaret, um local em que se encontravam outros grandes nomes do expressionismo (que temos a esperança de trazer ao leitor brasileiro em futuras campanhas) como Kurt Hiller, Else Lasker-Schüler e Gottfried Benn. Embora mais conhecido por seus poemas, escreveu alguns contos e esboços de ensaios — apresentamos um exemplar de cada na concertina Dissecação, seguido de Tentativa de uma nova religião. Dissecação é um conto, brutalmente realista que apresenta um quadro tão fascinante quanto medonho da vida após a morte. Já o esboço ensaístico Tentativa de uma nova religião busca alinhavar os elementos para inaugurar novas formas de êxtase na Terra. A concertina segue o padrão atual seguido pela Raphus, que prima pelo minimalismo e será impresso em papel especial pela Phonte88. A tradução foi feita por Lucas Cartaxo.

Os dois livros, em formato brochura, desta campanha são de autores contemporâneos, já conhecidos de nossos leitores pois lançamos outras obras instigantes deles no passado: O Sulco mais Profundo, de Jonathan Wood e Veneração em Polwheveral Manor, de Benjamin Tweddel. As obras de ambos, nesse sentido, são espetaculares: são universos de agonia construídos pacientemente a partir de mitos e noções conhecidos (o martírio e a santidade, em Tweddel; a ideia de "fugir da cidade", em Wood). O resultado é tão tenebroso quanto espetacular, notadamente quando essas duas mitologias noturnas encontram o caminho para o êxtase e a transcendência. Os dois livros serão brochuras, em torno de 60 páginas cada, o miolo em papel pólen de alta gramatura, para garantir uma excelente experiência de leitura. Traduções de Bruno Costa.

Por fim, teremos um resgate do acervo já vasto da Raphus Press: O Mackay Bennett, de Patrick Mallet com tradução do inglês de Thassio Rodriguez Capranera. Foi nossa primeira experiência com concertinas — inspirada pelos trabalhos da editora romena Mount Abraxas —, publicada no distante ano de 2020. Patrick Mallet constrói, nessa narrativa, uma reconstituição histórica do naufrágio do Titanic — em um dos momentos menos conhecidos e mais terríveis —, cruzando tais evocações com uma imagem extraordinária do sobrenatural. Esta recompensa exclusiva será limitada e estará disponível apenas no apoio mais completo, A totalidade do mito.

