Eu sofri de saudades quando Bolinho foi embora.
Bolinho de arroz não era só um gato. Ele foi meu melhor amigo.
Era pequeno quando chegou até mim. A mãe dele o rejeitou, e eu cuidei dele até que crescesse. Ele ficou comigo nos dias tristes, nos dias difíceis e, algumas vezes, foi a única coisa feliz que eu conseguia enxergar.
Era branquinho, albino, com os olhos azuis da cor do céu.
Eu nunca consegui esquecê-lo.
Quando ele partiu, foi de repente. Eu perdi o chão. E ainda dói falar sobre isso. Talvez doa ainda mais porque eu não pude fazer nada.
Naquela despedida, fiz uma promessa.
Se um dia eu tivesse outro gatinho, eu não faria dele meu suporte emocional. Eu cuidaria dele. Eu mimaria. Daria tudo o que pudesse. Ele teria brinquedos, conforto, comida boa, carinho e todos os luxos que um gato pudesse desejar.
Porque o luto de Bolinho foi insuportável. Caótico, para dizer o mínimo.
Durante muito tempo, parecia que uma parte de mim tinha morrido junto com ele.
Talvez tenha mesmo.
Dez anos depois, eu estava andando perto de casa quando uma moça que eu sempre achei meio chata falou comigo. Hoje eu entendo aquela mulher. Ela é daquelas pessoas que preferem bichos a pessoas.
E, sinceramente?
Ela estava certa.
Ela me contou que sempre me via conversando com a gata dela e perguntou se eu queria um gatinho.
Foi até a porta e colocou uma filhotinha de dois meses diretamente na minha mão.
Ela era a menor da ninhada.
Pequena, magrela e um pouco chatinha. Inclusive, me arranhou.
E eu senti aquele golpe conhecido.
Novamente, o menor da ninhada.
Eu, numa reação absolutamente delicada e maternal, perguntei:
— Tem uma mais bonita, não?
Ela mostrou outra.
Eu e meu marido voltamos para casa e depois retornamos para buscar uma delas.
Eu escolhi a mais forte.
Meu marido se apaixonou pela pequena e chatinha.
Quando chegamos em casa, aquela coisinha minúscula simplesmente lambeu minha mão.
Eu não sei por que ela fez aquilo.
Talvez ela também não saiba.
Mas, para mim, foi ali que acabou a escolha.
Ela tinha me escolhido.
Foi ali que Kinoshi virou minha.
Às vezes gosto de imaginar que Bolinho estava em algum lugar e olhou para aquela pequena criatura e disse:
— Ei, Kinoshi. Vai lá. Ela vai cuidar bem de você.
E Kinoshi foi.
Hoje ela é meu grudadinho.
E é engraçado pensar que, naquela mesma época, eu também escolhi Agatha.
Meu marido, assim que viu Agatha, declarou:
— Essa gata não vai se apegar a ninguém.
Alguns dias depois, ela já tinha decidido que ele era propriedade dela.
Hoje Agatha é a Cleópatra do meu marido.
E ele é apenas um súdito muito obediente.
Um ano depois, as duas são duas bolinhas de pelo mimadas, brincalhonas e completamente donas da casa.
Kinoshi é meu grudadinho.
Agatha é a Cleópatra dele.
E, olhando para elas, eu percebo que alguma coisa mudou em mim.
Na época de Bolinho, eu enxergava aquele pequeno gato como alguém que me salvava nos dias em que eu odiava a própria vida.
Foram muitos dias assim.
Hoje eu penso diferente.
Gatinhos, sejam gatinhos.
É isso que eu sempre digo para as minhas meninas.
Sejam mimadas.
Sejam brincalhonas.
Corram pela casa de madrugada como se fossem donas do mundo.
Briguem com bolinhas de papel.
Se apaixonem por brinquedos completamente aleatórios.
Derrubem coisas.
Escondam objetos.
Cheirem nosso nariz.
Lambam nossa mão.
Durmam em lugares absurdos.
Façam coisas de gato.
Vocês vivem tão pouco para carregar a responsabilidade emocional da nossa mente maluca.
Nós somos os humanos.
Nós é que devemos cuidar de vocês.
Não o contrário.
E talvez essa tenha sido uma das coisas mais difíceis que o amor por Bolinho me ensinou.
Eu não quero que Kinoshi ou Agatha tenham que me salvar.
Quero que elas simplesmente sejam felizes.
Quero que sejam mimadas.
Quero que tenham uma vida cheia de pequenos absurdos, brinquedos, sonecas, comida gostosa e carinho.
Porque quando elas chorarem, eu vou até elas.
Quando tiverem medo, eu vou protegê-las.
Quando estiverem doentes, vou cuidar delas.
Quando estiverem felizes, vou ficar olhando, provavelmente dizendo que são as criaturas mais lindas do mundo.
E quando um dia elas não estiverem mais aqui...
Eu vou sentir falta.
Vou chorar.
Vai doer.
Porque amar um animal é também aceitar que um dia teremos que nos despedir.
Mas eu espero que, até lá, elas nunca tenham precisado carregar o peso de me salvar.
Elas já terão feito muito.
Terão sido apenas gatinhas.
E talvez seja justamente isso que tenha me salvado.
Porque depois de Bolinho, eu aprendi que amar um bichinho não precisa significar pedir que ele nos tire do escuro.
Às vezes, amar é simplesmente acender uma luz para ele.
E deixar que ele viva nela.
Então, gatinhos, sejam gatinhos.
Não carreguem a responsabilidade de consertar nossos dias ruins.
Corram pela casa às três da manhã. Ataquem bolinhas de papel. Derrubem coisas. Mordam nossos pés. Cheirem nosso nariz. Lambam nossas mãos.
Sejam mimados.
Sejam absurdamente felizes.
Nós somos os humanos.
Nós é que devemos cuidar de vocês.
E não se preocupem quando chorarmos. Nós vamos ficar bem.
Talvez não imediatamente.
Talvez doa muito.
Mas nós vamos ficar.
Porque, quando vocês não estiverem mais aqui, tudo o que queremos é lembrar que vocês tiveram uma vida boa.
Vocês não precisam nos salvar.
Só precisam ser gatos.
E nós cuidaremos do resto.
Com carinho,
Jojo


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