Tenho produzido alguns vídeos para analisar o comportamento que venho observando nas discussões políticas e históricas nas redes sociais. À primeira vista, é fácil cair na ilusão de que estamos diante de um embate de ideias. Contudo, o que ocorre nas caixas de comentários não é dialética, mas uma performance de pertencimento e a defesa febril de dogmas. O pensamento crítico, que deveria ser uma ferramenta para ler a realidade material e suas contradições, foi sequestrado por uma postura que me arrisco a chamar de seita. A teoria virou uma "religião profana", na qual autores clássicos são elevados a divindades intocáveis e suas obras passam a ser tratadas como textos sagrados.
Para que uma teoria cumpra o seu papel de analisar a sociedade, ela precisa aceitar as complexidades do mundo real, inclusive as falhas materiais de seus próprios fundadores. No entanto, quando a ideologia se torna dogma, qualquer apontamento factual sobre a vida de um pensador deixa de ser visto como contexto e passa a ser encarado como heresia. Nesse cenário, a reação ao fato histórico nunca é metodológica, mas sim inquisitorial. O indivíduo fanatizado não consegue processar que o ídolo possuía dependências financeiras ou incoerências, pois isso desestabiliza a sua própria identidade. Defender o autor não é mais proteger uma ideia econômica ou social, é proteger o próprio ego. Por isso, questionamentos simples geram fúria desproporcional: ao tocar no ídolo, toca-se na estrutura que sustenta a visão de mundo daquele indivíduo.
O ambiente digital funciona como um grande palco onde a militância opera para uma plateia invisível. Nesse ecossistema, parecer mais "puro", "radical" ou "bem lido" é a moeda de troca para ganhar status no próprio grupo. Esse fenômeno cria a figura do patrulheiro ideológico, aquele que ronda a internet pronto para carimbar qualquer divergência com rótulos extremos. Se um fato incoda, a resposta imediata é o espantalho: quem trouxe o dado é tachado de "liberal", "fascista" ou inimigo das causas humanitárias. Trata-se de uma cortina de fumaça. Ao acusar o outro de defender atrocidades desconexas do tema original, o patrulheiro tenta desviar o foco da sua incapacidade de refutar o argumento central.
A fragilidade dessa postura se revela na velocidade com que a máscara do "intelectualismo" derrete sob pressão. Podemos observar esse colapso em dois arquétipos muito comuns:
O panfletário do sarcasmo ao grotesco Este perfil entra no debate ostentando superioridade através do deboche e de ironias finas. Contudo, ao ser confrontado com uma pergunta simples ("por que um fato histórico te incomoda tanto?"), o verniz desmorona. Sem argumentos, a ironia "refinada" cede espaço a ofensas pessoais, ataques familiares e acusações apelativas. O intelectual de fachada revela-se apenas alguém tomado por ódio gratuito, incapaz de manter a urbanidade básica.
O acadêmico de primeiro semestre Este surge com tom polido, citando regras metodológicas e exigindo "contexto histórico" para desqualificar o interlocutor. É a personificação do erudito. Porém, basta uma resposta firme para que a fachada desabe. Em minutos, o tom respeitoso dá lugar à arrogância professoral ("você não leu a obra", "isso é burrice"). É a carteirada do pedantismo, frequentemente usada para esconder a imaturidade emocional e intelectual por trás de citações difíceis.
O saldo desse comportamento é trágico. Ao transformar a teoria crítica em um clube excludente e agressivo, essa militância afasta as pessoas comuns. Em vez de construir pontes, o debate afunda no narcisismo. O pensamento que deveria libertar torna-se uma ferramenta de opressão estética nas mãos de quem não suporta a ideia de que o mundo, e os ídolos que o pensaram, são feitos de contradições. A verdadeira dialética morre não pela força de seus opositores, mas pela arrogância de seus falsos guardiões.
A agressividade virou a primeira e única linha de defesa. O debate real exige vulnerabilidade intelectual, ou seja, a disposição de ouvir e admitir que o outro pode ter um ponto válido. Ao adotar uma postura hostil, o indivíduo se blinda: não precisa construir um raciocínio lógico, basta atacar.
Além de nocivo, esse comportamento tornou-se extremamente previsível. Trata-se de um roteiro decorado focado em ataques ad hominem, distorções propositais e slogans de bolha que geram curtidas na própria tribo, mas possuem profundidade zero. Essa padronização reflete a reprodução mecânica de um comportamento de manada, e hoje essa dinâmica é uma ameaça política real. A polarização transformou-se em um modelo de negócios altamente rentável, no qual líderes e influenciadores lucram com a manutenção de um estado de constante histeria.
Enquanto a sociedade gasta energia "jantando" ou "destruindo" o lado oposto, debates vitais sobre infraestrutura, economia, saúde e educação ficam em segundo plano. Trata-se de um problema complexo impulsionado por algoritmos que recompensam o ódio, pela transformação da política em identidade pessoal e pela exaustão do bom senso, que faz com que as vozes razoáveis simplesmente abandonem a arena por esgotamento.
Tempos sombrios.
AL Matos - 03/08/26.






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