Introdução: um novo maldito/visionário
É indiscutível certa necessidade muito peculiar que todas as sociedades humanas — das ancestrais até aquelas ditas “civilizadas” — possuem, que podemos sintetizar como a necessidade de indivíduos visionários e malditos existirem. Trata-se, de fato, de uma carência premente em pulsões e materializações heréticas, em percepções únicas, em formalizações inovadoras, em concepções fora de tempo e de lugar. Tudo isso ganha forma com objetos de culto, adoração, arte: rituais, edifícios, telas pintadas, narrativas, poesias.
Celebrando a essencial busca humana por heresia, mudança e revolução, essa nossa necessidade de visões e maldições, que a Raphus Press e a Contravento Editorial uniram forças para trazer aos leitores 3 traduções inéditas de autores vigorosamente visionários e/ou malditos. Dando prosseguimento a esse projeto, que começou com nossa edição de Em um mundo sonoro, de Victor Segalen, apresentamos aos nossos leitores o segundo livro dessa série: Mügle, de René Daumal.
Sobre Mügle
Presente na lista dos livros favoritos de Patti Smith, celebrado pelo cineasta Alejandro Jodorowsky e pelo psicanalista Jacques Alain-Miller, René Daumal nasceu em 1908 na cidade de Boulzicourt (França). Daumal se destacou como um dos fundadores do grupo Le Grand Jeu [O Grande Jogo], levando às últimas consequências tanto “os poderes da linguagem” quanto o “os paraísos artificiais”, o que viria a lhe garantir um lugar em meio aos “malditos”.
Mügle é uma novela escrita por René Daumal aos 17 anos e que permaneceu inéditaaté 1978. Claudio Rugafiori, que prefacia a edição francesa, é categórico ao afirmar que “Mügle pode ser considerado como um dos textos mais originais dos anos de ‘prosa surrealista’” de Daumal, atendendo a uma “necessidade interior” e “escrito de um só jato e sem rasuras”.
Eu tinha colocado o mundo na mesa; e eis que ele ia escorrendo por cima da borda circular, eis que o mundo desmoronava por trás de seu próprio horizonte. (...)
René Daumal, Mügle
Sobre a edição
A edição inédita em português que, graças a sua colaboração, a Raphus Press publicará em parceria com a Contravento Editorial conta com prefácio pelo prof. dr. Marcus R. Salgado, posfácio por PhD Philip Powrie, ilustrações por Rony Bellinho, quarta capa por Zuca Sardan e tradução anotada por Natan Schäfer.
O livro seguirá o mesmo padrão e formato de Em um mundo sonoro, sendo igualmente impresso pela Loyola, gráfica tradicional e de excelente qualidade. Nas dimensões 12 x 24 cm, as edições desta série foram cuidadosamente projetadas para oferecer aos leitores um efeito sensorial compatível ao impacto fornecido pelo conteúdo narrativo e poético de cada uma das 3 obras, cada uma delas com cerca de 100 páginas. Abaixo, imagens de como ficará, impresso, Mügle:

Sobre as recompensas
Além de Mügle, o apoiador poderá optar por edições exclusivas tanto da Raphus Press quanto da Contravento Editorial, orientadas como a novela de Daumal para o vanguardismo visionário. Em primeiro lugar, o primeiro livro da série Visionários & Malditos, da Raphus em parceira com a Contravento: Em um mundo sonoro, de Victor Segalen, já publicado. Também poderá optar por conhecer Kzradock, de Louis Levy, novela noir e expressionista que a Raphus lançou ano passado. Ou, ainda, vossa excelência, a jojoca, de Bolívar Escobar e Gabriel Jacobi, experimento editorial único da Contravento.
O tradutor e o ilustrador
Natan Schäfer (Ibirama, 1991) é mestre em estudos literários pela Universidade Federal do Paraná e pela Université Lumière Lyon 2. Foi professor do curso de Bacharelado em Artes Visuais da UNESPAR e tradutor convidado nas residências Looren América Latina (Suíça) e Résidence Passa Porta (Bélgica). É autor de Taquaras (Contravento Editorial, 2022) e tradutor de, dentre outros, Por uma insubmissão poética (Sobinfluência, 2022), La promenade de Vénus (Venus D'Ailleurs, 2022) e Sonho e poesia, de Otto Rank (Blucher, 2023). Atualmente é membro da Psychoanalytische Bibliothek Berlin e responsável pela Contravento Editorial, também publicando regularmente na revista Pessoa e assinando a coluna "A Fresta", publicada de 2020 a 2022 na página da editora Sobinfluência, e atualmente na página da editora Aboio. Além disso, dá a ver em desenhos, pinturas, escritos e fotografias algo da poesia que lhe atravessa.
