Oi gente!
Estamos testando um novo jeito de compartilhar os Pequenos Contos e Cartas e Conversas Perdidas por aqui no catarse, para ver no que dá. É legal porque vocês podem comentar, traz as pessoas para a plataforma nova do catarse (vocês já deram uma olhada?) e também deixa isso fixo em um lugar que não seja só um arquivo pdf solto pelo mundo... (Mas contem pra gente o que acharam, o feedback de vocês é importante!).
Se você caiu de paraquedas aqui, os Contos são metas de pix batidas nas lives do mês, e organizamos as votações em nosso discord com as sugestões dadas pelo público via pix. A personagem mais votada ganha um conto (ou Carta, ou Conversas Perdidas, ou Sondagens, dependendo da meta). Você pode sugerir suas personagens favoritas via pix nas lives, e depois fazer campanha e votar nelas.
Esse é o Pequeno Conto #13, e tem muito mais no nosso discord: Carta do Leon, Carta da Maria, Conversas Perdidas da Coroa de Kraken escolhendo o nome dos bichos, Conto da Princesa Narcisa, Conto da Alícia, e uma quantidade enorme de Pequenos* Fatos Sha'alarianos dos mais diversos tipos (Dragões, Deuses, Arquimagos, Magia Interseccional)... E muito mais!
O link para entrar no discord é esse aqui: https://discord.com/invite/TwK8bVJPSz
Agora vamos ao conto #13, da Viúva (De Mil Olhos do Kraken).
Com amor,
Luc
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Pequeno Conto #13 — Viúva
Você consegue ouvi-los, meu soberano? Acho que estão todos mortos, já. É difícil ter certeza, porque continuam gritando, mas há quem grite por uma eternidade inteira depois da morte, e até depois disso. Você mesmo, por exemplo, continua gritando até agora, e está morto, enquanto eu só grito às vezes e estou vivíssima. Ou será o contrário? Não sei também, porque ainda falta tanto tempo que isso aconteceu, depois que as estrelas apagaram, que eu já me esqueci. A única coisa que continua presente aqui é a sua agonia. E a minha.
E os gritos!
Ah, mas eles gritam tão alto, não é? Dói o coração, mas é um afago nos ouvidos. Assim como a sua voz será um dia quando a gente se conheceu, meu soberano. Você ajoelhado no sangue, a boca cheia de areia, e eu, nua, como sempre, a caminhar sob a superfície do mar imersa em bolhas do mais terrível dos amores, da mais bela de todas as tragédias. Como eu vou ser triste quando você nascer! Ah, meu coração não vai aguentar de tanta emoção…
Não, pare de me distrair, nós estávamos falando acerca dos mortos… Eu não acho que sejam todos crianças, embora muitos se pareçam! Ah, não… Acho que pelo menos um dele atingiu a tenra idade de mais de mil anos, o que não é comum para espíritos de primeira viagem, não é mesmo? Mas o que eu posso fazer. Eles vão aprender. Nós prendemos e mastigamos eles cada vez um pouco mais, e do vidro eles vão se tornando areia com o tempo, ainda que seja uma areia que grita, o que eu já posso evitar mas não pude amanhã. Eu vejo seus rostos ainda, e eles me doem com uma alegria que me faz lembrar de cada filha que eu nunca tive, e olha que todas elas viveram muito mais tempo do que um universo inteiro. Mesmo assim eu sinto saudades. O melhor foi parir cada uma delas, mesmo as que você não me ajudou nadinha. Naquela época você será menos gentil, e a dor foi excruciante pois elas já vieram partidas, vidro afiado e sangue, mas como eu me refestelei na alegria sem tamanho de cada mordida. As que elas me deram e as que eu dei nelas. Claro que eu sempre fui mais forte, mas que culpa eu tenho se você me fará assim quando tudo se iniciou?
É como o conjunto de cartas, o tarô, o Caminho da Alma, como diriam os jovens elfos. Não é possível falar de nada sem falar de si mesma, e eu fico voltando a mim, mesmo que queira muito falar sobre eles, que estão mortos, e não de mim, que estou nua. Nua, lua, morte. Sorte? Forte. Concordo, discordo, discorro, escorro, sangue, sangue. Vidro e sangue. Sempre vidro. Tudo tem sempre que ser vidro rachado para mim? Ah, o espelho se quebra, mas é você quem tem mil faces… Eu só tenho uma. E ainda assim eu gosto de entrar nas coisas para ver como elas são, assim como você entrou em mim no fim de tudo. Ou foi no meio?
