Talvez o maior sinal da deterioração de uma sociedade não seja a quantidade de maldade que ela produz, mas a facilidade com que aprende a conviver com ela.
Tenho observado como nos acostumamos rapidamente àquilo que deveria nos causar indignação.
Assistimos ao sofrimento de desconhecidos enquanto tomamos café.
Vemos pessoas sendo humilhadas publicamente e, muitas vezes, transformamos sua dor em entretenimento.
Compartilhamos tragédias, discutimos culpados, escolhemos lados.
E seguimos adiante.
Como se a dor humana fosse apenas mais um conteúdo disputando nossa atenção.
O que me inquieta não é apenas a existência da crueldade. Ela sempre acompanhou a história da humanidade.
O que me assusta é perceber como estamos aprendendo a considerá-la normal.
Já não precisamos conhecer a história de alguém para condená-lo.
Não precisamos compreender suas circunstâncias para desprezá-lo.
Basta que pense diferente, pertença a outro grupo ou represente algo que decidimos rejeitar.
E assim, pouco a pouco, vamos retirando das pessoas aquilo que jamais deveria ser negociável: sua humanidade.
Tenho pensado que o verdadeiro perigo não está somente naqueles que praticam o mal.
Está também na indiferença daqueles que já não conseguem reconhecê-lo.
Porque uma sociedade não se torna desumana apenas quando aprende a ferir. Ela também se torna desumana quando deixa de sentir a dor que provoca.
Talvez estejamos vivendo um tempo em que precisamos reaprender aquilo que deveria ser mais natural em nós.
Olhar para alguém e reconhecer uma pessoa.
Antes de uma opinião.
Antes de uma crença.
Antes de qualquer diferença.
Porque, quando deixamos de enxergar o próximo como alguém digno de amor, respeito e misericórdia, não estamos apenas perdendo a capacidade de conviver.
Estamos perdendo aquilo que nos torna humanos.
E deixo uma pergunta que também faço a mim mesmo:
Em que momento nos tornamos capazes de assistir à dor do outro sem sentir que alguma coisa dentro de nós também deveria doer?
— Duarte Santel
Escrevendo sobre o homem, a fé e o nosso tempo.
Uma reflexão do universo de Uma Sociedade Sem Rosto, minha próxima obra literária.
@duartesantel
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