Recompensas
As recompensas disponíveis para este projeto serão as seguintes:
- Mito introdutório: rituais sangrentos. Para todos que apoiarem no projeto nos dez primeiros dias de campanha (03 a 13 de fevereiro), uma recompensa especial: o ebook Caçador de Almas, de Aleister Crowley, de graça ao final da campanha.
- Primeiro mito: o corpo. Nesta categoria, o apoiador obterá, por apenas R$ 30,00 (despesas de envio inclusas), Dissecação, seguido de Tentativa de uma nova religião, uma concertina com duas obras inéditas do expressionista alemão Georg Heym, trazidas pela primeira vez ao leitor brasileiro.
- Segundo mito: fugere urbem. O apoiador, nesta categoria, receberá um exemplar da novela O Sulco mais Profundo, de Jonathan Wood, autor de prosa ocultista apresentado aos leitores brasileiros pela Raphus Press. Despesas de envio já inclusas no valor de R$ 50,00.
- Terceiro mito: o martírio. O apoiador, nesta categoria, receberá um exemplar da novela Veneração em Polwheveral Manor, de Benjamin Tweddel, estranha e assustadora narrativa mística. Despesas de envio já inclusas no valor de R$ 50,00.
- A totalidade do mito. Nesta categoria final, por R$ 150,00, o apoiador terá acesso a todos os itens das recompensas anteriores (o ebook Caçador de Almas, a concertina Dissecação, seguido de Tentativa de uma nova religião, os livros O Sulco mais Profundo e Veneração em Polwheveral Manor), além de um dos últimos exemplares da concertina O Mackay Bennett, de Patrick Mallet com tradução do inglês de Thassio Rodriguez Capranera.
Sobre os tradutores
Alcebiades Diniz Miguel é professor, tradutor, pesquisador e escritor, tendo por especialidade as narrativas, a criação de histórias, o registro de universos fantásticos em forma de narrativa. Bacharel em linguística pela USP, realizou mestrado, doutorado e pós-doutorado na Unicamp e na USP, tendo, nesse percurso, passado por um estágios de pesquisa na Brunel University, na British Library e na Fundação Biblioteca Nacional, onde realizou minucioso trabalho analítico em torno da imprensa simbolista brasileira. Realizou traduções para diversas editoras como Sol Negro, Carambaia, Sebo Clepsidra, Ex Machina, Novo Século e Perspectiva, de autores como Gérard de Nerval, H. G. Wells, Dolfi Trost, Nathanael West, Arthur Machen, Henry James, Robert Aickman e Thomas de Quincey. Algumas de suas pesquisas/traduções, de obras escritas por J. G. Ballard e Xul Solar, permanecem inéditas.
Bruno Costa é editor e tradutor desde 1997. Colaborou com as principais editoras e instituições do país (Zahar, Globo, Cosac Naify, Bienal de São Paulo, IMS, SESC-SP etc.) e foi sócio e editor da Hedra. Traduziu Diderot, Crevel, Artaud, Sebbag, Satie, Aickman, Capra, Delteil, Yves Michaud, Jonatham Lethem, Bierce, Brian Evenson, entre outros. Em 2013, fundou a Editora Ex Machina. Trabalha desde 2007 com a plataforma Linux e softwares livres orientados para o ambiente editorial.
Lucas de Souza Cartaxo Vieira é bacharel em Letras Português-Alemão pela Universidade de São Paulo e atua como revisor, preparador e tradutor (português, inglês e alemão) há mais de quinze anos.
Nascido sob o signo de Áries, Thassio Rodrìguez Capranera (autor) é tradutor, editor, designer de jogos de RPG e autor. Traduziu autores da língua inglesa, francesa e espanhola para as editoras Diário Macabro, Sebo Clepsidra, Carcosa e Raphus Press. Como editor e designer de jogos, trabalha ao lado do designer e autor Pedro Andrade no DM RPG, além de projetos pessoais. Sua principal vocação, no entanto, além de buscar na diversidade de hobbies e trabalhos a insígnia de uma vida surrealista e caleidoscópica, é escrever: publicou inúmeros contos em coletâneas, publicou seu primeiro livro de contos As Ruínas Futuras (Raphus Press 2020), e agora lança a primeira novela de sua coleção de novelas decadentistas Crimes de São Paulo. Há muito que também trabalha como dramaturgo, apesar de suas peças (essencialmente shakespeareanas) nunca terem visto a luz do dia, tampouco do palco. Além do trabalho aqui apresentado, trabalha em dezenas de outros projetos literários em diferentes estágios de composição.
Sobre a Raphus Press
Nos últimos anos, a Raphus Press dedicou-se a lançar obras únicas tanto em termos de forma quanto de conteúdo. São edições breves, cuja extinção, por assim dizer, é rápida – ou seja, logo ficam fora de catálogo e como não costumamos fazer reimpressões, deixam seus vestígios no mundo real e virtual. Por isso nossos livros são únicos, artesanais, com elementos formais diferenciados que buscam tornar a experiência de leitura única. Já no quesito conteúdo, nosso foco sempre foi um certo tipo de ficção fantástica experimental, brutal e feroz que ganhou diversas denominações – neodecadentismo, Ficção Hiperimaginativa (FHi), etc. Por conta da natureza do material em si e das editoras obscuras aos quais esse tipo de criação está vinculado, seus autores, advindos das mais diversas e remotas paragens (incluindo Israel, Groelândia, Dinamarca...) optaram por utilizar o inglês como língua franca em seus manuscritos.
A Raphus publicou seus livros exclusivamente em inglês por algum tempo, mas chegou o momento de trazer para o leitor brasileiro toda a riqueza dessas novas tendências do fantástico, da ficção terrorífica e da literatura especulativa em português! Nesse sentido, e dando continuidade ao projeto que iniciamos com a campanha bem-sucedida de O Baluarte Tomado, narrativa visionária de Damian Murphy, seguida pela campanha para lançamento das inovadoras visões poéticas e narrativas em Cartes de Visite,de Mark Valentine e Dádiva, de D P. Watt, depois a prosa tensa de Justin Isis em A Neve e a poesia solar de Jonathan Wood em Dias de Sol. Já em 2020 tivemos a narrativa de uma outra Europa escrita por Mark Valentine e John Howard, Restos de Sombra, além da ficção especulativa extremamente densa de Brian Evenson com Mater. Um de nossos últimos projetos: a poesia de horror cósmico, através de seu expoente atual mais importante, Wade German, com seu Incantations/Sortilégios.
Andamento do projeto
As traduções e composição do layout já estão em andamento, o que deverá indicar que os livros sairão no prazo.










