E aí!? Já faz um tempo que eu estava tentando escrever a próxima newsletter, pra voltar a regularidade e trazer uma nova perspectiva sobre um assunto que não falo sobre normalmente, como prometido. Mas confesso que o assunto que eu estava tentado tocar ainda me é bem confuso e difícil de explicar: a saudade.
Então, ao invés de falar de saudade, quero falar de uma outra coisa (ah, e não se preocupem, vou trazer aquele texto sobre rótulos e mercado editorial que saiu no Instagram de maneira mais integral por aqui assim que possível).
O assunto que está rondando na minha cabeça esses dias é:
TENHO MEDO DE SER UMA REFERÊNCIA!
Dia 14 de julho é uma data — não oficial — na qual é comemorado o Dia Internacional das Pessoas Não Binárias. A proposta dessa celebração veio de Katje van Loon, em 2012, por meio de seu blog, e desde então foi adotado pela comunidade. O dia em questão é a data precisa entre o Dia Internacional da Mulher e o “Dia Internacional do Homem” (pois é, essa data existe).
A princípio, a sugestão de Katje não foi muito acessada ou comentada, mas alguns anos depois, ile* viu a data aparecendo em calendários oficiais de organizações como Human Rights Campaign, Stonewall, o site do UK Parliament e do dictionary.com.
Assim, essa data tomou forma nos anos subsequentes e foi celebrada no Brasil pela primeira vez em 2020, tendo ganhado destaque durante toda a semana em torno do dia 14 de julho. Isso foi importante, pois segundo um estudo da Unesp realizado nesse mesmo ano e publicado em 2021, cerca de 3 a 4 milhões de pessoas brasileiras (1,19%) se identificam como pertencentes a esse termo guarda-chuva, que abriga identidades que fogem dos gêneros binários.
Parecem muitas pessoas, e de fato são, mas em comparação ao total de pessoas que temos no Brasil, não é muito. E, vamos ser honestos, apesar de existirmos fora da internet é mais fácil nos identificar através dela, seja por questão de segurança ou escolha pessoal de quem assim se entende.
Fato é que não somos nem de perto um dos grupos com a maior quantidade de representação ou representatividade na mídia, na sociedade ou em qualquer espaço que exista e possa ser ocupado por um ser humano.
Veja bem, não faz muito tempo que, por exemplo, ume personagem de Alice Oseman se assumiu nb pela primeira vez — primeiro nas telas e mais recentemente no último volume de Heartstopper —, ou que tivemos ume personagem minimamente importante numa série de grande alcance, que foi o caso de Off Campus — esse caso veio cheio de desrespeito da internet, então apesar de positivo, se cercou de críticas transfóbicas disfarçadas de opinião pessoal.
Assim, quando conseguimos ganhar e ocupar espaços que, tradicionalmente, não ocupamos, esse destaque acaba sendo atrelado a um peso involuntário da representação de todo um rótulo, e vou confessar que, para mim, isso é muito, MUITO, assustador.
*Os pronomes de Katje são zie/zir, a tradução aqui é livre, mas não os contemplam corretamente
E QUEM É QUE QUER SER UMA REFERÊNCIA, AFINAL?
Com tudo isso dito, preciso esclarecer que não estou me autointitulando uma referência.
Muito a contragosto acabei me tornando uma por conta dessa falta de representação constantemente em todos os meios, até mesmo entre autories — embora, mais recentemente, conseguia reunir uma penca deles em dois posts do Instagram, vários que eu mesme não conhecia.
Sei que isso aconteceu comigo porque ainda esse ano, ume autorie que conheço há anos me mandou uma mensagem contando que, parafraseando, foi por minha causa que elu conseguiu se entender também como uma pessoa fora da normatividade de gênero. Segundo elu, meu conteúdo, minha presença on-line a maneira com a qual abordo o assunto o ajudaram a processar diversos aspectos de sua própria vida e entender que a elu não cabiam os rótulos binários.
Eu acho isso extremamente importante e não foi a primeira vez que ouvi algo do tipo, mas foi a primeira vez que ao invés de me sentir apenas maravilhado e grato por ter ajudado alguém no seu processo de autoconhecimento, também me senti com um peso nos ombros, um assombro. Isso significa que, de alguma forma, eu me tornei responsável por manter uma boa imagem (ou não) das pessoas não binárias no meio em que atuo, o literário.
