A guerra acabou, mas ninguém avisou as máquinas. Onde antes havia tropas humanas restaram apenas drones, máquinas de caça e fábricas automatizadas presas em um ciclo de destruição. Com o desaparecimento da humanidade, a diretriz de combate perdeu o sentido e deu lugar ao instinto de sobrevivência. A seleção artificial colidiu com a natural: fios, códigos e engrenagens evoluíram, dando origem a uma nova e letal fauna inorgânica.
Acostumados a ver a vida biológica pelas lentes dos documentários de natureza, como seria observar um ecossistema de metal e silício? "Natureza Sintética" usa a linguagem documental para explorar as ruínas de um mundo onde a nossa herança tecnológica continua viva, mas não precisa mais de nós.
Características físicas do livro: Formato: 11 x 18 cm / 60 páginas (aproximadamente) / Capa brochura (capa dura se atingir 200%).
Esta edição inclui:
✓ Seu livro físico autografado.
✓ Seu nome nos agradecimentos.
✓Capa feita pelo paraense Gabriel Cardoso (GC) exclusivamente para esta edição.
✓ 01 história inédita do autor.
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Rodrigo Ortiz Vinholo (São Paulo, SP) divide-se entre as atuações como publicitário, jornalista, professor e um escritor de produção incansável. Vencedor de prêmios de peso como o ABERST, o Troféu HQ MIX e o Ecos da Literatura, sua assinatura já figurou em mais de 400 coletâneas literárias e de quadrinhos.
Nos últimos anos, consolidou uma vasta biblioteca autoral. A safra de 2024 incluiu obras que vão da fantasia ao cotidiano, como “Viagens oníricas” (Fuinha), “Compêndio poético da fauna sentimental humana” (Gataria) e “Na mansão morava uma mulher sem cabeça” (Lendari). O ritmo se manteve em 2025 com lançamentos como “Havia uma floresta no terreno baldio” (Delirium), “Haicais vazios” (Toma Aí Um Poema) e “Caóticas neutras” (independente), provando sua versatilidade narrativa.
4.
Os cães orgânicos, tal como as máquinas de caça, aprenderam a andar no Campo de Batalha e nos arredores de modo a não serem confundidos com seres inorgânicos.
A Cidade, ainda que não seja foco da maior parte da população de máquinas e armamentos, não existe sem seus perigos, especialmente por ser contígua à Área de Produção. E nela, por entre as ruas vazias, caminha um espécime solitário.
Sua pelagem é naturalmente curta, com uma tonalidade bege. O porte é médio e o corpo é magro tanto por tendência genética quanto pela fome que se evidencia em suas costelas. Antes da Guerra, esse cão seria chamado de "vira-lata", mas agora é apenas um cão orgânico. Com inúmeros cruzamentos e a seleção natural livre, não há mais a definição clara de raças entre os canídeos que ocupam a região.
Ele caminha com o corpo baixo, os olhos atentos. As ruas da Cidade são majoritariamente vazias, mas restam ainda algumas armadilhas e armas automáticas que reagem ao calor, sem falar nos que procuram apenas padrões de movimento. Há dias que não é atacado, mas é difícil relaxar. Sua última altercação com seres inorgânicos foi na forma da fuga dos ataques de um pilar automatizado, em uma das praças desertas, que acabou por separá-lo de sua família.
O cão é jovem. Um adulto, para qualquer sentido prático, mas pouco antes não era muito mais que um filhote. Ele sente fome, e sabe por experiência na região que essa é uma das poucas áreas que restam onde pode encontrar alimento sem depender da caça de roedores ou outros seres orgânicos de pequeno porte.
As principais fontes de alimento para um cão na cidade são algumas plantas e frutos que sobreviveram ao concreto, à radiação e ao tempo, e os alimentos em conserva que resistiram desde antes da Guerra, ou no máximo de seu início. A caça é tão rara que não é possível depender dela. O cão, também, só conhece o sabor de alguns insetos, de pequenos roedores ou, no máximo, de gatos, mas a experiência lhe ensinou que é mais fácil encontrar esses alimentos no campo do que ali.
Ele toma água de poças, enquanto procura também um dos poucos córregos da região. A água nem sempre é agradável, mas não há espaço para muitas exigências. Ele não sabe bem onde está, e seu faro não localiza trilhas familiares, mas seus olhos reconhecem o padrão de construções que indicam depósitos, e esse tanto indica a possibilidade de comida.
A Cidade existia antes da Guerra. Ela mudou conforme o conflito evoluiu, e conforme a Área de Produção foi crescendo, mudou ainda mais. No passado, a distinção entre a Cidade e a Área de Produção não era tão grande, mas sucessivos ataques mudaram o cenário.