Eles me contam segredos! Ah, as crianças, estava mesmo falando delas, com elas, para elas. Uma delas me confessou ter matado muita gente, sem nunca sentir nada. Eu tenho tanta pena de quem não sente nada nem matando, não há bênção que resolva por um instante sequer. É melhor sentir alegria do que não sentir nada, ou pelo menos é o que eu penso a partir de amanhã. Esse eu devorei, mas não deve sentir nada mesmo, pois seus gritos tinham o entusiasmo de uma avalanche, coitado. Tinha essa garotinha também, eu acho que estava muito preocupada com seus netos… Cada um deles não mais que uma folha, um feto, pobres elfos e seus impérios de ouro e magia, vivendo sempre com medo dos humanos e suas brincadeiras de mau-gosto. Imagine só, onde que já se viu quebrar a vontade dos deuses? E depois cuspir fora, os elfos tiveram medo, colocaram tudo numa bola e cuspiram. Adiantou foi é quase nada. Mas essa garotinha, eu falava dela, pensava muito em espiral… Plantou uma árvore enorme e chamou de mãe de todos, mas não foi ela quem pariu… Fazia perguntas para responder com o coração, sentia muito, isso eu não me recordo ainda, mas foi você quem disse. Quando eu morri da primeira vez, levei ela comigo e fui mastigando até o outro lado. O senhor do portão me disse para passar, mas eu cuspi a garotinha nele e acabei voltando, só de raiva. Ninguém me diz o que fazer! Só você, meu soberano, e daí eu obedeço. Mas você nunca mais me disse nada desde que você vai morrer. Eu falo sozinha e é por isso que eu me perco.
Mas eu voltei e a garotinha acabou voltando comigo, e ela é uma das que mais grita. Eu às vezes detecto alegria, usando as magias que você vai me ensinar, especialmente quando eu mergulho em madeira. Teve aquele navio, naquela vez, madeira torturada, triste… Ele gritava mesmo, e a garotinha queria morder ele sem usar os dentes, uma lástima, e estrangular sem tirar o ar, porque ela achava que o navio era a filha dela, e talvez fosse, quem sou eu para saber? Eu não sei de nada. Só o que os outros me contam, e o que eu nasci sabendo, mas isso não mais do que a quantidade de estrelas que tem numa praia… Ou de grãos de areia no céu. Nadinha, é tudo vazio. Eu já soube muito mais, mas vou esquecer um dia, então já esqueci e ficou tudo por isso mesmo.
Eu sempre deixo tudo por isso mesmo, acho que deve ser algum medo que eu tive. Uma reflexão boa de se ter. Infelizmente com o espelho partido, cada reflexão é tão pequena que não cabe muita coisa ali. São todas diferentes, assim como eu também sou, mas talvez elas tenham desejo de voltar a ser uma? No meio de tudo isso vai acontecer, mas eu confesso que não gostei de ter tanta alegria junta em meu peito. Prefiro as pontas.
Especialmente sem você do meu lado.
Vamos voltar pro começo de tudo? Quando as pontas dos dentes Daqueles Lá se refestelam sobre todos nós e não vai existir nada que a gente tenha feito para amenizar a dor? Eu me lembro disso com ansiedade. Ou então que tal falarmos da minha mãe? Ou da sua? Ou melhor falar da minha mesmo já que eu sou só uma e ela não.
Quando eu dei-la escuridão, lembro-me de que esse sentimento virá com uma fome tamanha, que surge durante. Ela era cheia de momentos, precisava que tudo fosse de seu jeito, estava sempre enfiando bicos de peito em minha boca e exigindo que não mordesse. E eu, voraz como serei nessa época, aos prantos reagia, fui mastigando-a aos poucos. De tudo o que meu pai fazia com ela, sempre muito violento para que ela não corresse o risco de não sentir nada, acho que o que mais mexeu com ela foi que eu a mastiguei aos poucos. Hoje, ela ainda grita, mas com menos frequência do que no fim de tudo gritará. Meu pai grita de maneira mais frequente, e eu fico feliz por ele, pois sofrer para sempre é a maior das bênçãos que alguém pode esperar. Rezo ao meu soberano que, se apenas uma de Vossas Mil Faces sobreviva, seja a do sofrimento, ainda que apenas gritando nos estômagos eternos Daqueles Lá. Isso para mim foi o suficiente.
