A primeira pessoa que me falou sobre Ivanhoé foi o meu pai. Esse era o nome de um filme que ele adorava quando criança, sobre cavaleiros, castelos, espadas e lutas medievais. Anos depois, descobri que o longa-metragem (de 1952) havia adaptado para as telonas o romance homônimo do escocês Walter Scott (publicado em 1819), considerado o precursor do gênero literário hoje conhecido como ficção histórica.
Como fã desse tipo de literatura, sempre quis ler “Ivanhoé”, mas tinha dificuldade de encontrar uma boa tradução em português — até que ganhei do amigo Anderson dos Santos Costa esse volume antigo (foto), em capa dura, lançado pela editora Nova Cultural em 2003. E o que eu encontrei me surpreendeu por um lado — e atendeu às minhas expectativas, por outro.
“Ivanhoé” é, realmente, um modelo (didático, até) do que deveria ser uma ficção histórica perfeita. O livro retrata um momento crucial da história da Inglaterra — o conturbado período que se seguiu à Terceira Cruzada — , revestindo os fatos de narrativa, de personagens que variam entre figuras reais e fictícias.
Em “Ivanhoé” eu finalmente aprendi, por exemplo, que a sociedade inglesa da época era dividida entre normandos (aristocratas, em sua maioria, que invadiram e conquistaram a ilha em 1066), e saxões (um povo mais antigo, que constituía, então, a plebe e a baixa nobreza). O conflito central gira em torno desses dois grupos, facções que até então se odiavam, mas que acabaram se unindo sob os valores da cavalaria, valores esses que ajudariam a forjar a cultura inglesa dali por diante.
O herói, a propósito, Wilfred de Ivanhoé, é, como tantos heróis, um ser híbrido: filho de um nobre saxão, mas que presta lealdade ao rei Ricardo Coração de Leão, descendente da aristocracia anglo-normanda.
Com pitadas, inclusive, de humor (temos aqui a famosa figura do bobo da corte), contamos com a aparição de ninguém menos que Robin Hood — chamado por Scott de Robin de Locksley — , que, na realidade, não roubava dos ricos para dar aos pobres: roubava dos normandos para dar aos saxões.
Em “Ivanhoé”, cada personagem encarna um arquétipo, simbolizando uma fração da sociedade inglesa. Do mercenário ao judeu, do tirano feudal ao templário orgulhoso. Na minha opinião, uma obra essencial para quem deseja conhecer e escrever ficção histórica — lamento sinceramente não tê-la lido antes.⚔️🛡🏹






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