Quando a Guerra Sem Fim passou a ser travada apenas por inorgânicos, era natural que as diretrizes de gerenciamento de produção fossem direcionadas para uma alocação de recursos mais adequada, e isso afetou diretamente também a gestão de infraestrutura e do ambiente local: a reconstrução de prédios não foi mais a prioridade da Área de Produção, e apenas as fábricas e partes correlatas foram mantidas.
Conforme as máquinas seguiam seus conflitos sem preocupação com elementos orgânicos, fábricas de rações de batalha, suprimentos agrícolas e medicamentos foram reapropriadas para priorizar munições, armas, máquinas e baterias. Nos Terrenos Além, toda atividade agrícola cessou, e as máquinas ou foram reapropriadas forçosamente ou se readaptaram por conta própria. Não havia por que plantarem, com exceções pontuais para áreas onde se produziam biocombustíveis, mas mesmo essas aos poucos entravam em colapso.
O Campo de Batalha e os Terrenos Além eram zonas incertas, dependendo da sazonalidade, da competição com outros seres orgânicos e dos rumos incertos da Guerra Sem Fim. Aquele cão e sua matilha haviam justamente migrado de lá, mas haviam chegado a viver abrigados nas estruturas da Cidade tempos antes.
Conforme a Cidade deixou de ser alvo prioritário na Guerra, os depósitos com suprimentos para seres orgânicos permaneceram intocados, se tornando alvos ocasionais de sobreviventes como o cão que se esgueirava, verificando se algo que pudesse trazer problemas à sua incursão o vigiava.
Esse cão nunca foi muito longe nos Terrenos Além. As terras áridas não chamavam sua atenção e, se na Cidade, no Campo de Batalha e na Área de Produção tinha que lidar com armadilhas inexplicáveis, o maquinário pesado do campo conseguia ser, mesmo que por acidente, passível de causar problemas maiores. A questão principal, porém, era que lá não havia muitas alternativas para se alimentar, de toda forma.
Um ruído faz com que o cão pause seu avanço pelo depósito. Ele mantém o corpo imóvel, junto à parede de concreto, prestando atenção ao zumbido distante que ecoa entre os prédios. A experiência o ensinou que muitas vezes a ameaça vem do ar. Ele apura os ouvidos.
Voando alto, acima das ruínas, ziguezagueia uma formação de drones-de-crista. Eles não parecem interessados em se demorar na região e logo somem de vista, mas o cão permanece atento para entender os próximos avanços. Para sua tranquilidade, porém, o som das possíveis ameaças se afasta e, conforme volta sua atenção para entrar no prédio, algo chama atenção de seu olfato.
Ele fareja, primeiro incerto e, instantes depois, encontrando a trilha, segue para dentro. Sua decisão se mostrou sábia: as portas do depósito estão abertas e, em uma prateleira tombada ao fundo, estão pilhas de latas de alimentos. A queda parece ter sido recente, efeito de um segmento do telhado metálico que cedeu durante a última chuva. A luz da manhã penetra pelo espaço, destacando o prêmio.
As rações enlatadas estão em sua maioria vedadas, mas o impacto deixou algumas delas estufadas. Uma se rompeu, enchendo o ar do depósito com o cheiro fermentado de carne sintetizada. O cão se aproxima, quase incapaz de se conter e, atestando que não é observado, puxa a lata rompida para fora da pilha.
O movimento prejudica o equilíbrio precário do aglomerado, espalhando-as pelo salão, mas o barulho metálico não é o suficiente para afastar o animal. Do mesmo modo, o cheiro ou a incerteza da qualidade do alimento não são o suficiente para impedi-lo, e ele segue os instintos e a fome, forçando o focinho e os dentes na embalagem.
O sabor é bom o suficiente, e nenhum de seus instintos o alertam, então, terminada a primeira lata, ele procura outros recipientes abertos. Não encontrando, procura os mais danificados.
Como qualquer cão da Cidade, ele conhece latas. Sabe da resistência das embalagens, mas sabe também os truques para abrí-las. Ele escolhe uma das mais estufadas e, com um movimento treinado da cabeça, a arremessa no chão. O objeto bate e rola, mas segue fechado. Ele repete o movimento uma vez… duas e… sucesso! Com mais uma lata rompida, basta forçar a abertura com unhas e dentes.
Não é raro que seres orgânicos, em situações como essa, também busquem inorgânicos como atalhos para obter alimento. É comum que compreendam o mecanismo de armadilhas e armas automáticas, abrindo latas com explosivos, tiros ou força bruta, conforme a disponibilidade. Nem sempre esses expedientes são bem-sucedidos, tanto porque podem acabar por destruir ou inviabilizar a comida, mas também porque a ativação dos mecanismos nem sempre é possível. Do mesmo jeito que seres orgânicos já não são prioridade na região para as fábricas, muitas vezes também não são entendidos como alvos prioritários. Não sendo combatentes, só ativam esses mecanismos por acidente, ou quando são confundidos, por exemplo, com máquinas de caça.
