Essa semana (30-08-26) o time de futebol da minha cidade conquistou a histórica vaga para jogar a final da Série D do Campeonato Brasileiro deste ano; indo além do já conquistado, e também histórico, acesso para integrarem o panteão dos times que jogarão a Série C do mesmo campeonato no ano que vem. Num passado longínquo, dizem até que fomos campeões da Série B, lá em 84. O que eu quero dizer com isso é que não nasci na cidade, apenas cresci e, até onde a minha própria memória é capaz de lembrar, o futebol nunca havia sido algo muito forte por aqui. Ou, pelo menos, era isso que eu tanto acreditava, desde criança, quando ía ao estádio vez ou outra e sempre me fazia a mesma pergunta: "Por que as arquibancadas, gigantescas como são, com um monte de cadeiras para se sentar se ninguém aparece para usá-las?" Levou quase 20 anos, é verdade, mas, dessa vez, finalmente eu pude ir ao estádio e não mais precisar me atentar a essa preocupação, pois nessa cidade sempre teve gente e sempre teve futebol, só faltava alguma coisa mudar.
Talvez o nome do time? Se me perguntassem isso antes, responderia na certa que não me parecia ser o suficiente, algo capaz de recalcular toda a rota da história de um clube — e devo dizer que eu estava, completamente, enganado! — Desde que o nome mudou, outra grande mudança também veio junto: estamos falando aqui de gol, a unidade de medida fundamental do futebol, que sem ela não há resultado, não há nem vitória nem derrota (com exceção dos empates, que não são bem-vindos por aqui). E por n fatores, muitos deles envolvendo dinheiro (nós vendemos o nosso nome, é isso mesmo), o time começou a fazer gol. E gol é um fenômeno que impregna, do tipo contagioso-contagiante. Às vezes, quando você não tem costume de ir ao estádio, você sente até certa insegurança quando chega lá: e se for gol? o que eu vou fazer? será que sei comemorar um gol? vou vibrar o suficiente? certeza que alguém vai achar que não sou um torcedor de verdade. E todas essas questões evaporam assim que lá e vem o primeiro gol. Você se levanta, sem nem precisar pensar, estende a mão, grita, aos mais esquentadinhos até mesmo recorre à palavras de baixo calão, isto é, xinga!, e depois procura alguém para abraçar, para compartilhar do mesmo sentimento que está sentindo, é coletivo, é futebol.
Futebol é sagrado. Não no sentido, unicamente, divino. Digo no sentido de nos arrancar da realidade vital, que demanda nossa vida cotidiana, e nos lançar rumo à uma realidade fantástica, onírica. Onde são 90 minutos, sem contar os acréscimos, em que nos desligamos da nossa mortalidade e adentramos num espaço-tempo em que regras inventadas tomam as mesmas proporções que têm as noções aritméticas das ciências naturais, de existência. Um gol, a unidade de medida, ele passa agora a existir. Não existir como uma ideia, um combinado, e sim como substância. Não é algo aleatório, ou arbitrário, onde às vezes pode acontecer ou deixar de acontecer. Ele existe e acontece. Você é capaz de identificar um quando o vê acontecer, eu também sou, o gol nos alcança, alcança até mesmo aqueles que nunca jogaram uma partida de futebol na vida ou que dizem não gostar de assistir ou acompanhar homens atrás de uma bola. Mas, vale dizer, não só o futebol é sagrado, como muitas outras coisas também o são. E é por isso que o futebol é uma dessas coisas que gosto tanto, sem nem mesmo ser um de seus grandes espectadores que o aprecia tão bem.
Semana que vem, voltarei ao estádio. Será o jogo de volta, o segundo jogo da final que decidirá quem será o grande campeão da — disputadíssima — Série D do Campeonato Brasileiro de 2026. E, daqui em diante, espero ver cada vez mais pessoas ocupando todos os cantos das arquibancadas, esbanjando seus gritos e emoções, para nunca mais ter de me preocupar com as tantas cadeiras que um dia já estiveram tão vazias.
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heitor



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