Acho que nunca vou deixar de usar essa frase pra definir esse livro. Na verdade, o livro é quem traz a definição dessa frase.
Nessa breve resenha apresento a você, que leu conosco e a você que talvez ainda não faça parte desse clube, um pouco sobre o que foi a experiência de leitura conjunta de "A visão das plantas" de Djaimilia Pereira de Almeida.
"A visão das plantas" é um livro incrivelmente curto, mas que para mim foi incrivelmente difícil. Sinto que o terminei ainda com dúvidas e caso você também as tenha, deixe nos comentários para discutirmos sobre.
Por meio dessa história, conheceremos Celestino, um ex capitão de navio negreiro, responsável pela tortura e morte de milhares de pessoas escravizadas. Homens, mulheres, crianças que Celestino transportava no porão de seu navio de maneira desumana, como simples objetos, mercadorias que poderiam ser empilhadas e descartadas caso consideradas "vencidas".
Hoje, este homem, está retornando para a casa de sua mãe, em uma cidadezinha litorânea de Portugal. Já velho, Celestino enfrenta o julgamento das pessoas ao redor que contam histórias assustadoras sobre ele (provavelmente todas reais, talvez até "menos piores" do que foi a realidade). Ele se isola na casa velha e passa a se tornar uma exímio jardineiro. Esse estranho homem tão abandonado quanto a casa, começa a se dedicar à vida de pequenos seres que não o julgam. Essa seria a visão das plantas.
"Tanto lhes fazia serem cuidadas por um assassino, se eram sujas as mãos que as amparavam ou o que viera antes do amor que ele lhes dedicava. Seguiam-no com o seu olhar sem julgamento, alheias a que, todas as manhãs, Celestino acordava por elas."
De início, parece até mesmo que as plantas o perdoam, mas na realidade, elas pouco se importam. Elas o vigiam sim, mas se não for ele a regá-las, qualquer outro serviria, qualquer outro seria também vigiado, acompanhado e agradecido através da beleza de suas flores. A questão é que as plantas não se tornam dependentes de Celestino, é ele quem "acordava por elas". Aos poucos, seu jardim se torna o motivo de sua vida e a única coisa que o mantém. Mesmo quando sua memória começa a falhar, mesmo quando seu corpo começa a reclamar a idade, ele se mantém vivo para cuidar de suas flores. E, aparentemente, se mantém vivo por muito tempo. Pergunto-me até agora quantos anos esse homem viveu.
Porém, não pense que Celestino hoje dedica a vida a dar vida por, no passado, ter tirado tantas. Algo engraçado que notei no livro é que em nenhum momento Celestino parece arrepender-se de suas ações que não são meras ações, são crimes. Por mais que o Padre o incentive a se confessar, Celestino nunca o fez. E mais do que isso, o capitão não é alguém que não tinha noção, que não se deu conta de que matou pessoas, destruiu vidas, ele não era alguém alienado ou considerado louco. Celestino mostra, a todo momento, até quando a morte chega, o quão consciente é sobre o sangue em suas mãos. Em certo momento, ao contar histórias para crianças, assustadoramente até parece orgulhoso disso. É aí que entra a frase tão conhecida "os canalhas também envelhecem".
Essa história não é de redenção, não é sobre um homem ruim que se arrependeu de suas ações e em sua velhice sofre com o julgamento de terceiros. É sobre um homem ruim, perseguido por seus demônios e que, por decisão própria, nunca quis se afastar deles, pois sequer teve medo deles. Celestino sempre sentou à mesa para conversar com os demônios talvez porque tenha se reconhecido neles.
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