Nascido no Rio de Janeiro (1958), o artista plástico Rony Bellinho reside atualmente em Cascavel, após vários anos radicado em Curitiba. Conhecido por sua capacidade de mesclar experiências cotidianas com o universo artístico, produz suas obras com visíveis referências dos diversos campos das artes visuais e da literatura. Rony participou da Bienal Internacional de Curitiba e de outras exposições coletivas e individuais em diversos museus, centros culturais e galerias de diversos países. Entre suas principais exposições individuais estão: Finis Lapa, 2007 (Cascavel/PR); Galeria Subsolo (Curitiba/PR) e Centro Cultural Recoleta (Buenos Aires).
Sobre sua obra, Giovanna Martucci anota: "Imagens com estruturas narrativas intensas, mesmo que emblemáticas, apontam a um posicionamento literário do artista. Em uma crítica escrita por Adalice Araújo no Dicionário de Artes Plásticas do Paraná, comenta-se: 'Rony serve-se de uma figuração gestual de cunho neo-expressionista para liberar seus daemons íntimos'".
As editoras
Nos últimos anos, a Raphus Press dedicou-se a lançar obras únicas tanto em termos de forma quanto de conteúdo. São edições breves, cuja extinção, por assim dizer, é rápida – ou seja, logo ficam fora de catálogo e como não costumamos fazer reimpressões, deixam seus vestígios no mundo real e virtual. Por isso nossos livros são únicos, artesanais, com elementos formais diferenciados que buscam tornar a experiência de leitura única. Já no quesito conteúdo, nosso foco sempre foi um certo tipo de ficção fantástica experimental, brutal e feroz que ganhou diversas denominações – neodecadentismo, Ficção Hiperimaginativa (FHi), etc. Por conta da natureza do material em si e das editoras obscuras aos quais esse tipo de criação está vinculado, seus autores, advindos das mais diversas e remotas paragens (incluindo Israel, Groelândia, Dinamarca...) optaram por utilizar o inglês como língua franca em seus manuscritos.
A Raphus publicou seus livros exclusivamente em inglês por algum tempo, mas chegou o momento de trazer para o leitor brasileiro toda a riqueza dessas novas tendências do fantástico, da ficção terrorífica e da literatura especulativa em português! Nesse sentido, e dando continuidade ao projeto que iniciamos com a campanha bem-sucedida de O Baluarte Tomado, narrativa visionária de Damian Murphy, seguida pela campanha para lançamento das inovadoras visões poéticas e narrativas em Cartes de Visite,de Mark Valentine e Dádiva, de D P. Watt, depois a prosa tensa de Justin Isis em A Neve e a poesia solar de Jonathan Wood em Dias de Sol. Já em 2020 tivemos a narrativa de uma outra Europa escrita por Mark Valentine e John Howard, Restos de Sombra, além da ficção especulativa extremamente densa de Brian Evenson com Mater. Um de nossos últimos projetos: a poesia de horror cósmico, através de seu expoente atual mais importante, Wade German, com seu Incantations/Sortilégios.
A Contravento Editorial foi fundada pela artista Flávia Chornobai — hoje radicada em Milão (Itália) — e por Natan Schäfer em 2016. Seu perfil é o de uma microeditora independente, voltada à subversão pela escrita, imagem e tato. Assim, a Contravento busca proporcionar aos seus leitores inquietações através de uma relação íntima com o livro, situando-o na fronteira entre o livro-de-artista e o livro comercial, e abrindo frestas para a transformação do mundo e a mudança da vida. Dentre os autores publicados se encontram a dupla Bolívar Escobar e Gabriel Jacobi, Marcelo De Angelis, Guilherme Gontijo Flores, Julia Raiz, Sergio Lima, Zuca Sardan e Julie Fank.
Status do projeto
A obra já está traduzida, com suas ilustrações já prontas e paratextos preparados. Com a campanha, pretendemos obter os fundos necessários para enviar o material para a gráfica.