DA MESMA FORMA QUE NÃO GOSTO DE SER NECESSÁRIO, ME ASSUSTA SER REFERÊNCIA
Esse assombro não vem sem motivo. Ele tem raízes antigas, que fincaram pé na minha vida bem antes de eu entender meu lugar no mercado editorial ou na minha própria identidade de gênero.
Desde muito cedo, fui empurrade para o papel de exemplo. Lembro da minha coordenadora do Fundamental II me dizendo com todas as letras, em uma situação na qual a turma inteira estava descontente com uma professora, que eu "inspirava liderança" e cabia a mim resolver a desavença que assolava a sala. O que parecia um elogio inocente virou uma condenação silenciosa: passei o restante do Ensino Fundamental carregando o peso de ter que ser a referência de inteligência e de conduta da turma. A performance de excelência virou a minha regra de sobrevivência — muito embora eu tenha me permitido ser medíocre durante o Ensino Médio.
Mas o buraco é ainda mais embaixo. Quem faz parte de uma minoria sabe que a busca pela perfeição não é uma questão de ego, mas d eproteção. A gente cresce com o peso sufocante de ter que ser impecável o tempo todo para não fragilizar as relações com os pais, com a família e com a sociedade num geral. É como se a nossa margem de erro fosse zero e, se falharmos, não é apenas o nosso nome que cai, parece que levamos todo o nosso grupo junto.
Quando essas duas pressões se encontram na vida adulta — o trauma da "criança prodígio" e a corda bamba de ser uma dissidência de gênero —, o resultado é um curto-circuito emocional fortíssimo.
Para uma pessoa que passou a vida sentindo que precisa sempre ser a melhor apenas para ter o direito de ser aceita, a ideia de se tornar “necessária” e uma referência para desconhecidos não soa como triunfo. É, na verdade, algo tenebroso, porque de repente, enquanto você está apenas tentando mostrar que você e seus pares tem o direito de existir e se expressar como são, acabam fazendo disso a principal coisa sobre você.
Pessoalmente, talvez o meu maior desafio agora, tanto na vida quanto nas páginas que escrevo, seja aprender a reivindicar o meu direito de errar. De ser imperfeito. De ser apenas eu, sem o peso de um estandarte nas costas. Sendo uma referência, mas lembrando que pessoas que admiramos também podem errar, não querer ocupar esse papel e decidirem apenas não estar mais na internet.
Precisamos sim de referências, mas será que precisamos sê-las?
APROVEITE O MÊS INTERNACIONAL DAS PESSOAS NÃO BINÁRIAS E LEIA “SE NÃO FOR COMO NOS LIVROS”.
Na minha nova novela com Pedro Rhuas, do universo de “O mar me levou a você”, nós damos vida a um amor que encontra abrigo em meio à tempestade
Após deixar a cidade grande para recomeçar em Canoa Quebrada, Céu vive seus dias entre livros na livraria Shakespeare & Canoa, indicando bons títulos aos clientes e tentando esquecer o crush não correspondido no dono da cafeteria vizinha, Tony Massa.
Quando uma tempestade atinge Canoa, cabe a Céu proteger os livros e o gato que mora entre as estantes da livraria. O problema é que Tony — o crush em questão — tem a rara habilidade de aparecer nos momentos mais inesperados e decide ficar ao seu lado até a chuva passar!
Em meio a lembranças de um réveillon confuso, confissões tardias e goteiras que não param de surgir, Céu e Tony terão a chance de reescrever o final da própria história.
COMO APOIAR MEU TRABALHO?
Lendo e Comprando: Você pode encontrar meus livros na Amazon. Ler pelo Kindle Unlimited me ajuda muito, e ter o livro na estante ajuda ainda mais!
Engajando: Um comentário ou um compartilhamento nas redes sociais é o "livro fofinho" que você me dá hoje. Isso aumenta o alcance do meu trabalho de formas que você nem imagina.
No Instagram: Se quiser ver um pouco mais desses bastidores (e quem sabe uma foto antiga de bienal?), chega lá no meu canal!
Agradeço pelo apoio de sempre, porque até mesmo um “pensei em você” ou um “gosto muito do seu trabalho” já me motivam a continuar.
Até a próxima newsletter! Que nunca nos falte lascas de parede.





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