Temo nunca ter discutido lêndeas com tanto afinco quanto aquele rapazote dos cabelos raspados. Uma pena, uma pena, tantas quanto um pássaro, e olha que são muitos os que existem, de todas as cores, existem que eu saiba mais do que três, como parece ter sido sempre a praxe. Tudo o que existe existe em mais do que três.
Exceto você, meu soberano, você é único e só existem mil de você. Como é bom sangrar! Significa que se está morrendo! E se há algo mais belo nessa lua acanhoada, então deve ser feito de cacos de vidro.
Você deve estar se perguntando por que ainda estou rezando para você, se nunca nasceste ainda. Mas não é exatamente isso que é a devoção? Ajoelhar sobre as agulhas do tempo e deixar que o sangue da menstruação corra na direção de um passado que ainda não aconteceu? Foi você quem vai me dizer isso quando morrer. E que mordida nos daremos nesse momento, arrancando língua e espírito, e nada daquela forma que a garotinha queria morder a madeira sem usar os dentes. Não! Uma mordida de verdade, do tipo que começam dois e apenas um termina, e esse um será sempre você pois você é o soberano e eu nada além daquela que espera pela sua morte com o mesmo afinco com que tramou seu nascimento.
Você me dará um nome, por favor? Eu me ajoelharei outra vez, frente ao espetáculo de sua magnitude, e você cuspirá em mim um nome feito de sangue e bile, as suas, as minhas. Esse nome será meu cordão umbilical com a morte eterna e o sofrimento. Por favor me chame de Natália, ou de Horrenda Prece de Sangue Ao Mestre Que Não Virá, eu prometo que ambos me contemplarão com tanto afinco quanto todos os dentes da besta perfurando o seio de Santa Cassandra, mas eu gritarei ainda mais do que ela. E quando eu me levantar, meus inimigos terão todos cacos de vidro enfiados em seu peito, e não compaixão. Nem os meus amigos terão compaixão. Não, cacos de vidros para todos eles, e os segredos que vazarem serão nossos.
Serão nossos filhos.
Abençoado seja todo aquele que foi nosso filho, o sangue misturado com a sua inveja de mim, e deles nasceram todos os povos do mundo, gotejando em vida e sofrimento, exceto por aqueles que nunca sentiram nada.
Existe tanta beleza por toda a parte que eu nem sei mais contar. Queria te agradecer por isso, porque pedir eu já não peço nada nunca exceto por meu nome e pela chance de ser abandonada no altar da vida. Eu me vestiria de noiva para que você me matasse todos os dias daqui até ontem. Mas volto aos agradecimentos: tem tanta tristeza no mundo! O elfo que chora pela morte daquele que vai morrer daqui a pouco, só cem anos atrás, os dois tão jovens… Ele quer me contar algo, eu sei, mas darei o tempo a ele. E há aquele outro, meu grande amigo, uma folha em branco que não sente nada… Tanta tristeza nessa bela imagem. Para mim, claro. Como sou grata! Pelos filhos que eu perdi, isso a cada dia te agradeço de um jeito diferente, e pela morte que me cerca. E essa cidade prestes a ser destruída? Caio de joelhos de novo só de pensar… Com que devoção vi essa tragédia e me lembro com tanta saudade que temo explodir antes de tomar minha parte nela. Todo aquele sangue fluindo… Eu só quero morder tudo. E pelo meu belo baralho, aquele que eu fiz com minha própria alma misturada na tua, e que dá presentes tão belos e tão terríveis. O que eu mais amo em você é que você nunca sabe nada do que aconteceu.
O que você mais odeia em mim é que eu sei tudo o que acontecerá, mas esqueci.
E de braços dados nós nos estilhaçaremos. Eu recolhi os cacos, você morreu no começo e nascerá no fim, e de alguma forma tudo é como não deveria ser.