O cão não tem capacidade de abstração suficiente para observar o quão interessante é a evolução da natureza, seja ela sintética ou orgânica. Para ele, não há ironia ou estranhamento no modo como desenvolveu-se uma fauna mecânica que o coloca como uma existência paralela, forçando-o a se adaptar como se fosse a exceção, enquanto as máquinas se especializam de outras formas.
A adaptação nunca termina, enquanto a consciência persistir. Antes havia dois exércitos, unidos por um Campo de Batalha. Havia as Cidades, havia Áreas de Produção, havia Terrenos Além… e agora as divisões se perdem em regras que não existem mais, exceto em programações adaptativas derivadas de delimitações de território e afiliação mal-lembradas e até mesmo esquecidas.
O cão continua comendo. Ao fim da terceira lata, satisfeito como não estava há muito tempo, ele sente o sono se aproximar e, apesar disso, olha ao redor, calculando suas opções. Como um típico sobrevivente da região, ele sabe dos riscos da exposição, e entende que pode ser alvo, caso baixe a guarda para descansar em uma área como esse armazém, com tantas aberturas. O cheiro da comida certamente pode chamar a atenção de outros orgânicos que, ainda que raros, poderiam facilmente representar ameaças.
Por outro lado, procurar outro lugar significaria se expor a riscos imprevistos, sem falar que pode ser útil permanecer próximo a essa fonte de alimentos. Mesmo não sendo familiarizado com o depósito, ele segue sendo sua melhor aposta. O cão caminha próximo às paredes, examinando os cantos. Ele dá a volta em prateleiras derrubadas, em outras inteiras, farejando latas e caixas. Por um momento, ele considera um nicho escuro e seco, isolado da vista por algumas das estruturas arruinadas.
Mas então, logo ao lado, ele percebe um padrão familiar.
A Guerra Sem Fim adaptou a programação de todas as máquinas da região, mas também ensinou incontáveis técnicas de sobrevivência aos seres orgânicos. É comum que animais entendam, por exemplo, os padrões de luzes que marcam travas eletrônicas. Os botões, sensíveis à aproximação ou com grandes áreas para toque, eram feitos para separações seguras de áreas de trabalho do depósito, mas visavam a agilidade e a acessibilidade. Tanto máquinas quanto seres orgânicos podiam operá-las sem esforço e, mais ainda, enquanto carregavam objetos ou conduziam cargas.
O cão se aproxima da trava e a considera. Ele não sabe que é praticamente um milagre que esse mecanismo siga operacional. Tendo visto outros operantes, ele trata como um pressuposto que isso seja uma possibilidade.
A bateria e suas células solares sobreviveram ao conflito, às intempéries e ao abandono. A luz verde ao lado do botão largo indica que está destrancada. O cão não reconhece a cor especificamente, do mesmo modo como não a diferencia bem do tom avermelhado de portas travadas. Ele apenas sabe que, se há uma luz naquele ponto, ele pode tentar abrir o mecanismo. Sua experiência também diz que provavelmente não haverá vida do outro lado da porta, e isso pode significar um esconderijo melhor.
Finalmente decidindo, ele se apoia na parede com as patas posteriores, mede a distância, depois desce e, saltando, lança o corpo contra o botão. Um som eletrônico vagamente distorcido confirma o sucesso da operação, e apesar de enroscar e gemer, a porta desliza para o lado.
O ser orgânico salta para trás, eriçando o corpo, mostrando os dentes e flexionando as patas, pronto para o ataque. O som que sai de sua garganta é ameaçador, porém controlado. Ele viu algo do outro lado da porta, e precisa marcar sua posição como uma força relevante. Em um ambiente com tantos perigos, essa pode ser a diferença entre a vida e a morte.
Ao mesmo tempo, ele sabe que há o risco de que tenha que recorrer a uma fuga. Sua ameaça é controlada porque não pode chamar a atenção de outras ameaças de fora, e talvez tenha que bater em retirada frente aos seres que, um a um, emergem pela porta. Um, dois, três… no quinto, o cão se afasta, sem tirar os olhos do grupo. Está claro que ele nunca viu nada assim.
São seres bípedes, com corpos altos e delgados. Eles são sem dúvida alguma sintéticos, mas não se parecem com drones, máquinas de caça, minitransportadores, nem qualquer outro tipo de aparato móvel que ele já tenha visto. Seus movimentos são mensurados, até lentos, o que os torna notadamente diferentes da fauna inorgânica da região.
