Apresentação
O fantástico, em literatura, parece ter uma atração peculiar pelo formato curto – o conto, a novela e a novela breve ou novelette – desde seus primórdios, com a ficção gótica e talvez mesmo antes, quando as pessoas se reuniam em torno de uma fogueira para ouvir um causo, uma história vívida de assombrações e outros seres e situações espantosas.
Assim, resgatando e prosseguindo no seio dessa tradição de maravilhamento e terror, a Raphus Press apresenta aos seus leitores, ávidos de estranheza e de novas descobertas, uma coletânea contendo três novelas breves de três dos maiores ficcionista de Weird, terror e fantástico em atividade: O Novo Destino de Jonathan Wood, A Dança de Abraxas de Benjamin Tweddell e Uma Visão Fatal de John Howard.
A forma e o uso da novela
O formato de narrativa breve sempre foi o preferido dos autores de ficção fantástica. Contos, novelas e novelettes – um formato ainda mais breve que a novela, mas não tanto quanto um conto – oferecem maior intensidade por conta de sua menor extensão, além de possibilidades estilísticas complexas relacionadas à construção do suspense e da forma dos personagens apreenderem o mundo. Se o romance longo oferece possibilidades de estudo de personagens e aprofundamento de painéis históricos e psicológicos, as formas breves possibilitam um impacto magnífico, o estremecimento do terror, a percepção de possibilidades de outras interações encobertas por uma realidade formulaica – sensações impossíveis de serem evocadas em tramas muito extensas. Grandes autores do gênero fantástico – depois, do terror, Weird, etc. – optaram pela forma breve sempre que possível ou exclusivamente: de Edgar Allan Poe a Guy de Maupassant, de Henry James a Franz Kafka, de H. P. Lovecraft a Jorge Luis Borges.
Nos últimos anos, já no século XXI, novos autores surgiram na paisagem da narrativa fantástica, buscando renovas as formas breves de narrativa. Esses autores também são editores, livreiros, pesquisadores aglutinados em torno de publicações como a revista Wormwood, publicada pela Tartarus Press – gente dos livros, como se diz. Todos eles organizam-se e publicam nos cenáculos erigidos por editoras independentes como Mount Abraxas, Zagava, Egaeus, Swan River ou a nossa Raphus Press. Trazemos, portanto, ao leitor esse material fresco e complexo, escrito por autores menos conhecidos mas plenamente comprometidos com essa forma por excelência da literatura fantástica. E o fazemos reativando a noção do almanaque e buscando, na medida do possível, evocar a beleza das edições originais dessas três obras.
Um almanaque de narrativas fantásticas
O almanaque, no dicionário, costuma ser definido como uma publicação periódica (originalmente anual) que reúne calendário com datas das principais efemérides astronómicas como os solstícios e as fases lunares, ou eventualmente englobando outras informações com atualizações periódicas específicas dentro de diferentes ramos do conhecimento. Pois a Raphus Press inaugura aqui sua própria versão, seu almanaque ficcional, que será lançado semestralmente, trazendo algumas das melhores novelas e novelettes produzidas nos últimos anos, nos círculos mais esotéricos do fantástico, exclusivamente para nossos leitores. Em edições que deverão fazer jus às publicações originais, extremamente belas. Abaixo, as páginas de rosto de The New Fate e The Dance of Abraxas.
As três temas breves escolhidas enfaixam uma noção de gravidade da ação humana em condições históricas terríveis – notadamente, as três narrativas ocorrem nas vésperas da Segunda Guerra Mundial. A luta entre destino individual e imposições políticas e sociais, entre crueldade voluntária e a necessidade de sobrevivência, entre a busca por uma redenção difícil e a abjeção mais terrível formam a base de um amplo entendimento de "Destino", que figura aqui em três diferentes abordagens. A opção pelo almanaque, por outro lado, facilita ao leitor brasileiro o contato com essa curiosa forma de criação literária que deliberadamente evita as luzes da ribalta editorial – os blurbs, os resumos, as biografias na orelha do livro, os resumos. Tanto os autores quanto editores querem que o foco seja na descoberta do livro, recuperando algo da experiência com livros que existia no passado, em que o mercado editorial também dependia da curiosidade exploratória dos leitores e menos de resenhas em mecanismos de busca e marketplaces virtuais.
O Novo Destino (originalmente The New Fate) é uma novelette escrita por Jonathan Wood e publicada no ano 2013 pela Exposition Internationale, um dos heterônimos da editora Mount Abraxas da Romênia. Trata-se de uma narrativa extremamente complexa, quase barroca, em camadas de comentário e ficção que vão sendo tecidas em torno de uma originalíssima abordagem do duplo no contexto da Alemanha nazista.
A Dança de Abraxas (originalmente The Dance of Abraxas), de Benjamin Tweddell foi originalmente publicado pela Mount Abraxas em 2018. O universo aqui retratado é o do exílio – situado no ominoso, pleno de presságios, intervalo entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. A riqueza cultural desse intervalo é evocada com destreza, bem como suas intrincadas ameaças.
Uma Visão Fatal (originalmente A Fatal Vision), por fim, é uma novelette escrita por John Howard e publicada originalmente na coletânea do autor Cities and Thrones and Powers (2013), por mais um heterônimo da Mount Abraxas, dessa vez "Les Editions de l'Oubli". Depois foi relançado pela Egaeus Press em outra coletânea do autor, The Voice of the Air (2020). Trata-se de uma bela, quase poética homenagem – cujo cenário é uma fictícia cidade na Romênia – aos movimentos e arquitetos vanguardistas surgidos desde os anos 1920, que ofereciam, em suas construções de aço, concreto e vidro, utopias palpáveis e elegias ao passado.
