Vamos combinar que os filmes do Aranha do MCU nunca foram lá essas coisas. O puxa-saquismo ao Tony Stark, personagens absurdamente distantes dos quadrinhos e tramas bem simplórias, para dizer o mínimo. Mas com a maneira que havia terminado Sem Volta para Casa, parecia que finalmente iríamos ver o amigão da vizinhança em um cenário mais condizente: as ruas de Manhattan.
Não me entendam mal, e ação está incrível e a movimentação do personagem, altamente inspirada no game do Playstation, são os grandes acertos do filme. Mas a "história"... bem "nhé".
Pelos trailers fomos levados a crer que, com o Aranha agindo mais no cenário urbano no qual estamos acostumados, tudo apontava para uma trama relacionada com as gangues. Nas HQs, várias são as histórias dele enfrentando Rei do Crime, Cabeça de Martelo, Cabelo de Prata (que até é mencionado no início do filme) e tantos outros. Até o Camaleão já atuou como gângster e poderia ter sido um inimigo épico na nova película.
Mas aí, o filme decide colocar como antagonista... Jean Grey??? Com tanto vilão pra escolher, por que logo uma heroína mutante? Com todo mundo querendo ver novos vilões do Cabeça-de-Teia nas telonas, uma comunidade inteira implorando pra ver a Gata Negra como antagonista/par romântico... para quê recorrer a uma personagem que deveria ser aliada, em primeiro lugar?
Esse é o maior problema do MCU atualmente, os filmes já não funcionam mais de forma fechada. Eles servem para apresentar personagens, deixar ganchos e entregar fanservice. E para o público, parece que isso basta e os furos de roteiro são deixados de lado. Pouco importa que não faça o menor sentido alguém "viver" de ser herói, desde que a gente veja uma pancadaria entre Aranha, Hulk(o que esse cara tá fazendo ali?) e Justiceiro.
O Aranha sempre é tido como um dos heróis mais populares de todos os tempos justamente por conta de sua contraparte humana: Peter Parker. Alguém com problemas mundanos com os quais poderíamos nos identificar. Sempre foi assim e é por isso que Homem-Aranha 2 de Sam Raimi, por exemplo, ainda é um filmaço até hoje.
Mas em Um Novo Dia, os únicos momentos de Peter Parker que vemos é dele tentando se agarrar a uma vida passada. Ao invés de seguir em frente e conhecer gente nova, o cara continua obcecado com pessoas que ele deveria deixar pra lá.
Fomos levados a crer que nesse filme acompanharíamos não apenas a evolução do Aranha no MCU, mas também a reconstrução de Peter Parker. O que esse cara faz para viver, afinal de contas? Por que ele não está na faculdade como os ex-amigos? Nenhuma explicação é dada.
E aí enfiam na trama um dos piores arcos da história do personagem na HQ - "O Outro" - como que para justificar a origem da teia orgânica que ninguém pediu. E o filme todo ele lutando contra essa transformação para... nada. No fim não faz diferença alguma. Então, pra quê tocar nesse assunto, afinal de contas? Só pra dizer que a Aranha "amadureceu"? Que troço mais sem sentido.
Ainda mais se pensar que, nos quadrinhos, a Marvel insiste em manter um Peter Parker jovem há mais de 60 anos. Os piores arcos de sua história ocorreram justamente por conta dessa insistência de não permitir que o personagem amadureça. E agora fazem o oposto no filme, do jeito mais bizarro possível.
Sim, o filme tem seus pontos positivos e a dinâmica dele com o Justiceiro está bem legal. Mas com tanto potencial a ser explorado, a história se concentra mais no problema mutante - algo que deveria ser tratado num filme dos X-Men - do que na história do personagem-título. Não chega a ser um filme ruim. Mas não é um filme do Homem-Aranha.
Não se deve criticar um filme pelo que ele "poderia ter sido", mas assim como no último filme perdeu-se a oportunidade de vermos um Sexteto Sinistro, agora perde-se uma excelente oportunidade de vermos uma Guerra de Gangues nas telonas. Não teria sido muito melhor ver Aranha, Justiceiro e Demolidor brigando entre si no meio de uma trama com bandidos urbanos? É, quem sabe na próxima.






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