Quando pensamos em literatura, particularmente nos nossos gostos pessoais, sobressai-se, tornando-se comum o consumo de obras com gênero que temos maior apego.
E é claro que isso é importante para nós, leitores, que consumimos diariamente livros diversos com propostas em comum.
Mas isso não significa que esses livros sejam iguais ou que estamos lendo a mesma coisa. Somente estamos consumindo aquilo que já temos de repertório.
Às vezes a gente consome essas obras porque acompanhamos pessoas com o gosto similar, ou talvez queremos sentir emoções similares entre as leituras. Também podemos sentir-se representado por aqueles personagens.
Mas onde eu quero chegar com isso? Onde entram os jovens adultos nessa história?
Esse gênero não é menos consumido, nem odiado pelos leitores. Mas no meu convívio – aqui falo de uma experiência individual – de situações que eu já ouvi de pessoas que eu conheço.
Muitos dizem não gostar de romances jovem-adulto por conta de que é meio irritante estar na perspectiva de um adolescente, que é cheio de situações irreais e nem sempre vai bater com o que eles estão passando.
Mas aí que entra meu ponto! O que deixamos de sentir porque já passou da idade de sentir? "Aquilo já não me representa porque eu já não sou mais adolescente" – mas você já foi, não é mesmo? – isso é o que importa na hora de ler. Né?
A gente não deixa de ser alguém que já fomos porque envelhecemos; a gente já teve esses sentimentos vistos como "bobos", mas eles foram uma representação para nós, pessoas que estamos lendo.
Recentemente, eu li um romance jovem-adulto LGBTQIAP+ que me pegou em vários momentos. Mesmo que hoje em dia eu já esteja bem ciente da minha identidade e sexualidade, eu não deixei de sentir quando eu li.
Em "Café com Lichia", vamos acompanhar dois jovens que estão passando por situações complicadas com a família. Um está perto de perder sua cafeteria, pois seus pais irão vendê-la.
Outro lida com o fato de os seus pais não terem voz ativa em relação ao tio, e deixam ele crescer para cima deles.
Além dessas questões, temos um personagem que não revela sua sexualidade por conta da sua família, que já teve falas homofóbicas.
São personagens que estão constantemente sentindo tudo, lidando com esse rio de sentimentos.
E daí que veio a minha identificação: que estou constantemente sentindo demais, tendo a ansiedade bem presente no dia a dia, mesmo que seja por situações diferentes entre mim e o personagem. Mas lê-los sendo honestos sobre o que estavam sentindo me faz querer ser também pelo menos um pouco. Nem sempre encobrir o sentimento seja o melhor caminho, muito menos deixar para sentir depois. A pressa do dia a dia faz com que a gente não queira pensar nessas pequenas coisas que podem nos incomodar.
Achar que esses jovens estão sendo só chatos ou taxar como "coisa de adolescente" não diminui o que eles estão passando.
Não querer consumir dessas obras por não se alinhar com as coisas que estamos passando não as torna menos presentes. Talvez ler essas obras depois de adulto seja também visualizar as nossas questões com a adolescência com outro olhar e rever a nossa forma de sentir. Deixar esses sentimentos retornarem à nossa rotina também é se sentir representado por essas situações que esses adolescentes estão passando.
Limitar-se a não ler tal obra por não ser mais para sua idade ou por parecer menos importante para nós é limitar o que podemos não estar verbalizando, o que poderia ser um incômodo. Porque a nossa rotina faz com que nosso estresse seja direcionado, que nossas dores também sejam. Encobrir algumas para sentir outra é só uma troca. Deixar de ler um jovem-adulto é também não querer visualizar as dores dos jovens e das questões que eles podem estar passando. Mesmo que seja ficção, há jovens que podem se sentir perdido. E que foram representados por essas obras.
Envelhecer não significa que essas obras não possam nos representar também; nós também já fomos jovens que muitas vezes escondemos nossos sentimentos por medo de verbalizar nossas dores.
Aqui eu não digo para você ir agora ler jovem-adulto. Digo que você precisa entender que gêneros literários é além de uma categoria de livro: é também representação. E jovem-adulto pode ser uma para jovens que estão lidando com os próprios sentimentos.
Que tal ler essas obras também por serem uma representação, uma referência? Elas também podem ser para seu jovem e seu adulto. Pois adolescentes têm mais facilidade de colocar em palavras as dores que sofrem, mesmo que demore. Então, quando digo para lermos essa obra sem o preconceito inicial de ser "jovens com problemas de jovens", é também dizer:você também já foi essa pessoa, já esteve nesse espaço. Ser adulto não te priva de sentir algo que hoje em dia não seja similar ao que você sentiu no passado, mas quem mesmo assim representa, de alguma forma, uma dor não verbalizada.
Todos os gêneros literários têm sua representação, e o jovem-adulto tem sua parcela de participação nisso tudo.






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