Poisé, de novo.
Você não sabe como é bom estar de volta.
2024 foi definitivamente um ano de muito trabalho, de viagens inesquecíveis e importantíssimas pro meu crescimento profissional, trabalhos que trouxeram grandes desafios e aprendizados em prazos curtíssimos, fiz trabalhos de direção e roteiros para o audiovisual pela primeira vez, me mudei de novo e no meio de mudanças e plot twists na minha vida pessoal, dezembro veio pra fechar a tampa - deixando de presente uma fratura na tíbia distal em espiral.
Como? Você me pergunta e eu rio tentando explicar de uma maneira menos estapafúrdia (e eu amo qualquer desculpa pra usar a palavra estapafúrdia) que eu estava andando na grama de um canteiro pra caminhar segura até a faixa de pedestres.
Pisei em falso num buraco, achei que ia torcer o meu pé ruim (quem me conhece sabe bem o histórico de pés quebrados, torções bobas e a famosa fratura exposta que me fez começar a desenhar), joguei o peso para que a outra perna só catasse um cavaco, desse um trupico e eu saísse ilesa da situação - mas no caminho da outra perna tinha um buraco ainda maior, coberto pela grama alta e, bom, a torção foi tão grande que eu ouvi o *TECO* do osso torando ainda no ar, antes de cair. Torou tanto e com tanto gosto, que fiquei 15 dias internada, tomando remédio pra dor e sentindo o tédio do mundo inteiro enquanto aguardava cirurgia. Passei Natal e Ano Novo entre senhoras com braços e bacias fraturadas num hospital de enfermeiras gentis e ortopedistas pouco simpáticos de Parnamirim.
No hospital eu não conseguia ler, nem assistir nada. Os remédios me deixavam tonta, bagunçavam a concentração. Encontrava entretenimento em conversar com quem vinha me visitar ou ficar de acompanhante, em jogar caça-palavras, dominó, e em desenhar.
Eu desenhava as coisas que conseguia ver do meu leito perto da janela - os outros pacientes, suas acompanhantes, detalhes do quarto, a saudade que sentia de Goiaba e Belmiro. Aqui está uma compilação dos desenhos que fiz porque desenhar ajuda a botar a cabeça no lugar nessas horas:
O segurança do hospital ouvindo um brega na noite que passei no Walfredo Gurgel esperando a transferência pro outro hospital, cantando Chama o Maqueiro no ritmo da canção i should have known better.
Dona Chica, que se chamava Josefa mas não gostava muito da sonoridade, era minha vizinha de leito. Uma senhorinha de muito carisma que adorava cantar o refrão da canção “Farinhada” de Luiz Gonzaga, durante todo o tempo que passava acordada (às vezes era a noite toda) - ela também era o que por aqui chamamos de moça-velha. Quando alguém perguntava se ela queria arranjar um namorado, ela só respondia que preferia dinheiro. Chica já tava lá pra mais de 20 dias quando cheguei, precisava fazer uma limpeza na prótese de fêmur mas algo sempre acabava adiando a cirurgia. No dia fui pro primeiro retorno, uma semana depois da cirurgia, ela ainda tava lá - espero que ela já tenha ido pra casa com os dois radinhos de pilha que ganhou das enfermeiras.
Às vezes no silêncio da noite eu quase posso ouvir a voz dela bem baixinho cantando “Eu tava na peneira, eu tava peneirando” em repeteco. Em um dado momento eu comecei a cantar a versão em inglês.
“A ansiedade é um péssimo uso da minha imaginação” é quase um mantra que carreguei comigo durante todo esse tempo. Todos os dias que meu nome não saía na lista de cirurgia era uma grande frustração. Mainha, Amanda, Cecília, Gredh e Didi me fizeram companhia, tentavam me animar nos dias mais difíceis e dormiam na cadeira acolchoada dos acompanhantes que era disputadíssima. Essa temporada no hospital foi como um grande episódio de Sob Pressão só que sem a Marjorie Estiano.
De volta pra casa
No começo de janeiro fiz a cirurgia e voltei pra casa - ainda com muitas restrições, curativos, antibióticos, sem botar o pé no chão; porém sem horários restritos pra receber visita de pessoas queridas, sendo muito bem cuidada e paparicada.
