Aquela coisa que eu acho que nunca senti por alguém
Segundo o dicionário Michaelis, saudade é o sentimento nostálgico e melancólico associado à recordação de pessoa ou coisa ausente, distante ou extinta, ou à ausência de coisas, prazeres e emoções experimentadas e já passadas, consideradas bens positivos e desejáveis; sodade, soidade.
Portanto, é claro que eu já senti saudade.
Sinto falta das manhãs vendo desenho animado antes de ir para a escola. Aqueles extremamente educativos, porque é isso que a TV oferece de manhã cedo: Dora Aventureira. Não que eu assistisse à Dora. Tinha os Imagiandores, os Heróis da Cidade, os Superfofos, As Pistas de Blue e tantos outros, e, tá bom, às vezes um episódio interessante da Dora.
Também tenho saudades de correr no parquinho da escola enquanto Xuxa, Eliana, Chiquititas e Balão Mágico toram no rádio que eu ganhei de presente e implorava para minha mãe para que eu pudesse levar para todos os lugares, porque o que é a vida de uma criança de quatro anos sem as suas músicas favoritas de trilha sonora enquanto ela brinca de pique-esconde?
Mas asssim me pego pensando se essas saudades em específico não são nostalgia. Nostalgia, segundo o dicionário Michaelis, é o sentimento ligeiro de tristeza sentido por alguém, pela lembrança de eventos ou experiências vividas no passado; saudades ou tristeza por algo ou alguém que já não existe mais ou que já não possuímos mais. Segundo eu mesmo, uma saudade com outro nome ou um outro nome para a saudade, como o próprio dicionário dá a entender.
Mas se durante uma viagem de três dias em que os únicos presentes são eu e mais três amigos você me perguntar se sinto saudade de alguém que não está lá, a resposta será não. E isso se aplica a qualquer pessoa, incluindo minha mãe.
As pessoas sempre acham que estou exagerando ou contando uma piada quando digo que não sinto saudade da minha mãe. Mas é verdade. Eu já fiquei três dias sem entrar em contato com ela enquanto estávamos distantes geograficamente. Por mais rídiculo que isso soe, eu esqueci de mandar mensagem para ela até avisando que tinha chegado, e só lembrava de falar alguma coisa porque ela é quem sentia saudades e mandava mensagem.
Quando contei isso no trabalho, alguns riram, outros acharam estranho. Eu também acho estranho. Então comecei a me justificar da melhor maneira possível:
Vocês sabem quando brincam de “achou” com um bebê e ele simplesmente acha hilário ou sorri quando você se revela por trás das suas próprias mãos? Isso acontece porque, por alguns segundos, o ce´rebro do bebê entende que você não está lá. Aí ele fica com cara de ué, tentando entender qual era a graça, até que você ressurja e ele se lembre que estava rindo apra você.
A saudade funciona assim para mim. Se não vejo, não penso, não sinto.
Na música “Tudo Me Lembra”, do álbum Memórias Póstumas do Jão, ele cita uma série de coisas, sensações, momentos, ideias que o fazem lembrar da pessoa de quem ele está separado. Acho que sentir saudades de alguém deveria ser assim, não é?
É muito mais fácil minha mente despertar memórias antigas de situações específicas e eu sentir saudade daquele momento, que meu cérebro às vezes lembra vividamente demais por causa da imaginação fértil do que eu pensar “puts, saudades de fulano”.
Aliás, existe sim uma saudade que para mim tem forma de gente. É um amigo para quem já me abri muito, a quem chamo de amigo. Confesso que não sei, ou acho que não sei, muito sobre ele. E gostaria muito de saber mais. Transformar essa coisa que nós temos em uma amizade profunda, daquela que acaba aprendendo a ler com o tempo. Transformar essa saudade em outra coisa.
Sinto saudades dele especialmente quando estou escrevendo. As palavras dele muitas vezes me inspiram. Ele me convida para todos os aniversários dele e eu me sinto muito amigo dele nesses momentos. É especial ser querido assim. Mesmo que a gente se fale pouco e majoritariamente na internet ou em eventos. Sei que ele se importa comigo o mesmo tanto que me importo com ele.
