Os bastidores de O Livro de Horas — e o recado de uma leitora beta que me fez olhar para essa fase de outro jeito.
Escolhi abrir este texto com Evelyn diante do Tâmisa. Não foi por acaso. De algum modo, essa imagem acabou traduzindo o que tenho vivido durante a revisão. Mas, para explicar por quê, preciso contar uma história.
Quanto de uma história pode mudar sem deixar de ser a mesma história?
Existe um medo sobre o qual eu não falei muito quando coloquei esta campanha no ar.
Não é o medo de não alcançar a meta (já chegamos a 94% dela!!)En. Nem o frio na barriga de saber que, daqui a algum tempo, uma história que viveu tanto tempo só comigo estará nas mãos de outras pessoas.
É um medo que aparece quando abro o manuscrito para revisar:
E se, de tanto tentar melhorar o livro, eu acabar perdendo justamente aquilo que me fez querer escrever essa história?
O Livro de Horas de Evelyn Stanton está em processo de revisão. E talvez “revisão” seja uma palavra pequena demais para o que está acontecendo por aqui.
Tenho cortado. Reescrito. Mudado diálogos. Aprofundado personagens. Encontrado execesso onde deveria confiar mais na inteligênia do leitor. Encontrado silêncios onde antes eu achava que não precisava explicar mais nada. Há cenas que sobreviveram praticamente intactas e outras que, quando termino de trabalhar nelas, me fazem pensar: como eu não enxerguei isso antes?
É uma experiência deliciosa.
E assustadora.
Quando revisar começa a parecer reescrever
Durante muito tempo, pensei na revisão como uma etapa posterior à escrita. A história estava pronta; agora era hora de aprimorá-la.
Descobri que não é bem assim.
Revisar também é voltar para dentro da história.
É reencontrar Evelyn, Julian, Adler, Agnes e todos os outros depois de ter passado mais tempo com eles. É perceber intenções que estavam escondidas até de mim. É entender melhor por que alguém permanece em silêncio em determinada cena — e descobrir que, às vezes, uma frase que eu adorava não precisa mais estar ali.
Só que existe uma pergunta incômoda acompanhando tudo isso:
até onde uma história pode mudar sem deixar de ser a mesma história?
Foi quando uma das pessoas que acompanha este livro desde muito antes da campanha me deu uma resposta que eu não estava procurando.
Uma apoiadora que já tinha me dado muito mais que um apoio
Ela foi leitora beta de O Livro de Horas. Agora também é uma das apoiadoras fundadoras desta campanha.
Mas percebi que chamar isso apenas de “apoio” é pouco.
Porque existem pessoas que ajudam um livro comprando um exemplar. Existem as que divulgam, torcem, comentam, compartilham.
E existem aquelas que, em algum momento, acabam deixando um pouco delas dentro da história — e da escritora.
Contei a ela sobre meu medo de mexer demais no manuscrito.
Ela me lembrou da conhecida ideia atribuída a Heráclito: ninguém entra duas vezes no mesmo rio, porque, quando voltamos, nem o rio é mais o mesmo — nem nós somos.
Então escreveu:
“Você também não é mais a mesma pessoa que escreveu aquela primeira versão.”
E aquilo ficou comigo.
Porque eu realmente não sou.
Desde que comecei esta história, pesquisei mais. Li mais. Escrevi mais. Errei mais. Aprendi mais. Vivi mais.
Conheço melhor meus personagens.
E, talvez, conheça melhor a mim mesma como escritora.
Mas foi outra coisa que ela escreveu que acabou virando quase um mantra desta revisão:
“Não tenha medo de mexer no rio, Lis. Só não tenta congelar a água para preservar o que ela era. Deixa ela correr.”
Era exatamente o que eu precisava ouvir.
O rio continua sendo o rio
Desde então, alguma coisa mudou na maneira como tenho revisado.
Continuo questionando cada mudança. Continuo voltando páginas. Continuo tendo aqueles momentos em que penso: será que estou mexendo onde não deveria?
Mas também comecei a me permitir gostar do que está acontecendo.
Evelyn continua sendo Evelyn.
O coração da história continua no mesmo lugar.
As questões que me fizeram começar a escrever continuam pulsando ali: mulheres, cuidado, poder, conhecimento, autonomia, guerra, amor, perda, resistência.
A essência não desapareceu.
Só estou conseguindo enxergá-la melhor.
Talvez revisar seja justamente isso: permitir que a escritora que sou hoje encontre aquela que começou esta história, sem exigir que nenhuma das duas desapareça.
E há algo especialmente bonito em viver esse processo durante uma campanha de financiamento coletivo.
Porque este livro já não está sendo construído apenas entre mim e uma tela.
Há pessoas esperando por ele.
Há nomes que já fazem parte desta história antes mesmo de ela chegar à gráfica.
Há apoiadores que escolheram recompensas, compartilharam a campanha, mandaram mensagens, torceram — e, como essa leitora beta, às vezes me devolveram algo que nenhum valor financeiro poderia medir.
É por isso que gosto cada vez mais da palavra apoiador.
Vocês não estão simplesmente comprando antecipadamente um livro.
Estão ajudando a fazer com que ele exista.
E para quem ainda está acompanhando da margem…
Talvez você tenha chegado à campanha, conhecido Evelyn, acompanhado alguns dos bastidores e ainda não tenha decidido entrar nessa história.
Ainda dá tempo.
A campanha de O Livro de Horas de Evelyn Stanton fica no ar até 14 de outubro.
Ao apoiar, você não está chegando quando tudo terminou. Está chegando justamente enquanto o livro atravessa uma das etapas mais importantes de sua construção — aquela em que uma história deixa de ser apenas o manuscrito que escrevi e começa a se preparar para se tornar o livro que vocês vão receber.
E eu gosto muito da ideia de que, quando finalmente segurar o exemplar pronto, você possa pensar:
eu estava lá enquanto esse rio ainda corria.
A quem já apoiou: obrigada por estar dentro dessa história.
A quem ainda observa da margem: vem.
A água está ótima. 🤎📖






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