Didi é o fogo.
Ninguém passa por ela sem se transformar.
Ela aquece, ela queima e ela muda o que está ao seu redor. É aquela primeira fagulha de coragem. Diana, ou Didi - para os mais chegados, tem a intensidade e a alegria de viver como quem brinca. O fogo que dança e cresce, que sabe o que quer, que toma seu rumo.
Didi existe como uma criança no mais puro estado de brincadeira. O sonho, o plano infalível, a confiança cega e inocente da força da natureza que sabe de si, que veio pra desmantelar o pensamento de uma via só: de que criança não tem escolha, que criança não tem querer.
Eu desenhei Didi pra ela estar sempre em movimento - sempre prestes a pular, correr, fazer alguma estripulia. Ela é a coisa mais viva nesse quadrinho. Sempre alerta, atenta e atentada também.
Aqui são alguns dos primeiros estudos que fiz:
2021
Essa versão de Didi foi desenhada no dia que eu tive a ideia principal da história. Ainda bem Marceline das ideias e sem o apelido ainda: O nome Diana veio antes, junto da aura misteriosa na música “Talismã” de Geraldo Azevedo. O traço bem característico dos meus estudos - que nessa época queriam se afastar um pouco do estilo que tinha usado em Arlindo. Depois de 2 anos desenhando do mesmo jeito, na maratona que foi a webcomic, eu queria fazer algo diferente.
2022
Essa Didi quase foi uma webcomic de 30 páginas, pros 30 dias de São João de 2022. Uma página por dia e é claro que eu percebi que era uma ideia absurda nos primeiros 5 dias e desisti. KKKK acontece. Engavetei a ideia.
2024
Em 2024 retomei o quadrinho, numa ideia mais complexa e bem estruturada - que eu pensei que teria ali suas 60 e poucas páginas. A ideia é que o desenho de Didi parecesse “vivo”, como se ela estivesse sempre em ação, um ar de movimento - mesmo parada! Fiz alguns estudos para os personagens principais, consegui fechar um bom contrato com a editora (um xêro pra Tassi, que na época era minha agente). Por conta de muitas questões na minha vida pessoal como um todo, e também porque sofri um acidente super grave, o projeto ficou parado por um bom tempo.
Até que no quadrinho, em sua versão “real oficial agora vai”, desenhado entre 2025 e 2026, entrou uma Didi um pouco diferente, mas ainda parecida com a anterior. Dessa vez, a história fechou com mais de 90 páginas.
Sessão da Tarde
Faísca é meu filme de criança na sessão da tarde. Um quadrinho pra parar uma horinha no meio do dia e se deixar encantar por uma menina curiosa e teimosa que quer explodir uma bomba, mas antes toma seu coração e só devolve depois que acaba.
Pra achar a voz dela, eu precisei pesquisar histórias sobre crianças que se alinhavam com a narrativa que eu queria construir.
TOTÓ, Cinema Paradiso (1988).
Totó ganhou meu coração desde a primeira cena de Cinema Paradiso. Assisti numa aula de Literatura Criativa que eu paguei no DEART em 2016, quando estudava na UFRN. Aquelas aulas costumavam ser chatíssimas, mas se não tivesse me inscrito pra essa cadeira optativa, dificilmente teria ouvido falar nesse filme, ou sido obrigada a assistir pra fazer uma resenha e ganhar a nota da segunda unidade. Me pergunto se aquela fagulha, a de querer inventar uma criança, que nasceu ali, teria se acendido sem isso em algum outro momento. Prefiro acreditar que a gente sempre está onde deveria estar, e que bom que eu não faltei nesse dia.
O menino que é danado e cativante na mesma medida, ganha o coração de Alfredo, um rabugento projecionista idoso que trabalha no cinema da cidadezinha siciliana e eu duvido muito que qualquer pessoa que tenha um coração, saia ilesa ao carisma desse menino. Eu peguei emprestado pra Didi essa espontaneidade de Totó; o apelido carinhoso de sílabas repetidas também. Gosto tanto da amizade entre o menino e o velho - que vai se acostumando com aquela presença gaiata e insistente, começa a permitir que o menininho assista de dentro da cabine os filmes que o padre censura e acaba ensinando Totó a operar o maquinário do cinema.
