Como enfermeira obstetra que atuou por décadas dentro de um sistema médico-hegemônico hospitalocêntrico (focado na cura e no ambiente hospitalar) - que insiste em se manter no modelo centrado na doença e não na pessoa - eu gostaria de explorar no meu livro esse incômodo que me acompanhou durante toda minha vida profissional.
Se acontece ainda hoje, como era para as enfermeiras de 50 ou 100 anos atrás? Eu conhecia a história e a luta de enfermeiras importantes do passado que ainda são referências teóricas nas faculdades de enfermagem. Então, sabia o que poderia encontrar. E esse foi um dia motivos para escolher o tempo e o lugar da minha ficção histórica: década de 30/40, Londres, e direto na fonte - sede da escola fundada pela enfermeira mais importante da história: Florence Nightingale.
Vamos ao que encontrei e ao que você, certamente, vai encontrar no Livro de Horas de Evelyn Stanton:
A escola que formava soldados, não enfermeiras
Pesquisar a Escola Nightingale dos anos 1930 foi encontrar um sistema construído sobre hierarquia e disciplina, não sobre cuidado. As probacionárias (como as alunas eram chamadas no primeiro ano) comiam separadas dos médicos e das enfermeiras staffs, em mesas escalonadas por status até o fundo do salão. Tocar um paciente com afeto — mesmo uma criança com febre — era falta grave:
— "Não estamos aqui para ser mães. Nós curamos corpos, não embalamos corações." (Diálogo entre a Sister de Ala e a Protagonista, no livro)
O controle ia além dos corredores do hospital: namoro e casamento eram proibidos durante a formação, e uma gravidez significava expulsão sumária. As alunas eram obrigadas a usar o uniforme mesmo fora do hospital — uma vigilância disfarçada de "valorização e respeito social", mas que, na prática, garantia que o controle institucional as acompanhasse até nas horas livres.
Esse não é um exagero dramático para dar tensão à ficção — é o retrato de uma estrutura real, desenhada para produzir obediência antes de produzir cuidado.
Que tal conhecer mais a jornada da protagonista Evelyn Stanton?
Londres, 1928. Uma menina de doze anos vê a parteira que cuidava da própria mãe ser afastada por um médico soberbo demais para ouvi-la — e vê o próprio pai decidir, diante dele, qual das duas vidas naquele quarto importava mais. Ela faz uma promessa naquela noite, uma que vai moldar cada escolha do resto da sua vida.
Décadas depois, Evelyn Stanton é parteira no St. Thomas Hospital, sobrevivendo à hierarquia implacável de um sistema feito por e para homens, à tutela ambígua do brilhante e frio Dr. Matthias Adler, e ao afeto de um piloto da RAF que a faz lembrar que também pode viver, não só resistir. Quando a Segunda Guerra Mundial chega e Londres mergulha na escuridão da Blitz, Evelyn e um pequeno grupo de mulheres constroem, dentro do próprio hospital, uma revolução silenciosa contra um sistema que trata o corpo feminino em trabalho de parto como número, não como pessoa.
Estruturado como uma carta-memória de Evelyn, já madura, para a filha que criou — e que nunca soube de tudo —, o romance atravessa quase cinco décadas entrelaçando ficção histórica, ambiguidade moral e um fio ancestral que conecta gerações de mulheres que protegeram o mesmo saber sobre nascimento e corpo.
Para quem ama os romances de Isabel Allende, Kristin Hannah e Kate Quinn — e quer discutir num clube de leitura se um antagonista pode ser redimido, se ambição e integridade cabem na mesma mulher, e o quanto do que Evelyn enfrenta ainda ecoa nos hospitais de hoje.






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