Apresentação: o primeiro crime
O jovem escritor Thassio Rodriguez Capranera dispensa apresentações excessivamente formais: jovem editor, tradutor — tendo já trabalhado com autores como Arthur Machen, Patrick Mallet, Leopoldo Lugones e Lafcadio Hearn — e escritor, tendo em seu currículo contos publicados pela editora Diário Macabro, Nephelibata e, pela Raphus Press, o volume de contos decadentes Ruínas Futuras, em que suas poderosas narrativas apresentam um universo ao mesmo tempo familiar e em pleno processo de desagregação. E agora, nós da Raphus Press orgulhosamente apresentamos seu projeto mais ambicioso: a série de novelas Crimes de São Paulo, uma expansão do universo decadente que se projeta nas intensas e eventualmente putrefatas paisagens urbanas da capital paulista. O primeiro elemento desse intrincado mosaico leva o belo título de O Palacete das Romãs, e será detalhado a seguir
Primeiro momento: a cor vermelha das romãs
Assim, Crimes em São Paulo se inicia com essa explosão em câmera lenta de uma aquarela avermelhada, sangrenta, que é O Palacete das Romãs.
Rasgando a noite cintilante de amarelo e preto-ferro da Decadente Paulicéia, dois rapazes com pouco ou nenhum peso no coração que os obrigue a refletir sobre o próximo passo, enroscam-se nos galhos cinzentos que as árvores de concreto e alvenaria metropolitanos esticam como braços convulsos. Qualquer mistério lhes é interessante, qualquer enigma, decifrável; para Torquato e Josefo, desvendar as sendas da realidade brumosa na qual vivem é uma maneira de caçoar, com os egos flutuando alto, do passado carola e monofônico dos tempos de seminário.
O tédio é uma fagulha aos corações voláteis, a imaginação, o vento forte que alastra esse fogo e o faz dominar a matéria ao seu redor.
Repletos desse sentimento, esses dois colegas — inflamados pela vibração etérea da carnágia e da trepação — varam a noite paulista em busca do crime perfeito, da inspiração moderna do homem que conta o que imagina, para então buscar viver o que conta.
Provocando os embates da noite, com seus facínoras, charlatões, priapistas e salomés, os personagens dessa narrativa contada pela perspectiva de Torquato, um dramaturgo engessado pelas formas clássicas, deparam-se, num dado momento, com um lugar, um palacete vermelho, onde os limites do pecado original são atravessados de maneira inconsequente por homens que buscam empanturrar-se com os frutos da árvore proibida, propositalmente, diante de Deus.
Trecho da narrativa
"No buraco detestável chamado A sereia, onde Josefo me meteu, eu bebia como um desses estivadores do porto de Santos; esses mesmos que, não encontrando outra alternativa para o tédio de sua rotina, enfiam-se em qualquer baiuca ao final de cada expediente para gastar metade do soldo diário em doses de cachaça e apostar dados contra a sífilis.
Todo tipo de facínora habitava aquele lugar que, a meus olhos, parecia mesmo como os fundos — não o interior, mas os fundos —, da taverna onde Marlowe e sua trupe de dramaturgos espavoniados beberam antes de algum assassino enterrar sua adaga nas costas do jovem autor boca-aberta. O cheiro ali era de estrume de cavalo seco e fermento para pão, mas não havia pão… o mesmo, infelizmente, não poderia dizer do estrume de cavalo; cavalo?
Não para meu estranhamento, Josefo mostrou-se muito à vontade naquele lugar habitado por homens e mulheres de sombra. Não que os homens e mulheres naquela cópia sujismunda do L’enfer fossem de fato amigáveis, ou minimamente tivessem rostos convidativos, não. Era uma gente suja de vagabundice e pilantragem, um antro de vadios, de cultivadores dos hábitos ruins e viciosos."
O livro
Fisicamente, O Palacete das Romãs foi projetado para ser imponente como o tipo de edifício aludido em seu título. Com 17 cm de largura por 24 cm de altura, capa dura um formato mais alto e mais largo que o usual, permite que texto e imagens coloridas (fotografias sugestivas dos temas e tramas da narrativa) surjam diante do leitor como uma espécie de avatar do cinema, de tela branca para a projeção cinematográfica do leitor.
A capa terá projeto gráfico de Pedro Andrade, que desenvolveu um design único para as capas a partir das fotografias de Tiago Jonas, que captou com sutileza e brutalidade certas nuances da cidade de São Paulo — uma percepção essencial para ilustrar o texto pulsante de Thassio.