Desenhar tem sido extremamente necessário pra ocupar as mãos e a cabeça, num momento de tanta vulnerabilidade e tão pouca autonomia, me vi de novo em um lugar que já estive, mais de dez anos atrás.
Aproveitei o tempo de molho pra brincar de desenhar. Usei um sketchbook grandão bonito de folha boa, que tava guardando (eu tenho dessas) pra o momento dele e usei os materiais (caneta, giz, tinta) que comprei ou ganhei mas que quase nunca usava - então acabou que saíram desenhos bem diferentes e experimentais.
Meu traço às vezes muda a depender do material que uso, vou falar sobre eles lembrando que não recebi um centavo de nenhuma marca pra isso mas adoraria.
Nessa página eu tinha aberto umas letras que não gostei muito, achei por bem de cobrir fazendo umas formas aleatórias com as Poscas que tinha aqui. As formas me lembraram corpos e aí saiu esse monte de mulher formosa amontoada.
Uma fanart de Andreia Beltrão como Regina, no icônico longa-metragem brasileiro A Partilha (1998), feita com a boa e velha Unipin Brush de guerra e alguns personagens de Bacurau (2019) com meu novo xodó, que é a caneta Energel 0.5 da Pentel - que depois de usar essa vermelha, eu dei um jeito de arranjar mais cores, que além de super vibrante tem um traço bem firme e gostoso de usar.
Fui tentando misturar os materiais ao longo dos dias. Desenhar como quem brinca de massinha, usando blocos de cores, juntando os pedaços, vendo no que dá. Gosto do meu desenho sem traço, meti uns detalhezinho em giz pastel aquarelável, mas sem a parte de me meter com aquarela porque não me dou, não tenho muita paciência.
Achei que poderiam ser estampas legais, mas tentei desenhar só por desenhar. Sem pensar em produto, sem produzir, só desenhar. Tentar me divertir remendando os erros, passando tinta por cima do erro, desenhando por cima da tinta, misturando cores pros tons de pele com canetinhas fuleiras que mesclam de um jeito marcado, desenhando pra desenhar, não pra ficar bonito. E no fim das contas eu acabava achando bonita a bagunça.
A figura do ouroboros, essa serpente que morde a própria cauda, tem se repetido na minha cabeça, desde que todo esse rolé do acidente começou, a cobra que se engole junto ao pensamento “não tem alegria que nunca termine, nem tristeza que dure pra sempre.” porque é esquisito viver essas coisas de novo. Achei que seria mais fácil dessa vez por já ter passado por isso uma vez, mas é um esforço diário me relembrar a pessoa que eu sou hoje. Foram dias bem difíceis, mas acho que agora - mesmo sem andar ainda, mas já sem tantas dores, com um avanço massa na fisioterapia e me sentindo muito amada por todo mundo que me quer bem, posso dizer que tô de volta.
Fevereiro, já no clima!
Voltamos à programação normal por aqui:.
6, 13 e 20/02 Tirinha de Régis & Bida
15/02 Live de desenho quietinho no meu perfil do instagram mesmo!!! (aviso o horário no grupo do telegram)
10/02 Baby Alô FM especial com indicações das coisas todas que assisti nesse tempo de molho. Pôster & Postal do mês vêm juntinhos nessa!
17/02 Baby Alô FM C u b a _ L i b r e zine sobre a viagem à Cuba no ano passado.
Entrarei em contato com os apoiadores da categoria do encontrinho pra gente marcar o dia de trocar ideia! Se você é uma dessas pessoas, responde isso aqui com o dia da semana que é mais tranquilo pra você!
O envio dos postais fica pra quando eu puder voltar a resolver coisas (ir na gráfica, levar aos correios) mas não se preocupem, todos os apoiadores dessa categoria receberão seus mimos, só peço um pouco mais de compreensão nessa espera.
Se você chegou até aqui, obrigada por ser um apoiador tão gentil e disposto a ler minhas abobrinhas. Obrigada pela companhia nesses tempos complicados.
Qualquer coisa, é só falar.
Até o futuro;
1 xêro.
Luiza




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