É tão estranha essa sensação de ser e não ser ao mesmo tempo. De ansiar por mais, porém temer que o mais estrague esse sentimento especial. E a concretização pode mesmo acabar com a saudade. E sinto saudade toda semana. Risos.
Retomemos o foco deste texto agora.
Ume outre amigue comentou comigo que, para elu, saudades é revisitar algo, vem junto da memória. Mas não era esse tipo de saudade da qual eu falava. Ainda assim, cito isso porque vale notar que houve um período de algumas semanas há uns quatro anos no qual a nostalgia estava tão forte em mim que não saber novidades da minha madrinha, uma figura tão importante nas minhas lembranças, começou a ser um problema. Acho que esse é o único outro exemplo que consigo lembrar em que a ausência de alguém me perturbou.
Respondi para essu amigue que, sendo a saudade uma mistura de dor pela ausência e carinho pelas lembranças boas do passado, eu dificilmente teria sentido saudades de alguém porque eu simplesmente não consigo sentir a ausência das pessoas, mas das sensações, dos sons, do ambiente, da memória em todos os sentidos. A pessoa estar presente nesse momento do passado ou não é um bônus.
Às vezes me pergunto se desaprendi a sentir essa dor quando meu pai não voltou mais e acabei desenvolvendo uma certa apatia em relação à ausência dele alguns dias depois. Não sei.
Outro dia conheci alguém e contei da vez que um garoto que eu estava conhecendo ansisava, mais do que tudo, que eu sentisse falta dele num nível absurdo. Imagine, ter saudades de receber mensagens durante o dia todo, uma saudade de algo que nunca aconteceu da minha parte. Esse alguém disse que era igual a mim nesse sentido e me senti menos sozinhe.
No fim, a suadade não é um problema de verdade pra mim. Não há muito que eu possa fazer, talvez evitar dizer para pessoas que esperam esse sentimento dos outros. A minha mãe mesmo odeia falar desse assunto comigo e eu notei que tenho me esforçado para não “esquecer” dela. Acho que já é um ótimo primeiro passo.
Para não dizer que não escrevo
Ei, você lembra que essa era uma newsletter também para trazer atualizações de projetos e outras coisinhas? Pois bem:
Por aqui, estou planejando em como posso transformar esse espaço em algo mais vivo, mas que precisará da colaboração de todes para se amnter, por isso há um tempo atrás perguntei até quantos dinheiros minha comunidade pagaria em um clube de assinatura. As coisas estão se desenvolvendo, teremos mais atualizações sobre isso em breve.
Tem outra coisa muito empolgante acontecendo que não posso detalhar agora, mas saibam que a vida de Se não for como nos livros pode ser maior do que o esperado. Ah, e vai ter brinde do livro, DESSE TAMANHO, para quem for à Bienal do Livro de São Paulo.
Sobre a escrita: com passinhos de tarturaga consigo encaixar ela em alguns dias da semana, mas sempre que me sinto pronto para ela, ela me escapa, ou me sinto cansade, ou não sinto vontade. Estou em um processo complicado com ela. Mas comecei uma história menor em paralelo à que venho escrevendo há algum tempo. Sem previsões de virem ao mundo.
É isso que posso dizer por agora.
PÓsso te recomendar três coisas?
Meus últimos vícios tem nomes e acho que vocês podem gostar deles
Primeiro, a música Everything All The Time, da Maddie Zahm. Acho lindo quando ela diz The smallest things are big to me, I don't know why, resume bem como me sinto em muitos dias. Talvez alguém se identifique.
A série Inapropriados para o trbalaho (Not suitable for work), disponível no Disney+, veio para sanar a saudade que eu estava de séries como New Girl. O elenco é uma graça, a história é envolvente e eu espero muito que renovem ela apra que os dilemas abertos no final da temporada encontrem algum tipo de desfecho.
O filme Gondolo (2023), dirigido por Veit Helmer, não sai da minha cabeça. Vocês precisam assistir e eu já fiz um vídeo sobre ele.
Por fim, o livro água de maré, de tatiana nascimento, é uma história que vai alugar um triplex na suca cabeça com suas discussões sobre raça, classe, secualidade e identidade de gênero. Uma pros apoética que começa confusa, mas encontra forma e intensidade conforme avança.
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Até a próxima newsletter! Que nunca nos falte lascas de parede.





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