"Pua ka wiliwili nanahu ka mano…”
Quando a árvore wiliwili floresce, os tubarões a mordem...
(Significado: "Uma bela mulher atrai os jovens homens que se tornam ferozes rivais dela")
– ‘Olelo No‘eau, Proverbio havaiano
Tempos atrás, zapeando pelos canais de TV, me deparei com o longa Moana, um mar de aventuras, já quase no final. De pronto as cores todas me chamaram muito a atenção! Eram fortes, vívidas, tropicais, familiares e ainda assim diferentes. Dias depois, para a minha sorte, a programação tradicionalmente repetitiva dos canais particulares passaria a animação que eu nunca tinha visto antes (embora seja de 2017). Marquei o horário e aguardei.
Eu fiquei encantada. Antes de Moana, o mais próximo que cheguei da cultura polinésia foi Lilo & Stich e informações aleatórias sobre danças Maori e saber que o ator Dwayne Johnson é descendente de chefes samoanos. Mas ver aquelas imagens impactantes de mar e natureza, os padrões das roupas, a dança e nomes me instigou. Como será a cultura polinésia e onde posso experienciar mais dela? Fiquei com isso na cabeça.
Uma das coisas que me motivou a criar a editora foi a oportunidade de aflorar meu lado pesquisadora e encontrar as narrativas mais diversas possíveis.
Ao definir temas para nossos livros, começava a busca pelos contos. E durante essas buscas eu descobria sempre muito além do que procurava. É como descer um rio, de repente você encontra inúmeras ramificações, o que era uma possibilidade torna-se cinco, dez, mil.
Muitos projetos saíram dessas descobertas inesperadas pelo caminho. Em certo momento encontrava um continho perdido que infelizmente não se encaixava em nenhum projeto maior, mas era tão legal que merecia espaço: Isso foi o que nos motivou a fazer o clube de assinatura Do lendário ao raro.
E claro, foi nessas pesquisas que encontrei uma das raridades que ocupou minha mente desde ano passado: um romance havaiano. E não apenas isso, ele era o primeiro e escrito por um nativo, e mais; contava a história de uma mulher.
Sabe ganhar numa loteria? Me senti assim.
Um dos meus principais objetivos enquanto editora é justamente resgatar esses tesouros que ficaram esquecidos. Esquecidos ou ignorados, em especial quando falamos de literatura fora do eixo eurocêntrico e principalmente que não é de língua inglesa ou francesa.
Muitos conhecem os textos clássicos da cultura ocidental, mas quando vamos mais longe as coisas ficam difusas, quando chegamos a povos originários então, uma densa névoa parece tomar conta.

E ao ler o chamado O romance havaiano de Laʻieikawai (Ke Kaao o Laieikawai), escrito por S. N. Haleʻole em 1863 aumenta ainda mais a estranheza: trata-se de um texto que nada deixa a dever para qualquer livro fantástico da tradição europeia, ousaria dizer que até aos mais contemporâneos.
O narrador vai nos apresentando os personagens e suas histórias, e em alguns casos dá uns saltos para acompanhar esse ou aquele personagem que, claro, mesmo distantes um do outro no livro, continuam suas missões. A história foi publicada em um periódico havaiano chamado Ka Nupepa Kuokoa entre 1862 e 1863.
Entre as narrativas, há vários poemas afinal, o romance todo foi escrito baseado no kaʻao[1] tradicional sobre a princesa Laʻieikawai , uma narrativa ensaiada em prosa e intercalada com canções transmitidas oralmente por antigos contadores de histórias havaianos.
E a história dessa princesa é cheia de fantasia, em especial se falamos dos misteriosos poderes que ela tem, bem como alguns de seus pretendentes, entre eles descendentes de deuses. Divindades completamente diferentes das que conhecemos, pois entre seus filhos alguns parecem ser humanos com algum aspecto especial ou outros deuses, “confusão” que a tradução de Martha W. Beckwith ajuda a esclarecer, com suas preciosas notas culturais adicionadas em 1918.
Em relação à trama, o que posso dizer enquanto leitora ocidental, à parte os aspectos diferentes da cultura polinésia, é que é um livro cheio de tramas dignas de novelas ou romances: a beleza de Laʻieikawai atrai muitos jovens pretendentes que na verdade não são bons para ela, e por várias vezes, por acreditar em alguns deles (e em outras pessoas) ela acaba sendo enganada e sofrendo durante toda sua jornada até finalmente virar uma mulher madura de fato, capaz de entender as coisas por si e, finalmente, tomar seu lugar sagrado junto aos deuses.
Um ponto fortíssimo dessa história é a lealdade que se forma entre ela e as irmãs abandonadas de seu primeiro pretendente — a saber: um chefe muito forte, habilidoso e arrogante chamado Aiwohikupua e que pede ajuda para as irmãs convencerem a bela de Paliuli a se casar com ele. Todas falham e por isso ele as abandona na floresta de Paliuli, bem ressentido —, Maile-Haiwale, Maile-Kaluhea, Maile-Lau'ii, Maile-Pakaha e Kahalaomapuana se mostram muito diferentes de seu irmão ao serem acolhidas por Laʻieikawai e tidas como suas próprias irmãs. São elas que “seguram a barra” por assim dizer, quando as maldições e terríveis situações abatem nossa heroína, e de certo modo, é graças a essa irmandade que Laʻieikawai consegue sua ascensão, muito embora torne-se então “a mulher do crepúsculo”.
Eu ouso dizer que Laʻieikawai é um clássico da literatura. Pois, se clássico é aquele texto que é atemporal, sem dúvida existem várias passagens do romance que irão falar de coisas e sentimentos humanos que independem de tempo e espaço. É impossível ler e não sentir conexão com alguns personagens e situações vividas, mesmo sendo eles de uma cultura e tempo totalmente diferente do nosso.
O cinema é um grande difusor cultural, sem dúvida, mas a literatura tem a capacidade e o tempo perfeitos para que a gente realmente consiga saborear muito mais: é tipo a diferença entre assistir O senhor dos anéis e ler O senhor dos anéis. Se Moana e Lilo me chamaram a atenção para as historias polinésias por meio de suas animações, sem dúvida é Laʻieikawai e suas irmãs que me proporcionaram poder experimentar de uma maneira bem mais ampla e rica a mágica da mitologia havaiana.
Espero poder trazer para os leitores brasileiros essa preciosidade que está em financiamento coletivo neste momento na plataforma Catarse e que poderá ser apoiada até dia 11 de novembro, e com isso ampliar nossas visões sobre culturas e narrativas diferentes das nossas.
APOIE em: catarse.me/romancehavaiano
[1] Lenda, conto, novela, romance, geralmente fantasioso; ficção; contar uma história fantasiosa. ho'o.ka'ao Para contar histórias; narrativa. (wehewehe.org)






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