O PIMPEX Mulheres Guerreiras - BH aconteceu dia 23 de outubro de 2016 em Belo Horizonte. As realizadoras, Luciana, Silvia, Juliana e Heloísa aproveitaram o evento para propor a roda de conversa: Mulheres Catadoras e o trabalho nas ruas de BH.
Sigam como foi o dia e as fotos do evento!
Texto por Juliana Gonçalves e Luciana Duarte
Fotos por Sílvia Xavier e Ana Carolina Ogando (WIEGO)
A temática de gênero
A ideia de trazer o debate de gênero e a catação dos recicláveis junto da ação PIMPEX veio com a parceria junto à ONG Woman in Informal Employment: Globalizing and Organizing (WIEGO) que já tem experiência em trabalhar a temática junto com as catadoras de materiais recicláveis. A temática de gênero então orientou o olhar para as questões do PIMPEX que até no momento foram a reforma e a intervenção artística do grafite.

Foto: Carrinhos das catadoras sendo pimpados pelas grafiteiras, stencil feito para auxiliar os grafites e roda de conversa: Mulheres Catadoras e o trabalho nas ruas de BH
A reforma dos “carrinhos”
Em primeiro lugar, é preciso compreender que o termo “carroça” não é usado no contexto de Belo Horizonte. Os catadores de material reciclável que realizam atividade na cidade denominam seu equipamento de transporte de “carrinho” e não “carroça”. Dado que “carroça” refere-se a veículo de tração animal o uso desse termo para os catadores é considerado depreciativo.
“Quem puxa carroça é asno, é burro, nós é gente, trabalhador, nós puxa é carrinho”.
Foto: Ermira e os voluntários Silvia e Frederico, do PIMPEX, com o carrinho antes da ação
Quanto à reforma, cada catadora demandou intervenções diferentes. A catadora Ermira Maria Oliveira associada da Asmare – na foto acima – solicitou a troca da grade de madeira por uma de metal para diminuir o peso na coleta de mais material e, consequentemente, reduzir o desgaste físico com o peso do seu carrinho.
Foto: Maria Helena é catadora, não faz parte de organização de catadores e trabalha junto a um depósito de materiais recicláveis
Já a catadora Maria Helena – na foto acima – ou Mudinha como é conhecida no depósito que trabalha, é moradora de rua. O carrinho da Mudinha além de ser seu instrumento de trabalho é também sua casa. A demanda da Mudinha foi para melhorias no carrinho que ela utiliza há mais de 15 anos como adaptações no freio e alguns detalhes estruturais.

Foto: Carrinho da Ivone retornando para a Asmare com auxílio dos voluntários do PIMPEX
A terceira catadora participante, atendida devido a um re-alocamento de recursos, foi a Ivone Aparecida Debem. Ela também é associada da Asmare e o carrinho dela é bem cuidado e não precisou de tanta reforma. Pela boa conservação de seu carrinho, a Ivone solicitou a pintura de seu carrinho de rosa. Como outros catadores pedem o carrinho emprestado com muita frequência, ela acredita que pintá-lo de rosa poderia ajudá-la, diminuindo essa demanda de empréstimo. Infelizmente a Ivone não pôde comparecer no dia da ação e os parceiros do projeto auxiliaram no deslocamento do carrinho da Asmare para o Viaduto Santa Tereza, o local da ação.

Foto: Edmárcio na segunda edição de PIMPEX em BH
A reforma de todos os carrinhos foi coordenada pelo catador Edmárcio Ferreira – na foto acima – que realiza trabalhos de serralheria e marcenaria na Asmare e possui conhecimentos práticos em reparos e reforma de carrinhos. Além do atendimento às demandas de reforma das catadoras, foram colocadas placas de PVC nas grades para aumento da área para o grafite. As placas foram reutilizadas a partir do material de display comunicacional das Olímpiadas Rio 2016, envolta do Estádio Mineirão (Pampulha, Belo Horizonte).
Mulheres grafiteiras
Para a pintura das carroças, foram selecionadas somente mulheres artistas. O grafite também é uma atividade onde poucas mulheres possuem um espaço significativo e, por esse motivo a arte dessas mulheres precisa ser valorizada. Dessa forma a escolha de grafiteiras mulheres para realizar o trabalho artístico proposto pelo PIMPEX pretendeu atuar nessa questão da valorização da presença feminina.