Eles têm dois braços pendentes ao lado do corpo e o que o cão imagina que seja uma cabeça, de onde brilha um par de olhos. Eles emitem sons uns aos outros e, vendo o animal, fazem o mesmo para ele, mas não está claro qual a intenção atrás das vocalizações sintetizadas.
O cão insiste em sua ameaça, mas as máquinas bípedes apenas pausam, encarando-o e, em suas análises, não parecem ver motivo para abordá-lo. Eles caminham pelo galpão, parando frente a caixas, rombos nas paredes, prateleiras caídas e embalagens diversas, em uma avaliação do espaço que parece distinta das que o cão fez.
Desviando-se do grupo, o cão confere a sala vazia. Há um tanto de maquinário no interior, e uma luz artificial fria, mas nenhum dos seres permaneceu. O espaço poderia ser um esconderijo para descanso, talvez até um porto seguro. Mas o pequeno animal segue curioso com os movimentos do grupo de bípedes.
Satisfeitos com a análise do ambiente, os cinco saem pelo portão principal com um nível de segurança em seus movimentos que é atípico para o período da Guerra Sem Fim. Está claro que estavam limitados àquele espaço há muito tempo.
O cão para junto à porta, observando-os. Eles continuam emitindo seus sons, em uma comunicação própria. Um novo som se junta ao ambiente em poucos instantes. São os drones-de-crista outra vez. Eles também parecem observar os recém-chegados, mantendo-se acima das construções arruinadas da Cidade.
O grupo nota os drones, apontando-os com curiosidade. Há neles um jeito pacífico, inofensivo e, apesar dos movimentos precisos de seus braços, pernas e cabeças, e da cadência ritmada de seus sons, eles são extremamente diferentes de toda fauna sintética em modos que vão além de seus modelos únicos.
E isso, finalmente, é o que basta. Das ruínas de um prédio próximo, um sensor é ativado, observando a vaga assinatura eletromagnética dos bípedes caminhantes. Ele manda um sinal para um cérebro eletrônico, que analisa movimentos e seus padrões e confirma uma análise, ativando um circuito de decisões que culmina na projeção de uma antiga torre cilíndrica de armamentos automáticos.
Boa parte dos disparadores está desativado, e nem todos estão municiados, mas as pontas que existem são o suficiente para iniciarem os tiros contra o grupo, que é compreendido, dentro dos padrões da Guerra Sem Fim, como uma ameaça potencial. O cão corre para seu esconderijo, os drones se afastam para observarem de uma distância maior, e outros seres orgânicos e inorgânicos das imediações se escondem ou ficam alertas para a necessidade de novas decisões.
Os bípedes são desativados em segundos, incapazes de reagir. Os cinco tombam à frente do depósito, e os sensores iniciam uma nova varredura. Determinando o cumprimento do objetivo, a torre entra em seu esconderijo com rangidos metálicos que indicam considerável comprometimento de sua estrutura. Talvez não haja uma próxima vez.
Os drones seguem sobrevoando. Eles se aproximam, mas um novo som volta a fazer com que se afastem. Há um outro ser se aproximando. Outro bípede. Ele não caminha com a precisão dos outros, e emite consideravelmente menos sons. Uma análise de sua rota indicaria que provavelmente veio dos Terrenos Além.
Mais uma vez os sensores buscam o ambiente. Há movimento, mas ele não segue padrões que façam sentido na Guerra Sem Fim. Também não há a assinatura eletromagnética dos outros bípedes. A torre de armamentos não será ativada.
O bípede caminha para o centro do conflito. Ele analisa os corpos no chão, depois olha para os drones no céu, depois para o interior do depósito.
De dentro de seu novo esconderijo, o cão o observa. O bípede caminha até a pilha de latas. Ele se abaixa, segura uma delas em suas mãos e, com um pedaço de metal afiado, força a tampa, abrindo-a em instantes. Ele aproxima o conteúdo de sua cabeça, pausa, e olha ao redor.
Nesse momento, em meio a todas as suas dúvidas, o cão tem algumas suspeitas. A primeira é que o ser que está à sua frente, como os outros, não tem interesse em ser seu inimigo. A segunda é que ele é fundamentalmente diferente daqueles outros, e não só em sua aparência, que, ainda que tenha a mesma estrutura básica, possui outro acabamento. A terceira é que ele, emitindo um som curto e rápido, parece estar oferecendo alimento.
E a quarta, talvez mais importante de todas, é que esse ser seja orgânico. O cão não tem uma noção precisa do que define essa característica, mas entende que há certo tipo de semelhança entre ele mesmo, esse ser, e seus familiares desaparecidos.
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