Um trio de aranhas minúsculas brinca no banheiro.
Eu olho para cima, intrigado, pensando à primeira vista se tratar de alguns bichinhos voando… Mas em uma estripulia avançada uma delas se lança de um lado para o outro e balança, presa no teto, e eu reconheço que os três serezinhos, do tamanho de pontos finais, são filhotes de aranha explorando o mundo.
Eu rio com a estripulia, rio de verdade, e meu coração se enche de um pequeno amor pelo mundo. Oi, amiguinhas! Cuidado, esse é um mundo perigoso. Não fiquem muito à vista.
Tenho com as aranhas de casa um pequeno trato. Se elas se mantiverem na área de serviço, com as plantas, ou no banheiro de trás, ou em qualquer lugar fora da vista do Fai — que não é capaz de encontrar seu celular em cima da mesa, mas percebe todas as aranhas como quem encontra vírgulas fora de lugar —, então eu as deixo em paz. Porém, se eu precisar ir em socorro do meu pequeno aracnofóbico — tão grande comparado às pequenas aranhas que habitam essa casa —, então não posso garantir a segurança delas. Eu tento removê-las vivas, mas nem sempre é possível. Às vezes minha mão e minha falta de paciência falam mais alto.
Eu sou um ser vivo, e também um agente da morte. Eu tento fazer isso com respeito e responsabilidade, como uma flecha em prece a Louhi-kae, e minha restrição é uma escolha tanto quanto não me restringir. Meu tempo virá, e é por aceitar isso que posso encerrar uma vida com respeito. Mas normalmente me abstenho de fazê-lo. Também sou um agente da vida.
(Os mosquitos são exceção, e a eles minha compaixão não se estende. Meu respeito, sim, e ele é demonstrado com palmas e chinelos.)
Criatura de luz e sombra que sou, observo as pequenas aranhas se divertindo com fascinação. Desejo boa sorte e sigo meu caminho.
Se ainda estão por lá, aprenderam a se esconder.
Espero que ainda estejam se divertindo.
Em tempos corridos, truncados, difíceis, encontro prazer nas pequenas surpresas.
Às vezes há tanta coisa acontecendo, que se deparar com um pequeno milagre é algo súbito, forte, como o antônimo perfeito de topar o dedinho na quina de um móvel. Um rompante de alegria, de lembrança. Eu continuo aqui, o mundo parece dizer — talvez nos dois casos. Olha pra mim um pouco!
Eu tento olhar.
Uma lista de pequenas coisas que chamaram minha atenção recentemente, como pequenos pontos finais . fora de lugar — manchinhas fascinantes de realidade:
.em uma foto que eu tirei quinze anos atrás e achei recentemente, impressa para uma aula de fotografia, há uma roda gigante. Pendurei ela na parede ao lado do computador e percebi, para minha surpresa completa, um pássaro voando bem no alto; se o tinha visto antes, não lembrava. Por onde andará esse pássaro?
.ao buscar o carro no mecânico depois de muitos e muitos consertos da mesma coisa, e perguntar mais uma vez se não devo nada, o mecânico me disse “vai ser feliz, menino!”;
.ir tomar milk shake numa sorveteria numa segunda-feira, ao invés de em nosso café favorito… e encontrar os donos do tal café também na sorveteria.
.em uma tarde de domingo de cabeça cheia, peguei um grande emaranhado de lã (que eu tinha usado como parte do figurino do Casamento do Gervásio) que estava rolando pela casa há meses e tirei todos os nós, transformando em um novelo… queria pensar, mas não pensei em nada exceto em como tirar os nós por uma hora e meia.
.segurar uma tempestade de choro e fúria do Fai com placidez, pensando: tá tudo certo, estou aqui para isso também.
.ler uma frase do meu escritor favorito que me faz pensar: uau, eu sou assim também… descobri algo que não sabia sobre mim mesmo.
.aquele arrepio que sobe pelo corpo quando você encontra alguma coisa que não sabe o que é, mas sente. quando se lê algo que te faz sentir algo… que faz sua intuição dizer: sim, é isso, isso é gente, isso é vida, isso é algo! Um pequeno sininho de quando duas almas se esbarram que perpassa o corpo todo. Eu te vejo, você me vê.
.rir com meus amigos em uma madrugada de quarta-feira, numa cabine em um restaurante, sabendo que todos nós já devíamos ter ido embora faz tempo — mas quem se importa
.o novo porteiro me chamando de Gabriel, por algum motivo.
.olhar para o grande e esticado céu azul por entre os prédios e pensar: é, eu também estou aqui, que loucura.
coleto esses e outros pontos como quem enxerga estrelas cadentes e aponta. Eu vejo o mundo, aceno. Ele acena de volta. Pra onde você tá indo se já está aqui?
Eu, do alto da minha surpresa digo: é verdade… boa pergunta. E então continuo indo, e nós dois rimos disso.
Recentemente terminei de ler Escrever é Muito Perigoso, da Olga Tokarczuk, um livro de ensaios que eu comprei e parei no meio há alguns anos, mas que recomecei como leitura antes de dormir.
Em certo ensaio, ela fala sobre um fenômeno familiar. Uma noção de se estar seguindo um fio (de lã? tirando os nós?) confiando que o que quer que ela estivesse procurando simplesmente apareceria À sua frente virando uma esquina… E realmente acontecia.
Ela fala dessa noção como, ao escrever um livro, ela acabava se deparando por acaso com as coisas que precisava para seguir em frente: um personagem, uma informação, um título, geralmente em um lugar inesperado, que ela encontrava por sorte.
Eu chamo isso de Cada história tem seu tempo, e sempre digo para o Fai que às vezes tem algo que a gente precisa viver antes de poder continuar… E acredito muito nisso.
OT chama esse fenômeno de Mundos Adiumens, ou seja: o mundo ajuda. Como se houvesse algo no mundo que quisesse te ajudar a contar essa história, ou a fazer alguma coisa.
(Vocês já tiveram a sensação de que o mundo estava te empurrando na direção de algo…? Esqueçam o algoritmo e o que as telas dizem, mas aquela sensação de que há muitos sutis sinais em lugares diferentes encorajando alguma coisa…? Eu percebo que quanto mais presto atenção, mais pareço escutar esses pequenos chamados… Essa canção-guia, talvez.)
Mais talvez do que ajudar — embora acredite nisso também —, acho que o mundo também quer ser visto e, mais do que isso, quer ver. Penso então em um Mundus Testis [o mundo testemunha], ou Mundus Videt [o mundo vê], embora para mim sempre será Mundus Vitni, que me perdoem os latinólogos e os islandeses.
Para não falar em Mundus Ridet: o Mundo Ri.
Penso agora naquelas aranhas, pontinhos saltando com alegria, e as sinto rindo.
Os pássaros, o céu, os milk shakes, os mecânicos, as frases, os escritores, os porteiros, o céu… Todos eles querem ser vistos, querem ver, querem ajudar. Todos eles querem rir, eu suponho.
No meio das correrias sem fim de agosto e além, é bom às vezes parar e olhar, principalmente quando o mundo acena e diz olha pra mim!
Estou aqui, estou olhando.
Espero que você também.
Essa garrafa é um lembrete e uma celebração dos pontos finais fora de lugar
.
Com amor,
Lucas Videt, Lucas Ridet






Seja o primeiro a comentar
Faça o login para comentar.
Entrar