O livro
Como em nosso livro anterior, Crias de Hypnos, de Wade German, optamos por um formato de álbum, amplo, luxuriante, para tomar para si um bom nicho de qualquer estante: 20 x 25 cm, capa dura, guardas coloridas (desta vez, em cor preta), papel pólen de 90 gr. A extensão de Destino será de 100 páginas, aproximadamente. A depender daquilo que obtivermos durante esta campanha, as ilustrações internas poderão inclusive ser coloridas.
A capa de Destino, Tomo I do almanaque semestral Narrativas Angustiantes.
Tendo em vista a beleza das edições originais e a densidade do tema de nosso almanaque ficcional, optamos por ilustrações internas que dialogam com a noção de "destino", conforme trabalhada pelos autores – assim, eventos cósmicos ominosos e plenos de significação (como o eclipse lunar ou solar) e paisagens sombrias e desoladas – espirituais ou concretas – darão o tom imagético do livro. Abaixo, as primeiras páginas já diagramadas:

Como usual da Raphus Press, trata-se de uma edição limitada e numerada.
As recompensas
O foco central de nossa campanha será a edição, o mais primorosa possível, de Destino, oferecendo aos nossos leitores uma requintada experiência de leitura, garantida pelo menor trabalho possível em termos de tradução, revisão, edição e impressão. Contudo, aos interessados, ofereceremos nas recompensas alguns dos livros que já publicamos de dois dos três autores de nosso almanaque ficcional (Ben Tweddell publicou exclusivamente pela Mount Abraxas e esta deverá ser sua primeira publicação fora da venerável editora romena). Assim, os leitores poderão conhecer a obra poética de Jonathan Wood adquirindo as recompensas que incluem Dias de Sol, seu volume de poesia bilingue (português e inglês) ou a narrativa utópica, de bela sensibilidade homossexual, Além-Mar, de John Howard.
Capa de Dias de Sol, de Jonathan Wood.
Capa de Além-Mar, de John Howard.
Sobre os tradutores
Alcebiades Diniz Miguel é professor, tradutor, pesquisador e escritor, tendo por especialidade as narrativas, a criação de histórias, o registro de universos fantásticos no papel. Bacharel em linguística pela USP, realizou mestrado, doutorado e pós-doutorado na Unicamp, tendo, nesse percurso, passado por um estágio de pesquisa na Brunel University e na British Library (Londres). Realizou traduções para as editoras Sol Negro, Carambaia e Perspectiva, de autores como H. G. Wells, Dolfi Trost, Nathanael West e Thomas de Quincey.
Fábio Waki é Bacharel em Estudos Literários (2012) e Mestre em Linguística/Estudos Clássicos (2015) pela Universidade Estadual de Campinas e estudante de doutorado em Materialidades da Literatura (2016) na Universidade de Coimbra. Foi pesquisador visitante nos Departamentos de Inglês da King’s College London (2015) e da Universidade de Estocolmo (2018) e na Biblioteca Nacional da Suécia (2018). É especialista em Literatura Clássica e Literatura Inglesa, bem como em Crítica Criativa e Investigação Artística Literária.
Sobre a editora
Nos últimos anos, a Raphus Press dedicou-se a lançar obras únicas tanto em termos de forma quanto de conteúdo. São edições breves, cuja extinção, por assim dizer, é rápida – ou seja, logo ficam fora de catálogo e como não costumamos fazer reimpressões, deixam seus vestígios no mundo real e virtual. Por isso nossos livros são únicos, artesanais, com elementos formais diferenciados que buscam tornar a experiência de leitura única. Já no quesito conteúdo, nosso foco sempre foi um certo tipo de ficção fantástica experimental, brutal e feroz que ganhou diversas denominações – neodecadentismo, Ficção Hiperimaginativa (FHi), etc. Por conta da natureza do material em si e das editoras obscuras aos quais esse tipo de criação está vinculado, seus autores, advindos das mais diversas e remotas paragens (incluindo Israel, Groelândia, Dinamarca...) optaram por utilizar o inglês como língua franca em seus manuscritos.
A Raphus publicou seus livros exclusivamente em inglês por algum tempo, mas chegou o momento de trazer para o leitor brasileiro toda a riqueza dessas novas tendências do fantástico, da ficção terrorífica e da literatura especulativa em português! Nesse sentido, e dando continuidade ao projeto que iniciamos com a campanha bem-sucedida de O Baluarte Tomado, narrativa visionária de Damian Murphy, seguida pela campanha para lançamento das inovadoras visões poéticas e narrativas em Cartes de Visite, de Mark Valentine e Dádiva, de D P. Watt, depois a prosa tensa de Justin Isis em A Neve e a poesia solar de Jonathan Wood em Dias de Sol. Já em 2020 tivemos a narrativa de uma outra Europa escrita por Mark Valentine e John Howard, Restos de Sombra, além da ficção especulativa extremamente densa de Brian Evenson com Mater. Um de nossos últimos projetos: a poesia de horror cósmico, através de seu expoente atual mais importante, Wade German, com seu Incantations/Sortilégios.