O filme é difícil de achar mas vale a pena cada instante, daqueles de terminar sorrindo com o olho cheio d'água - que é como eu espero que você fique quando terminar de ler Faísca.
MALUQUINHO, O Menino Maluquinho (1995).
Eu amo esse filme, desde criança. Me lembro de alugar tantas vezes que perdi a conta. Quando os DVDs chegaram, eu comprei a fita cassete por uns 2 reais num saldão de locadora. Na história, que conta um pedacinho ali da vida de Maluquinho (cujo nome é esse mesmo), a gente assiste o dia-a-dia desse menino traquino, sagaz, encantador e, antes de qualquer coisa, livre. Entre truques de mágica, concursos de peido, cachorros que sabem subir em árvores e um avô voando num balão - temas como divórcio, luto e outros assuntos que não costumam ser tão fáceis de abordar com um público infantil, estão presentes, e em momento nenhum a inteligência desse menino é subestimada quando se trata dessas coisas. Eu queria muito que isso fosse possível no quadrinho que eu tava inventando e nada melhor do que me inspirar num menino que Ziraldo criou pra fazer isso.
Pra Didi, eu peguei dele uma coisa que me emociona profundamente nessa narrativa, que é essa liberdade dele. Maluquinho só é livre porque tem a certeza de ser amado, sem que ele precise fazer qualquer grande esforço em função disso, pra além de só ser ele mesmo. Em Faísca, a mãe de Didi tem um papel essencial nessa parte, mas a gente vai falar dela mais pra frente.
No filme também há um abismo gigantesco entre a maneira como meninos e meninas são retratados. Muito machismo envolvido e isso me chamou muita atenção porque na história, as meninas não são tão narrativamente complexas ou livres como Maluquinho. A relação entre Bocão (melhor amigo de Maluquinho) e Nina - sua irmã caçula, e a maneira como cada um deles é tratado no grupo é bem parecida com a relação entre Didi e seu irmão mais velho em Faísca.
No Youtube, o filme tá disponível na íntegra. É só fazer uma pipoquinha e dar o play!
VADA, Meu Primeiro Amor (1991).
Eu penei pra achar uma menina danada pra usar de referência - até que lembrei de Vada, de Meu Primeiro Amor. Nessa história a gente assiste um pedacinho da vida de Vada - essa menina audaciosa, curiosa e questionadora que mora numa casa funerária e cobra um dinheiro dos meninos da rua, em troca de tour pelos corpos que são diariamente embalsamados no porão.
O luto está presente no seu dia-a-dia como parte do cenário, na memória de sua mãe já falecida, na frustração de se apaixonar pelo professor de literatura, na chegada de uma nova secretária que a faz pensar que a vida não vai ser mais a mesma e em seus devaneios patrocinados pelo tempo livre do médico da cidade que, nos intervalos dos atendimentos, dá cabimento pras consultas hipocondríacas da menina.
Eu gosto da energia caótica dela, da narrativa de amadurecimento e da profundidade marcante que esse filme carrega. Didi ficou com o temperamento de Vada, a teimosia, os planos infalíveis e a inocência bonita de ver uma pessoinha se tornando quem é.
Acho que tá disponível em algum streaming atualmente, esse é o mais fácil de encontrar.
*EXTRA*
GLÓRIA, A Natureza das Coisas Invisíveis (2025).
Esse aqui fica como um extra porque eu assisti na mesma semana que terminei o quadrinho.
Glória não foi uma das inspirações pra Didi - mas poderia. Eu amo essa criança inventada na mesma medida que amo a criança que eu inventei. O jeito que ela fala, como ela brinca, como conversa lorota e como sorri. Tudo em Glória é genuíno e bonito. Até quando ela se estressa, é bom de assistir. Glória e Didi têm tudo a ver. Acho que ainda vou falar muito nesse filme por aqui, mas por enquanto é isso: assista. Tá disponível na Netflix!
Enfim, foram muitos anos garimpando essa bendita voz, da ideia inicial até aqui. Não só nos filmes mas tentando encontrá-la dentro de mim também.
Como é que uma criança fala?
