Coloquei meus fones de ouvido, apertei play, fechei meus olhos e me deixei levar pelo que quer que a minha imaginação quisesse fazer.
Não demorou muito pra ela aparecer:
A Ego.
Curiosa e angelical. Pequena como uma formiga. Fitando cada detalhe do meu corpo em transe.
Ela não quis perder muito tempo na superfície e encontrou rapidamente o seu caminho até meu mundo interno.
Se deparou com o vazio.
É muito louco como existe uma vida própria na nossa mente, a gente só precisa aprender a desapegar do controle dos nossos pensamentos.
Ela vagou calmamente no meio do nada, guiada pela música reverberando nos meus ossos. Era intensa e suave ao mesmo tempo.
Foi então que ela viu aparecerem os varais de memórias.
Esses exercícios de visualização não são muito diferente do que eu uso para criar as minhas histórias.
Faço algo parecido desde a adolescência, desde antes de estudar Mindfulness, antes de aprender o que era meditação.
Foi uma descoberta instintiva.
Para qualquer direção que Ego olhasse, só via os varais, infinitos, suspensos no nada, cheio de fotos presas por pequenos prendedores.
Frames de vidas passadas.
Muitas delas felizes, mas confinadas no passado.
Somente o vislumbre daqueles momentos mortos pelo tempo fez doer seu peito.
Escolheu cuidadosamente cada uma daquelas lembranças, um trabalho de curadoria cruel.
Uma a uma, as fotos foram recolhidas e empilhadas.
Ao acender o fósforo, um último suspiro de despedida.
É mais fácil imaginar uma vida mais interessante do que lidar com os riscos da realidade.

Observou as chamas, escutou o estalar do fogo, o brilho quente iluminou seus olhos marejados.
Mas sentiu um soco persistente na boca do estômago.
Por quê não está funcionando? Se perguntou.
Enquanto hipnotizada pelas chamas, foi despertada com um som que a surpreendeu.
“Isso foi.. um latido?”
Se virou na direção do som, incrédula.
Lá estava ele, abanando o rabo. Chamando ela para brincar.

Ao se aproximar viu nitidamente o desenho de um coração, desenhado de forma infantil, que circundava o cão.
“Então é isso” pensou Ego.
Se aproximou do cão que ficava cada vez mais animado. Ego não percebeu em qual momento, em meio a seus pensamentos gritantes, a faca apareceu em sua mão.
Continuou avançando lentamente com a lâmina escondida em suas costas, lamentando antecipadamente pelo ato terrível que se convenceu ser obrigada a cometer.
Mal sabia ela que sua vítima era tudo, menos indefesa.
O animal logo percebeu sua intenção e não sentiu medo da ameaça, mas sim ódio da ignorância.
“Como não entende e não aceita que a vida só é maravilhosa por que existem extremos?”
Derrotada, Ego desiste sem nem ao menos tentar. A razão do sofrimento não eram as lembranças nem os apegos. Era o acaso.
Eram pessoas sendo pessoas. Era a vida sendo vida. Era o mundo sendo o mundo.
É difícil ver a beleza da tempestade quando estamos perto demais do furacão. Ela se revela depois.
Depois que a terra absorve a água, depois que o sol reflete nas gotas, depois que o verde cresce e o céu fica azul. Depois que a vida recomeça na calmaria.
A música acabou, e sem abrir meus olhos, sorri.





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