O livro terá pouco mais de 110 páginas, impressão em papel Pólen Bold de 90g, ilustrado por fotografias coloridas. O livro contará com prefácio do premiadíssimo Oscar Nestarez, um dos grandes demiurgos do terror nacional, e posfácio do editor, Alcebiades Diniz Miguel, estudos revelando as fontes da decadência desta espantosa narrativa.
Outras recompensas
O universo de Crimes de São Paulo é intrincado, labiríntico e sufocante, pleno de figuras únicas, marginais sinistros e elementos de pura decadência explodindo no tecido urbano da metrópole paulista. Assim, cada uma das campanhas dessa série terá recompensas mais ou menos conectadas a esse universo. Serão numerosas, no caso específico de O Palacete das Romãs, a saber:
- O livro O Palacete das Romãs, descrito no tópico anterior;
- O livro em capa dura As Ruínas Futuras, de Thassio Rodriguez Capranera, com seus contos apresentando o cinismo e a decadência paulistana desde outra perspectiva.
- Duas concertinas com personagens e situações próximas às descritas em O Palacete das Romãs e de sugestivo título: As Mós da Carne e O Par de Sapatos.


- Um ex-voto (esse formato que a Raphus desenvolve junto ao estúdio Phonte88 faz algum tempo) com o poema "A Forja Carnal". Abaixo, a imagem que estará estampada nesse esse ex-voto, uma ilustração representando o sombrio cabaré parisiense L'Enfer.

- Um PDF com três contos exclusivos e inéditos, Flores de Pus. A capa dessa publicação exclusiva segue abaixo:

Consulte as recompensas, ao lado, para ver as configurações possíveis de todo esse material. Desnecessário dizer que ainda há mais, caso consigamos financiar o projeto e bater certas metas futuras.
O que foi dito sobre o autor
"Os contos de Thassio Rodriguez Capranera se passam em uma São Paulo atemporal, da qual reconhecemos apenas nomes ('Em alguns minutos estávamos de braços dados dentro de um bonde, rumo a algum buraco na morfética Penha') e seus personagens parecem ter saído de um sonho opiático decadentista." (Escritora e fotógrafa Luciana Fátima, sobre As Ruínas Futuras).
"Thassio Rodriguez é o tipo de escritor que deixa um marca "física" no leitor. Seja repulsa, ânsia, raiva, desejo, horror... não importa. De alguma forma seu corpo vai reagir ao choque mental(...)" (Ismael Chaves, autor e resenhista).
O resenhista e autor Des Lewis afirmou que Thassio, em seu conto "Dithyrambs in Ancient Cantabria", apresenta um "caldo de lascívia(...) que o leitor, com certeza, jamais esquecerá" (a resenha, completa, em inglês está disponível aqui).
Da equipe
Nascido sob o signo de Áries, Thassio Rodrìguez Capranera (autor) é tradutor, editor, designer de jogos de RPG e autor. Traduziu autores da língua inglesa, francesa e espanhola para as editoras Diário Macabro, Sebo Clepsidra, Carcosa e Raphus Press. Como editor e designer de jogos, trabalha ao lado do designer e autor Pedro Andrade no DM RPG, além de projetos pessoais. Sua principal vocação, no entanto, além de buscar na diversidade de hobbies e trabalhos a insígnia de uma vida surrealista e caleidoscópica, é escrever: publicou inúmeros contos em coletâneas, publicou seu primeiro livro de contos As Ruínas Futuras (Raphus Press 2020), e agora lança a primeira novela de sua coleção de novelas decadentistas Crimes de São Paulo. Há muito que também trabalha como dramaturgo, apesar de suas peças (essencialmente shakespeareanas) nunca terem visto a luz do dia, tampouco do palco. Além do trabalho aqui apresentado, trabalha em dezenas de outros projetos literários em diferentes estágios de composição.
