A magnificência de tais objetos dificilmente pode ser vista como pertencente ao humano. Sua existência se dá em um mundo de ícones, onde participam de rituais que transmutam a própria vida em uma série de grandes gestos, tão emocionantes quanto absurdos.(Angela Carter)
Apresentação
O fantástico, em literatura, parece ter uma atração peculiar pelo formato curto – o conto, a novela e a novela breve ou novelette – desde seus primórdios, com a ficção gótica e talvez mesmo antes, quando as pessoas se reuniam em torno de uma fogueira para ouvir um causo, uma história vívida de assombrações e outros seres e situações espantosas.
Assim, resgatando e prosseguindo no seio dessa tradição de maravilhamento e terror, a Raphus Press apresenta aos seus leitores, ávidos de mistério e de novas descobertas, o segundo número de nosso almanaque, uma coletânea ilustrada (e colorida) contendo três novelas breves de três dos maiores ficcionistas do estranhamento em atividade: Salamandra Celestial de Damian Murphy, A Colina das Cinzas de Colin Insole e Simulacros de Forrest Aguirre. Todas as três tramas dialogam com um tema central, por assim dizer: o ritual.
Da novela
O formato de narrativa breve sempre foi o preferido dos autores de ficção fantástica. Contos, novelas e novelettes – um formato ainda mais breve que a novela, mas não tanto quanto um conto – oferecem maior intensidade por conta de sua menor extensão, além de possibilidades estilísticas complexas relacionadas à construção do suspense e da forma dos personagens apreenderem o mundo. Se o romance longo oferece possibilidades de estudo de personagens e aprofundamento de painéis históricos e psicológicos, as formas breves possibilitam um impacto magnífico, o estremecimento do terror, a percepção de possibilidades de outras interações encobertas por uma realidade formulaica – sensações impossíveis de serem evocadas em tramas muito extensas. Grandes autores do gênero fantástico – depois, do terror, Weird, etc.
Nos últimos anos, já no século XXI, novos autores surgiram na paisagem da narrativa fantástica, buscando renovas as formas breves de narrativa. Esses autores também são editores, livreiros, pesquisadores aglutinados em torno de publicações como a revista Wormwood, publicada pela Tartarus Press – gente dos livros, como se diz. Todos eles organizam-se e publicam nos cenáculos erigidos por editoras independentes como Mount Abraxas, Zagava, Egaeus, Swan River ou a nossa Raphus Press. Trazemos, portanto, ao leitor esse material fresco e complexo, escrito por autores menos conhecidos mas plenamente comprometidos com essa forma por excelência da literatura fantástica. E o fazemos reativando a noção do almanaque e buscando, na medida do possível, evocar a beleza das edições originais dessas três obras. Assim, os textos são acompanhados de ilustrações, frutos de ampla e aprofundada pesquisa, que não são meras imagens bonitas que servem de decoração: seu objetivo é traçar um comentário visual, que possibilite ao leitor descortinar novas tramas durante a leitura e posteriores releituras.
Logotipo de nosso almanaque.
Um almanaque de narrativas fantásticas
O almanaque, no dicionário, costuma ser definido como uma publicação periódica (originalmente anual) que reúne calendário com datas das principais efemérides astronómicas como os solstícios e as fases lunares, ou eventualmente englobando outras informações com atualizações periódicas específicas dentro de diferentes ramos do conhecimento. Pois a Raphus Press inaugura aqui sua própria versão, seu almanaque ficcional, que será lançado semestralmente, trazendo algumas das melhores novelas e novelettes produzidas nos últimos anos, nos círculos mais esotéricos do fantástico, exclusivamente para nossos leitores. Em edições que deverão fazer jus às publicações originais, como a primeira, lançada ano passado — Destino —extremamente belas, tendo por elemento unificador traços temáticos próximos.
No caso deste segundo volume, Ritual, apresentamos ao leitor narrativas em que existem sequências de ações, objetos ou situações que configuram algo como um cerimonial, essa forma cíclica de interagir com o universo que, em muitos casos, parece conter a chave de sua compreensão.
A narrativa de Damian Murphy, por exemplo (originalmente intitulada The Salamander Angel) foi publicada por duas vezes: a primeira, na coletânea lançada pela Ex Occidente Press e Zagava, Infra Noir e, posteriormente, na coletânea do autor Daughters of Apostasy, que saiu em 2017 pela Snuggly Books (imagens de ambas abaixo). Na trama de Murphy, temos uma série de encontros fortuitos e descobertas casuais que configuram um fragmento da imensa tapeçaria do cosmo.
A novelette de título A Colina das Cinzas (originalmente The Hill of Cinders), de Colin Insole, foi originalmente publicada pela editora L’homme récent de Bucareste em 2015; posteriormente, essa narrativa foi incluída na coletânea Valerie and Other Stories, publicada pela Snuggly Books em 2018. Na trama, temos o retorno do protagonista à escola de sua infância — tendo por pano de fundo uma paisagem tão singular e lisérgica que o mal parece nela infiltrar-se, em descrições que evocam tanto o celestial quanto o diabólico.
Simulacros (originalmente, Simulacra), por fim, é uma novelette de Forrest Aguirre, publicada originalmente por nossa editora em seu idioma original (inglês), em 2020. Menos uma narrativa e mais um labirinto estruturado cuidadosamente com palavras, Simulacros trata da história de dois aficionados ao oculto buscando produzir um tipo específico de reprodução de seu antagonista.