Didi é geniosa, teimosa, respondona, a ponto de não deixar ninguém achar que vai domar seu agir, como se faz com as outras meninas. Eu escrevi Didi pra ser a criança que eu queria ter sido e é bem difícil escrever sobre isso sem dar nenhum spoiler sobre a história em si. Mas olha só, que coisa: Eu, pra variar, fui escrevendo as coisas achando que tava fazendo apenas um quadrinho inocente e acabei elaborando alguns traumas pelo caminho.
Por várias vezes eu empaquei na produção porque não só não queria reviver sensações engavetadas e bem guardadinhas no fundo do meu coração, como não queria ver essa criança inventada e que eu amo tanto, passando por esse tipo de coisa também.
Ao longo de todo o processo pra botar Faísca no mundo, eu escrevi muito pra mim. Criei um costume consistente de escrever pra pensar e pra sentir essas coisas que vão ficando guardadas. Pude perceber que todo esse trabalho acabou funcionou como um soro, um antídoto.
Hoje, pouco tempo antes de te enviar essa newsletter, eu tive uma das mais bonitas sessões de terapia da minha vida. Consegui entender o impacto que escrever esse quadrinho teve na minha cabeça e nos caminhos que ela costuma fazer, pra que eu seja a pessoa que sou. Vou tentar explicar:
Quando criança, eu nunca me senti “livre”. Eu era uma menina estudiosa, quieta, inteligente - mas acima de qualquer uma dessas qualidades, minha personalidade girava em torno de ser obediente. Ser uma menina obediente era o que me garantia - na minha percepção, o bem-querer, o amor das pessoas. Quem também leu Arlindo e as reflexões que eu fazia nas newsletter sobre viver uma infância/adolescência queer, bem sabe que por muito tempo eu compreendi que esse era o papel que eu precisava ocupar: obedecer, dar orgulho e não dar trabalho. E assim, morrendo de medo de cometer qualquer erro, eu me sentia tendo mais ou menos uns 30 anos desde que tinha uns 6. Uma espécie de desacordo entre o tempo e os papéis que a gente vai aprendendo a ocupar na vida, que aprisionou a percepção que eu tinha de mim, como se só existisse essa única maneira de existir e ser amada.
Eu só aprendi genuinamente o que era “ser livre” depois de grande. Mais especificamente, depois de imaginar, escrever, desenhar e dar vida, primeiro a Arlindo, e agora, à Didi. Porque com essas pessoinhas inventadas no meio de muita terapia e acolhimento, eu posso dizer que assim como o Menino Maluquinho e Didi, eu me sinto livre e tenho certeza que sou porque me sinto também amada, sem que precise fazer qualquer grande esforço em função disso, além de só ser quem sou.
Tem um episódio do Mano a Mano em que Paulo Vieira diz que “a vida é de brincar”. Que quando ele entrevista as senhoras, quando ele tira onda com o povo numa premiação em horário nobre, é a criança que existe nele, brincando. Acho que eu consigo me relacionar com isso quando me acabo de rir das piadas que faço no meu próprio desenho, quando faço uma dancinha ao comer uma coisa gostosa, quando tiro onda com pessoas tentando ser muito adultas perto de mim. Mas enquanto escrevia e desenhava esse quadrinho, eu fui mais criança e brinquei mais do que quando eu era criança de verdade. Aquela criança que a gente carrega com a gente, que deixa a vida mais leve quando a gente leva ela junto.
Eu escrevi Didi pra ser aquilo que a gente se atreve a ser ainda que o mundo tente passar por cima da gente e espero que você consiga ler isso nas entrelinhas de Faísca quando ela chegar na sua mão.
Eu carrego comigo uma criança de armadura, que lutou duras batalhas.
Ela carrega um escudo, algumas lanças, uma espada, pronta pra me defender.
Meu trabalho é ensinar pra ela que eu sou gente grande e a gente não precisa mais desse escudo, das lanças, nem da espada que ela pegou no caminho.
O meu trabalho de gente grande é desarmar.
É ensinar ela a brincar porque a gente tá segura agora.
Ela não precisa mais me defender.
Agora sou eu que, já grande, levo ela nos meus braços.
Muito obrigada pelo seu apoio. É esse tipo de coisa que ele torna possível. Muito obrigada, mesmo. É isto. Até a próxima.
Um xêro.
Luiza.



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