Foto: Da esquerda para a direita, de cima para baixo: grafiteira Kawany, Samis, Olívia, Biga e o carrinho da Ermira e da Mudinha
Os grafites foram realizados no dia 23/10/16 debaixo do viaduto Santa Tereza - um espaço urbano de referência voltado à cultura de rua, principalmente do hip-hop e de arte de rua. As artistas que participaram foram Samis, Biga, Ádila, Olívia, Manu e Kawany.
A realização da ação só foi possível com a captação do recurso através do financiamento coletivo online na plataforma Catarse.
E por isso, nosso muito obrigado a vocês, apoiadores!
A roda de conversa

Foto: Na esquerda, Olívia, Clero, Júlia, Erich, Mudinha e Juliana participando da roda de conversa, além de uns curiosos; na direita, cartilha de gênero feita pela WIEGO que auxiliou algumas reflexões e discussões junto às catadoras
A roda de conversa foi proposta pela WIEGO com o objetivo de politizar o PIMPEX focado nas mulheres trazendo a questão de gênero e racismo como pauta de reflexões coletivas. A roda foi coordenada por Sonia Dias e Ana Carolina Ogando que convidaram a ativista Diva Moreira, importante referência do movimento negro, para mediar as discussões e ressaltar alguns elementos para reflexão. Composta pelas catadoras, grafiteiras e colaboradores, a roda de conversa formou um grupo de cerca de 20 pessoas.

Foto: Da esquerda para a direita, de cima para baixo Diva, Sonia e Pedro; Mudinha, Juliana e Biga; Olívia, Júlia e Thiago; Samis, Manu e Diva participando da roda de conversa
Temas como invisibilidade social, discriminação das mulheres e preconceito racial foram problematizados. Observa-se a necessidade de ações reflexivas constantes sobre a situação de discriminação de gênero e raça no Brasil, pois ficou claro como ao centrar-se na luta cotidiana pela sobrevivência as catadoras naturalizam discriminações de gênero e raça chegando a ignorar a sua existência.
Considerações
É preciso trazer os catadores e catadoras para o centro das discussões a fim de que estes possam ter sua voz reconhecida e alcancem maior visibilidade na sociedade e nas políticas públicas. Essa intervenção teve como foco deixar emergir a demanda das catadoras, suas perspectivas enquanto mulheres e enquanto trabalhadoras. A temática se mostrou com um potencial significativo e o acompanhamento após a ação pode trazer alguns pontos relevantes para outras discussões e execução de outras ações, além do impacto dessa. A inclusão de uma roda de conversa dentro da ação do PIMPEX trouxe uma sintonia maior entre as grafiteiras, as catadoras e a temática e foi considerada produtiva na visão dos participantes.
Equipe PIMPEX + Roda de Conversa BH
Juliana Gonçalves (Cientista Socioambiental; mestranda em Engenharia de Produção); Luciana Duarte (MSc. Engenharia de Produção; Designer de Produto); Silvia Xavier (MSc. Design and Urban Ecologies; Designer de Produto); Heloísa Gabriela (Estudante de Engenharia de Produção); Grazielle Fernandes (Estudante de Ciências Socioambientais); Júlia Bellini (Estudante de Ciências Socioambientais); Erich Bias (Estudante de Ciências Socioambientais); Thiago Abílio (Estudante de Ciências Socioambientais); Augusto Schmidt (Membro BH em Ciclo); Clero Júnior (Estudante de História e Grafiteiro).
Parceria : WIEGO (Sonia Dias, Ana Carolina Ogando)
Colaboração: Diva Moreira
Apoio: Asmare, Projeto Macarronada Solidária, Real Vandal Grafitti e Teatro Espanca
Obrigado a todos vocês que doaram e proporcionaram mais segurança no dia a dia das catadoras Ermira, Mudinha e Ivone:
José Daniel da Costa, Frederico Birchal, Daniel Bahia Gontijo, Myriam Marques, Mariana Roberti Bomtempo, Maria Lucia de Oliveira Maximo.
10 Apoiadores que não pediram recompensa
4 Apoiadores anônimos
Em 2016, fizemos mais PIMPEX com mulheres catadoras. Das 16 edições realizadas este ano, 4 foram destinados a elas, atendendo 6 guerreiras no total. Temos de fazer mais! Esta questão de gênero é bem real e presente nas ruas e no contexto dos catadores. Em 2017, estaremos aí para fortalecer os debates, falar e atuar mais ainda sobre o assunto!
Ótimo final de ano para todos, nos vemos em 2017!

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