Antes de ser ficção, isso foi história de verdade — e bem mais perturbadora do que parece.
Um segredo de família, por gerações
O fórceps obstétrico foi inventado no século XVII por uma família inglesa, os Chamberlen. E eles esconderam a existência do instrumento por décadas — literalmente a sete chaves — para manter o monopólio lucrativo de partos difíceis só para eles. Só depois de gerações é que o desenho do instrumento se tornou conhecimento público, e outros médicos — como William Smellie e, mais tarde, James Young Simpson — puderam aperfeiçoá-lo.
Simpson, aliás, é uma figura curiosa nessa história: foi o mesmo homem que introduziu o clorofórmio na obstetrícia e aperfeiçoou o fórceps. Não é coincidência. Mulheres sedadas não conseguiam fazer força sozinhas durante o parto — o que tornava a intervenção mecânica "necessária" com muito mais frequência do que seria em um parto sem sedação.

Um número que ainda hoje choca
Na década de 1930, na Grã-Bretanha, a taxa de mortalidade materna ainda era de cerca de 400 mulheres a cada 100 mil partos. O fórceps, junto com sedativos como o clorofórmio e o Sono Crepuscular, virou símbolo de um parto cada vez mais controlado por médicos — e cada vez mais tirado das mãos das próprias mulheres em trabalho de parto.
É exatamente esse mundo — de intervenção excessiva, de decisões tomadas por médicos e maridos, nunca pela mulher que está de fato parindo — que mata a mãe de Evelyn Stanton no primeiro capítulo do meu livro. E é essa ferida que faz dela quem ela se torna: uma mulher que passa a vida inteira desconfiando de qualquer intervenção que não escute o corpo que está sendo tratado.

Quando o próprio instrumento falha
Anos depois, já parteira, Evelyn enfrenta um pesadelo puramente prático. O depósito de instrumentos do hospital pega fogo durante um bombardeio — episódio que já contei em outro post desta série. Os fórceps saem do incêndio deformados, inúteis. Sem eles, um parto obstruído pode matar mãe e bebê.
A solução que ela encontra não é mais aço. É seda de paraquedas — maleável, resistente, abundante, emprestada da própria Força Aérea. A ideia nasce de um truque contado por um piloto: como tirar uma rolha presa de dentro de uma garrafa, usando apenas um pedaço de tecido inflado.
A parte que ainda me dá arrepio
Eu criei essa cena. Mas, pesquisando, descobri algo que me deixou sem fala: essa mesma ideia — o mesmo truque da rolha, aplicado ao parto — só aconteceria de verdade quase 70 anos depois.
Em 2005, Jorge Odón, um mecânico de carros argentino, viu dois funcionários repetindo um vídeo do YouTube que ensinava a tirar uma rolha de dentro de uma garrafa vazia usando um saco plástico inflado. Naquela mesma noite, teve uma ideia: e se a garrafa fosse um útero, e a rolha fosse um bebê? Essa ideia se tornou um dispositivo real — hoje estudado pela Organização Mundial da Saúde como alternativa mais segura ao fórceps em partos difíceis.
Ficção histórica é isso, para mim: inventar dentro do que é real — e, às vezes, sem querer, chegar um pouco antes da própria realidade.

Se você já sentiu, nem que por um segundo, que precisou lutar por voz sobre o próprio corpo — num parto, numa consulta, numa sala cheia de gente decidindo por você —, essa parte do livro foi escrita pensando em você.
Apoie a campanha e ajude O Livro de Horas de Evelyn Stanton a sair do papel, com ilustrações originais, para chegar até você.
Com carinho, Ayla







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