1° de setembro de 2026
Querido Diário,
Hoje, em meio aos preparativos para fazer acontecer a viagem pra China, tive que desmontar minha exposição na Biblioteca da UFSC. A data de finalização era oficialmente ontem, mas Florianópolis decidiu me dar um gostinho de clima de Ásia e passou 4 dias entregando tempestades que mais pareciam monções. A Biblioteca não abriu e a desmontagem foi transferida.
Uma amiga bruxona me disse: “nossa, que simbólico! Você me contou do trauma da sua avó com chuva e justo no dia de encerrar acontece isso”. É verdade, eu não tinha me dado conta.
Essa obra que eu criei a partir da coleção de xícaras que recebi de herança da Oma (minha vó do lado dos alemão) teve muitas situações simbólicas. Por exemplo, duas xícaras foram “subtraídas” da obra. Eu cheguei lá pra dar entrevista e as xícaras tinham sumido. Alguém deixou um bilhete sarcástico agradecendo o “presente”. Foi um baque.
Mas eu sou neta da minha Oma e fui atrás até que dei um jeito de descobrir quem foi e, acionando a segurança, consegui reaver meus pertences. A pessoa alegou ter sido um mal-entendido, que achava que “estava ali para as pessoas levarem”. Aham, sei.

E mais: as xícaras que a pessoa “levou” foram justamente as de bodas de prata e bodas de ouro do casamento dos meus bisavós. Nem são as que eu acho mais bonitas, mas são justamente as que têm mais ligação direta com a linhagem. Eu mesma sou mais fã das flores e paisagens pintadas à mão, com pinturas DENTRO da louça, que coisa linda. Mas talvez a pessoa só tenha visto o valor monetário de uma xícara pintada em prateado e dourado. Talvez essas peças sejam mais obviamente antiguidades ou só estivessem mais convenientemente próximas da saída.
Depois do “mal-entendido” resolvido, veio o evento de comemoração. Caiu tanta água do céu que eu fiquei com medo de a gente não conseguir se escutar no auditório da biblioteca, tão alto era o barulho que a chuva fazia no telhado. No fim, vieram poucas pessoas. E justo na hora que decidi começar, a chuva deu trégua. Só voltou a ficar forte de novo dois minutos depois de eu encerrar com o agradecimento.
O evento em si foi muito lindo. Por ter menos gente, fizemos um círculo, o que criou uma vibe intimista. Pudemos abrir um pouco mais as nossas vulnerabilidades, guiados pelo exemplo do Tales Nunes e da palhaça Fifi, da Vivi Barazzutti, que eram os convidados da noite. A gente conversou sobre o que é arte e como o afeto faz parte da arte, sendo ao mesmo tempo causador e consequência.
O Tales citou um filósofo, Henri Bergson (já vou deixar anotado aqui pra não esquecer). Pelo que entendi, esse cara acha que a arte é um estado do ser. Que no momento em que nós nos abrimos conscientemente para a contemplação de nós mesmo e do mundo ao nosso redor, a arte existe (ela pode nascer ou fluir ou vir à tona). Algo assim. Quero pesquisar mais sobre isso.
E eis que, com a ajuda da Vanessa, consegui desmontar a exposição, um dia depois do esperado. Chegamos na UFSC com nuvens carregadas. No momento em que íamos sair do carro, começou a chover forte. Mas isso é só Florianópolis sendo Florianópolis em um ano de El Niño.
Tudo organizado, dei dois passos descendo a rampa e meus pés pararam. Me corpo se virou de volta. “Que foi?”, me perguntou a Van, “esqueceu alguma coisa?” Eu respondi que não, que precisava fazer um fechamento e que ela podia ir na frente. Fiquei parada no meio da rampa da biblioteca, segurando a caixa organizadora com todas as peças que formaram aquela obra. Olhando “pro nada” enquanto as pessoas passavam.
Fechei os olhos e agradeci mentalmente todo o clã, um monte de gente que eu nem conheci – e que sinceramente não tenho interesse de ser associada. Eles que deem jeito nos B.O.s deles (ao invés de me dar tarefa de literalmente fazer B.O. na polícia porque alguém achou que ia ser de boa levar pra casa partes de uma obra de arte).
Fiz o meu paranauê bruxólico de sempre, encerrei a energia daquele espaço, liberei o que precisava ser liberado, agradeci às energias e às pessoas que tinham me ajudado a fazer esse sonho se materializar. Agradeci minha Oma e me abri pra sentir todo o amor que existia na nossa relação.
Parecia que camadas e camadas de terra se construíam sobre meus pés, criando chão, criando força. Senti “a galera” se reorganizar atrás de mim. “Agora eu não devo nada pra nenhum de vocês, nem vocês pra mim”, eu disse pra terminar. E ouvi um “pode ir que agora a gente vai te apoiar”.
Saí da biblioteca para um céu azul com gotas caindo. Sol e chuva, casamento de viúva... “A Oma vai casar”, pensei, porque era o que a gente dizia quando era pequeno. Uma forma de lembrar, de matar a saudade da Oma, que morava a 600 km de distância.
Isso me fez lembrar do tal trauma da minha Oma: quando meu pai era bebê, acho que por volta de um ano e meio, eles estavam sozinhos em casa e veio uma enxurrada. O nível da água subiu muito rápido. Já com água no quadril, ela usou a bacia do banho como bote salva-vidas pra conseguir levar a criança para um lugar seguro. Mas a força da água era tanta que a bacia escapou da mão dela. (Eu não sei, mas talvez fosse noite. Imagina a escuridão de uma enchente.) Parece que logo depois ela conseguiu pegar ele de volta e sair em busca de ajuda.
Comentei isso com a minha amiga e ela apontou: “olha pro lado de lá - o céu tá todo azul. E no lado de cá as nuvens cinza. Os dois lados, igual da tua obra”. Eu sorri.
Quando cheguei em casa, percebi que uma ventania passava limpando o tempo. Agora era só céu azul.




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