Pré-rafaelitas: “late pledge” ou “última chance”
Com os atribulados tempos atuais, é fácil perder uma ideia bacana, um projeto original visto em algum local da Internet, um lançamento realmente único. Nossa atenção se dispersa por um mar de informações as mais diversas; por isso, creio, muitas pessoas nos procuraram, dizendo que haviam perdido o projeto PRÉ-RAFAELITAS e que adorariam contribuir com ele de alguma forma. Para esses nossos leitores, e outros que desejem nos apoiar, oferecemos este late pledge, última chance, de um mês, enquanto já estamos debruçados na finalização da tradução e edição do material.
E, como sempre, agradecemos todos os nossos apoiadores, atuais e futuros.
Chamam a si mesmos pré-rafaelitas — não que realizem imitações dos mestres italianos originários; pois em seus trabalhos, que se colocam em oposição às abstrações fáceis de Rafael, encontramos um poderoso realismo imaginativo, um cuidadoso realismo em termos técnicos, uma visão ao mesmo tempo extremamente febril e vívida, uma intimidade muito mais profunda e intensa.
(Oscar Wilde)
O projeto: apresentando um movimento único ao público brasileiro
Com o projeto PRÉ-RAFAELITAS, a Raphus Press renova seu compromisso tanto com uma literatura pouco convencional — de autores com forte tendência à contestação de normas sociais e regras estéticas — quanto rara e/ou ignorada, e portanto inédita no Brasil. Assim, com a série PRÉ-RAFAELITAS, pretendemos trazer aos nossos leitores esse singular movimento vanguardista que era também uma fraternidade de pintores e autores, reunidos em uma espécie de sociedade igualitária em que a presença feminina era tão intensa quanto essencial. Algumas das mais extraordinárias mentes criativas da era vitoriana aderiram ou cruzaram seu caminho com os pré-rafaelitas: filósofos como Thomas Carlyle e John Ruskin; talentos em múltiplas áreas como Dante Gabriel Rossetti, William Morris e Simeon Solomon; poetas como Algernon Swinburne; pintores como John Everett Millais, William Holman Hunt e Ford Madox Brown.
Veronica Veronese, de Dante Gabriel Rossetti (1872).
Por outro lado, a seção feminina do movimento levou quase à formação de uma versão composta por mulheres da assim chamada Irmandade Pré-rafaelita (Pre-Raphaelite Brotherhood), uma reunião das talentosas mulheres associadas ao movimento, reconhecidas tanto por suas criações artísticas em literatura e arte mas também pelas ousadas formas através das quais buscavam romper com os estatutos moralistas da sociedade vitoriana: Christina Rossetti, Elizabeth Siddal, Jane Burden Morris, Georgiana Burne-Jones, Evelyn De Morgan e muitas outras.
Assim, iniciamos essa nova série de livros com três notáveis e, injustamente, pouco conhecidos mestres da literatura pré-rafaelita: Christina Rossetti, Elizabeth Siddal e Simeon Solomon.
Introdução: uma vanguarda muito original
Em meados do século XIX, as artes plásticas encontravam-se em uma pouco confortável — ao menos, era assim que jovens e revoltados artistas britânicos sentiam — encruzilhada: de um lado, as promessas algo abstratas do romantismo e, do outro, as composições rígidas do academicismo, que parecia se tornar uma usina de cópias e repetições das grandes pinturas barrocas e renascentistas. Como os chamados Nazarenos antes deles — grupo de jovens artistas alemães como Friedrich Overbeck e Peter von Cornelius, que fundaram uma irmandade/comuna em Roma nos idos de 1810 —, os pré-rafaelitas buscavam, na pureza das formas e no brutal “realismo figural”, presentes na arte da Idade Média, sua referência, seu norte de orientação.
The Wise & Foolish Virgins (aproximadamente de 1813), do nazareno Peter von Cornelius.
Segundo um dos fundadores do movimento, William Holman Hunt, o termo que nomearia o grupo — em inglês, “Pre-Raphaelite” — surgiu quando ele mesmo e seu amigo, John Everett Millais, ainda estudantes da prestigiosa Royal Academy, passaram a criticar a célebre pintura Transfiguração, do pintor renascentista Rafael Sanzio. Seus colegas, então, disseram que ambos poderiam ser chamados de “pré-rafaelitas”, e o nome pegou. A partir daí, o movimento, amplificado por polêmicas e diversas contradições, impulsionou uma complexa e ampla revolução não apenas na sensibilidade vitoriana, mas mundial, que persiste até os dias de hoje.
Ilustração de Holman Hunt a partir do poema "My Beautiful Lady", de Thomas Wollner (The Germ, 1850).
