Esse é mais um: [crianças dizendo Pa-pi-nho].
Já falei sobre Até o Futuro, da Emma Straub, algumas vezes aqui. Na história, a gente acompanha a Alice descobrindo que pode voltar no tempo para o aniversário de 16 anos dela sempre que passa alguns momentos em um lugar específico. Todas as ações dela no passado mudam o futuro, e o que começa como uma série de viagens para encontrar a vida que ela sempre quis acaba virando uma porta para se reconectar com o pai dela, que é um autor renomado e tá em coma no hospital. É um livro sensível, um dos meus favoritos, e que sempre me lembra do meu filme favorito.
Questão de Tempo conta a história do Tim, que herda a habilidade de viajar no tempo do pai — uma premissa um pouco machista, diga-se de passagem —, mas que começa a usar essa habilidade mais ou menos como a Alice. É um filme de romance, só que eu assisto de maneiras diferentes a cada vez: ele é ficção científica, é comédia, é drama. E a parte dramática tá justamente na relação que ele tem com o pai — que também é um contador de histórias excelente — e que faz uma revelação bombástica no final, mudando a forma como o Tim lida com essa viagem.
Então, até agora, o que nós temos em comum são: viagem no tempo, pais e drama. (Dá uma risada leve) Perdão, mas isso é muito engraçado pra mim. Além disso, eles passam pelo luto de pessoas que ainda estão vivas.
Na música Literatura, do Jão, a canção narra o que seria o estágio de negação do luto. O eu lírico, na figura de escritor, tenta de toda forma reescrever a narrativa enquanto nega a perda. Ele tenta criar novos cenários, manipular as linhas, mudar o mundo — tudo para não ter que lidar com a dor da partida de alguém querido. Essa música tá ligada ao falecimento do pai do Jão, e fica evidente quando ele cita "Bela", uma alusão direta à irmã dele.
Assim como a Alice, o eu lírico de Literatura faria de tudo pra mudar o presente. Assim como o Tim reescreveu a própria história para não ter que lidar com as perdas que surgiam. Não são apenas as viagens no tempo que ligam todos aqui, mas a dor da perda.
Nesse ponto, eu já falei tanto de morte que você deve estar imaginando que o meu avô morreu. Não ainda. Mas, em partes, ele já se foi... e não vou me aprofundar nos detalhes do caso dele.
O meu avô, assim como os pais desses personagens, é um homem de muitas histórias. Mas, mais do que isso, ele amava contar essas histórias.
Embora o meu vô não seja um escritor famoso, não tenha um livro publicado, e nem tenha me passado o poder de viajar no tempo... acho que foi com ele que eu aprendi a amar narrativas, por mais simples ou inusitadas que fossem.
Uma vez eu menti muito seriamente que o meu vô tinha inspirado o Chico Bento... (risos) ...porque ele cresceu na roça e, vira e mexa, narrava um causo de como roubava melancias na horta do pai da minha avó. Um lance meio Chico Bento, Nhô Lau e Rosinha naquele episódio icônico do causo da melancia. E a minha avó confirma os fatos!
O lance aqui é que quanto mais eu olho para essas histórias e essa múscia que tanto eu amo, mais eu percebo como, no fundo, nós somos feitos das pessoas que nos acompanham durante a vida. E mais eu entendo que encarar o luto, por mais complexo que virá a ser, não precisa ser horrível.
Não quero romantizar esse aspecto da vida. É só que quanto mais penso, mais grato vou ficando pela presença do meu avô na minha vida. Por mais que ele não fosse perfeito, penso que se não fosse pela nssa convivência, eu seria incapaz de contar histórias como conto hoje.
A gente não tem a viagem no tempo de Questão de Tempo, a gente não tem o portal da Alice pra voltar pros 16 anos, e a gente não consegue mudar os fatos reais com caneta e tinta como na música do Jão.
O luto é inevitável. Mas a finitude também ensina.
No fim, eu entendi que as pessoas que a gente ama não desaparecem por completo quando partem. Elas continuam vivas no jeito que a gente conta um causo, na arte que a gente produz, na nossa capacidade de amar histórias e no sentido que a gente decide dar pra vida daqui pra frente.
Do meu vô, fico com as histórias, os abraços, as piadas sem noção, a força e o bigode que ele esfregou na minha bochecha pra que eu pudesse ter um também.
Eu não posso parar o tempo. Mas enquanto eu continuar contando a história do meu vô roubando melancia na roça… Na verdade, enquanto eu continuar contando qualquer história, ele nunca vai embora.
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