O livro
Como no volume anterior, Destino, optamos por um formato de álbum, amplo, luxuriante, para tomar para si um bom nicho de qualquer estante: 20 x 25 cm, capa dura, guardas coloridas (desta vez, em cor preta), papel pólen de 90 gr. A extensão do livro será de 100 páginas, aproximadamente. A depender do montante obtido durante esta campanha, as ilustrações internas poderão inclusive ser coloridas.
A capa de Ritual, Tomo II do almanaque Narrativas Angustiantes.
Tendo em vista a beleza das edições originais e a densidade do tema de nosso almanaque ficcional, optamos por ilustrações internas que dialogam com a noção de "ritual", conforme trabalhada pelos autores — assim, imagens de evocações, necromancia, alquimia e cabala darão o tom imagético do livro. Abaixo, as primeiras páginas já diagramadas:
As recompensas
O foco central de nossa campanha será a edição, o mais primorosa possível, de Ritual, oferecendo aos nossos leitores uma requintada experiência de leitura, garantida pelo menor trabalho possível em termos de tradução, revisão, edição e impressão.
Contudo, aos apoiadores que tiverem interesse nos resultados de nosso delicado e trabalhoso ofício de ourivesaria editorial, ofereceremos nas recompensas adicionais certos materiais já publicados por nós, mas que se encontram, no momento, esgotados. Teremos assim, três pequenas narrativas tratando de outros tipos específicos de rituais relacionados às cidades/metrópoles e ao espírito do artista — todas elas em edições originais, acompanhadas de traduções: Grandville de Rubén Darío e A Cidade que Derrotou o Mar, de Antonio de Hoyos i Vinent.
Sobre os autores
Realizamos alguns vídeos recentemente, abordando as técnicas, estratégias e procedimentos de cada um dos três autores deste volume na série de vídeos Biblioteca Submersa. Os inks desses vídeos seguem abaixo:
Forrest Aguirre.
Damian Murphy.
Colin Insole.
Sobre os tradutores
Alcebiades Diniz Miguel é professor, tradutor, pesquisador e escritor, tendo por especialidade as narrativas, a criação de histórias, o registro de universos fantásticos no papel. Bacharel em linguística pela USP, realizou mestrado, doutorado e pós-doutorado na Unicamp, tendo, nesse percurso, passado por um estágio de pesquisa na Brunel University e na British Library (Londres). Realizou traduções para as editoras Sol Negro, Carambaia e Perspectiva, de autores como H. G. Wells, Dolfi Trost, Nathanael West e Thomas de Quincey.
Fábio Waki é Bacharel em Estudos Literários (2012) e Mestre em Linguística/Estudos Clássicos (2015) pela Universidade Estadual de Campinas e estudante de doutorado em Materialidades da Literatura (2016) na Universidade de Coimbra. Foi pesquisador visitante nos Departamentos de Inglês da King’s College London (2015) e da Universidade de Estocolmo (2018) e na Biblioteca Nacional da Suécia (2018). É especialista em Literatura Clássica e Literatura Inglesa, bem como em Crítica Criativa e Investigação Artística Literária.
Sobre a editora
Nos últimos anos, a Raphus Press dedicou-se a lançar obras únicas tanto em termos de forma quanto de conteúdo. São edições breves, cuja extinção, por assim dizer, é rápida – ou seja, logo ficam fora de catálogo e como não costumamos fazer reimpressões, deixam seus vestígios no mundo real e virtual. Por isso nossos livros são únicos, artesanais, com elementos formais diferenciados que buscam tornar a experiência de leitura única. Já no quesito conteúdo, nosso foco sempre foi um certo tipo de ficção fantástica experimental, brutal e feroz que ganhou diversas denominações – neodecadentismo, Ficção Hiperimaginativa (FHi), etc. Por conta da natureza do material em si e das editoras obscuras aos quais esse tipo de criação está vinculado, seus autores, advindos das mais diversas e remotas paragens (incluindo Israel, Groelândia, Dinamarca...) optaram por utilizar o inglês como língua franca em seus manuscritos.
A Raphus publicou seus livros exclusivamente em inglês por algum tempo, mas chegou o momento de trazer para o leitor brasileiro toda a riqueza dessas novas tendências do fantástico, da ficção terrorífica e da literatura especulativa em português! Nesse sentido, e dando continuidade ao projeto que iniciamos com a campanha bem-sucedida de O Baluarte Tomado, narrativa visionária de Damian Murphy, seguida pela campanha para lançamento das inovadoras visões poéticas e narrativas em Cartes de Visite, de Mark Valentine e Dádiva, de D P. Watt, depois a prosa tensa de Justin Isis em A Neve e a poesia solar de Jonathan Wood em Dias de Sol. Já em 2020 tivemos a narrativa de uma outra Europa escrita por Mark Valentine e John Howard, Restos de Sombra, além da ficção especulativa extremamente densa de Brian Evenson com Mater. Um de nossos últimos projetos: a poesia de horror cósmico, através de seu expoente atual mais importante, Wade German, com seu Incantations/Sortilégios.
Orçamento
O gráfico abaixo indica as despesas que o projeto terá em termos objetivos, tendo em vista todo o processo desde a tradução ao estabelecimento do layout.