Hoje portanto eu lhe ofereço a carta mais bela do baralho todo… O Espelho. A sexta carta na jornada para trás de si, o Espelho é a etapa em que você olha para si mesmo pela primeira vez, e reconhece o caminho para trás. Tudo o que foi realizado no futuro fica muito claro, e você pode olhar os próprios olhos e tentar morder sua própria boca… O resultado é sempre os cacos, porque o Espelho Sempre Quebra (graças, soberano, graças!), e a boca cheia de sangue é necessária para atravessar na direção do resto do caminho. A carta que eu tenho mostra você, e mostra a mim, e seus olhos são vívidos, e o espelho já não se partiu, mas ainda vai trincou, e sempre que eu a tiro ela me dá tanta vontade de morrer que tudo o que eu posso fazer é morder a vida com todo o entusiasmo que é negado a alguns.
Eu queria ter sido um navio, mas serei espelho. Eu quererei ter sido solidão, mas fui você e você fui eu, e as minhas cartas de amor foram todas escritas com o sangue de outras pessoas. Um dia eu cheguei até você, e caminho de costas desde então, procurando encontrar tudo o que ficou para frente. A mais bela de todas as jornadas é a minha, e termina em me desfazer em você no começo, enquanto a sua é a mais difícil de todas, e envolve dentes, altares, e morder cada um dos meus dedos, como eu mastiguei a minha mãe. Eu sinto sua falta como toupeiras saindo de meus ouvidos, e os bicos de meus peitos têm toda a morte gotejante do mundo esperando por você. Infelizmente no meio de tudo isso eu faço as tarefas que mando os outros ordenarem: polir roupa, pendurar louça, cozinhar a cama e trazer a comida à vida. Faço isso, como tudo, pensando em você.
Se falo de você em tudo o que digo, e falo de mim em tudo que digo, o que isso diz sobre tudo o que não posso jamais dizer? O que calo é tão importante quanto cada fio de cabelo nos olhos delicados de suas mãos.
Se eu pudesse dar à escuridão mais um milhão de gatos só para você, eu o faria com toda a incerteza do mundo, apenas para poder te ver um instante mais tarde. Sua eu sou, mas minha você jamais foi.
Há tantos outros que gritam que eu guardo com carinho… Eles me salvam do silêncio da espera pelo passado… Não há mais ninguém aqui que pode ouvi-los exceto por mim… Então eu sou uma boa garota e escuto tudo. Matar a irmã com abelhas? Sim, querida, com prazer. Medo de ser amado? Tedioso, repetitivo, tremendamente forte. Sempre tenho medo de ser inferior a todos e portanto ajo ao contrário? Uma mordidinha e grite mais alto, por favor. Eu sinto falta do jovem que matou a todos por sentimentos fortes do coração, e também daquele que quer ser como você e anda onde ninguém convida. Mas ainda nãos os peguei. Eu sinto falta dos famintos, e eles virão e eu estava lá com você quando eles vierem. Eu sinto falta do que se sacrificou por nada e grita de frustração e de tristeza… Mas, mais do que todos, eu sinto falta daquele que ousou tentar te matar… Esse eu jamais perdoarei, e espero que nunca sinta nada, mas não posso prometer.
Amanhã eu estrangulei mais dois, e com quanto amor! O primeiro foi transformado em cinzas pela raiva de outrém, e quanto medo tinha disso e de todo o resto… Tinha um filho que não pariu, coitado, e um navio que queria ser estrangulado pela garotinha, mas seu medo real era do fim… Acho que havia esquecido de que já acontecerá tudo. O segundo é um favorito, eu confesso. Quase me escapou, e era arisco com seus segredos! Aquela luz cristal dos tufos quase me roubará outra vez, mas não agora. Ele me escolheu e me abraçou, e foi dos melhores porque escolheu não sentir nada, acha que é um punhal… Mal sabe que na verdade ele é só mais um dos filhos que nós ainda vamos colocar no mundo apenas porque morreram antes para semear seu sangue sobre nós dois.
Mas me canso desse derramamento do altar sobre mim mesma. Eu que não sei de tudo conto para você que sempre saberá de nada, e conversamos assim como se eu fosse viva e você morta. Desses outros que trago nas minhas cartas, te falo às vezes, quando você se lembra de responder… Continuam gritando, estejam vivos ou mortos, e sua agonia faz meus dias mais longos, e por isso te agradeço.
Agora eu tenho tanta beleza para espalhar pelo mundo em minha outra prece a você.
Que os cacos nos partam lentamente, de dentro para fora, como um dia eu soube que farão.
Aguardo em terror eterno pelo início, sempre com saudades do fim.
Não se esqueça da sua esposa eterna e ela jamais te abandonou.
Assim foi, será e é.






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