Alcebiades Diniz Miguel (editor) é professor, tradutor, pesquisador e escritor, tendo por especialidade as narrativas, a criação de histórias, o registro de universos fantásticos no papel. Bacharel em linguística pela USP, realizou mestrado, doutorado e pós-doutorado na Unicamp e na USP, tendo, nesse percurso, passado por um estágios de pesquisa na Brunel University, na British Library e na Fundação Biblioteca Nacional, onde realizou minucioso trabalho analítico em torno da imprensa simbolista brasileira. Realizou traduções para diversas editoras, Sol Negro, Carambaia, Sebo Clepsidra, Pyro, Ex Machina, Novo Século e Perspectiva, de autores como Gérard de Nerval, H. G. Wells, Dolfi Trost, Nathanael West, Arthur Machen, Henry James, Robert Aickman e Thomas de Quincey. Algumas de suas pesquisas/traduções, de J. G. Ballard e Xul Solar, permanecem inéditas.
Tiago Jonas de Almeida (fotografia) (ou TW Jonas) é químico de formação. Autodidata, fotografa há 22 anos. Participou de coletivas em locais como ICBA-Instituto Cultural Brasil-Alemanha (em Salvador), nos eventos Santa Teresa de Portas Abertas e MOLA - Mostra Livre de Artes (no Rio de Janeiro) e no evento Voodoohop (em São Paulo). Publicou em 2015 algumas imagens no jornal de poesia RelevO. Em 2016, recebeu o prêmio de terceiro lugar no 7º Euroclick – Prêmio do Centro Europeu de Fotografia. Em 2017, esteve entre os 25 selecionados para a exposição #DesafioSP25 “A Cidade se transforma” na Doc Galeria. Em 2018, publicou o fotolivro Science is sexy e, em parceria com Ricardo Rodrigues, o livro de poesias e fotografias A descoberta do segundo sexo, ambos pela editora Gosto Duvidoso. Em 2019, foi um dos fundadores da editora Mocho, pela qual lançou diversos livros como editor. Criou recentemente o selo Vertigem, editora especializada em fotolivros e zines de fotografia.
Oscar Nestarez (prefácio) é escritor, tradutor e pesquisador da literatura de horror. É autor das coletâneas Sexorcista e outros relatos insólitos (Livrus, 2014) e Horror adentro (ed. Kazuá, 2016), do romance Bile negra (Pyro, 2018) — que recebeu o prêmio ABERST de melhor narrativa longa de horror — e da novela Claroscuro (Draco, 2021). Também é colunista da revista Galileu, para a qual escreve mensalmente sobre literatura de horror.
Úrsula Antunes (preparação e revisão) é preparadora de texto, revisora, redatora e contista. É formada em Letras e tem experiência com textos de não ficção e ficção, principalmente especulativa, tendo trabalhado para editoras como Wish, Sebo Clepsidra, Diário Macabro e Alpheratz.
Da editora
Nos últimos anos, a Raphus Press dedicou-se a lançar obras únicas tanto em termos de forma quanto de conteúdo. São edições breves, cuja extinção, por assim dizer, é rápida – ou seja, logo ficam fora de catálogo e como não costumamos fazer reimpressões, deixam seus vestígios no mundo real e virtual. Por isso nossos livros são únicos, artesanais, com elementos formais diferenciados que buscam tornar a experiência de leitura única. Já no quesito conteúdo, nosso foco sempre foi um certo tipo de ficção fantástica experimental, brutal e feroz que ganhou diversas denominações – neodecadentismo, Ficção Hiperimaginativa (FHi), etc. Por conta da natureza do material em si e das editoras obscuras aos quais esse tipo de criação está vinculado, seus autores, advindos das mais diversas e remotas paragens (incluindo Israel, Groelândia, Dinamarca...) optaram por utilizar o inglês como língua franca em seus manuscritos.
A Raphus publicou seus livros exclusivamente em inglês por algum tempo, mas chegou o momento de trazer para o leitor brasileiro toda a riqueza dessas novas tendências do fantástico, da ficção terrorífica e da literatura especulativa em português! Nesse sentido, e dando continuidade ao projeto que iniciamos com a campanha bem-sucedida de O Baluarte Tomado, narrativa visionária de Damian Murphy, seguida pela campanha para lançamento das inovadoras visões poéticas e narrativas em Cartes de Visite, de Mark Valentine e Dádiva, de D P. Watt, depois a prosa tensa de Justin Isis em A Neve e a poesia solar de Jonathan Wood em Dias de Sol. Já em 2020 tivemos a narrativa de uma outra Europa escrita por Mark Valentine e John Howard, Restos de Sombra, além da ficção especulativa extremamente densa de Brian Evenson com Mater. Um de nossos últimos projetos: a poesia de horror cósmico, através de seu expoente atual mais importante, Wade German, com seu Incantations/Sortilégios.