Se o fascínio pela mitologia e compreensão de mundo da Idade Média estaria na base de O Hobbit ou O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien (reconhecido discípulo de William Morris, John Ruskin e dos pré-rafaelitas até em suas ilustrações), a evocação sombria e lúgubre do mundo antigo (ou de um outro mundo, sobrenatural e ancestral) persistiria na obra de grandes leitores da poesia e apreciadores da arte pré-rafaelita, como Arthur Machen, W. B. Yeats e até mesmo Aleister Crowley. A liberalização de costumes e o confronto com a sociedade puritana e patriarcal, empreendidos pelas mulheres pré-rafaelitas, persistiria, em gerações de artistas posteriores, de Vernon Lee a Virginia Woolf e depois em Sylvia Plath e tantas outras autoras. A busca por formas e vida comunitárias e artísticas, nos limites dos ditames do capital, inspiraria os hippies, a contracultura, os punks, etc. E autores de HQ manteriam firme proximidade desse universo mágico, do Hellboy de Mike Mignola (e sua leitura cinematográfica, bastante influenciada pelos pré-rafaelitas, por Guillermo del Toro) às fantasias de Neil Gaiman e o Lost Girls de Alan Moore.
Uma nova série de livros
Assim, apresentamos ao leitor a tríade inicial de livros da série PRÉ-RAFAELITAS, com a qual pretendemos apresentar os poetas e prosadores desse movimento ao leitor brasileiro. Esse material é praticamente inédito no Brasil e até mesmo em língua portuguesa: importante obra de referência, a coletânea Os Pré-Rafaelitas: Antologia Poética, publicada pela editora portuguesa Assírio & Alvim em 2005. Mas, na atualidade, esse livro é raro, verdadeira preciosidade bibliófila. Portanto, nada mais justo que lançar novos livros dos autores ligados a tal movimento, com novos materiais.
Para a primeira tríade, teremos três livros em formato brochura, cerca de 60-80 páginas cada um, no formato 13 x 20 cm, com acabamento em verniz localizado nas capas. Todos os livros da série serão bilingues, trazendo assim o texto original em inglês. Se conseguirmos obter os 100% propostos, faremos colorida a pequena galeria de imagens que haverá em cada livro.
Os três livros serão O Mercado dos Goblins & Outra Poesia, de Christina Rossetti; Morte Prematura, O Livro Verde & Outros Poemas, de Elizabeth Siddal; Visões do Amor, de Simeon Solomon. Todos os livros trarão poemas inéditos em português e material de difícil acesso mesmo em inglês — como as produções em prosa de Simeon Solomon, recentemente resgatadas do esquecimento pelo pesquisador Daniel Corrick para a editora especializada no resgate de experiências extremas em literatura, a Snuggly Books. Nesses livros, teremos poemas conhecidos (como o célebre "Goblin Market", de Christina Rossetti) mas, também, teremos poemas inéditos e textos raros em prosa (como as criações de Simeon Solomon e do polêmico Livro Verde de Elizabeth Siddal), além de galeria de imagens e paratextos contextualizadores.

Capa e contracapa de O Mercado dos Goblins & Outra Poesia, de Christina Rossetti.
Capa e contracapa de Morte Prematura, O Livro Verde & Outros Poemas, de Elizabeth Siddal.
Capa e contracapa de Visões do Amor, de Simeon Solomon.
Abaixo, exemplo de como será o miolo dessa nova série de livros:
https://relayto.com/alcebades-diniz/morte-prematura-o-livro-verde-outros-poemas-jzijxukytfv7n
As traduções de Christina Rossetti e Elizabeth Siddal estarão a cargo de Luiz Fernando Lunardello, enquanto os poemas em prosa de Simeon Solomon serão traduzidos por Alcebiades Diniz Miguel, também encarregado dos paratextos para os três livros.
Sobre os pré-rafaelitas
Já publicamos bastante a respeito do tema em nossas redes sociais, na forma de textos breves e vídeos. Abaixo, os links de nossas pesquisas, que serão úteis na compreensão desse movimento.
Sobre os autores
Christina Rossetti (1830-1894) foi uma poeta britânica de origem italiana, irmã de Dante Gabriel Rossetti, filha de um poeta e refugiado político italiano e da irmã de John William Polidori, célebre médico e amigo de Lord Byron. Christina Rossetti exemplificou muito bem as contradições entre vanguardismo e conservadorismo dos pré-rafaelitas, alternando entre as propostas mais radicais da irmandade e a adesão ao catolicismo. Versátil, escreveu e versificou nas mais diversas formas e metros: sonetos, baladas, hinos, trabalhando temáticas das mais diversas fontes — da Bíblia e da vida dos santos às narrativas populares. É fácil rastrear a imensa influência de seus poemas em autores como Ford Madox Ford, Virginia Woolf, Gerard Manley Hopkins, Elizabeth Jennings e Philip Larkin.
Elizabeth Eleanor Siddal, mais conhecida como Elizabeth Siddal ou "Lizzie" Siddal (1829-1862). Nasceu e viveu nas periferias de Londres (Hatton Garden e depois Southwark) com seus cinco irmãos. Jamais frequentou escola ou teve ensino formal, embora soubesse ler e escrever — provavelmente aprendera com os pais. Conheceu Walter Deverell (e, através dele, os pré-rafaelitas) quando trabalhava como vendedora em uma loja de chapelaria e confecções em Cranbourne Alley. A partir daí, tornou-se uma das modelos mais célebres dos pintores pré-rafaelitas, servindo como forma física de uma beleza ideal para Walter Deverell, William Holman Hunt, John Everett Millais e seu futuro marido, Dante Gabriel Rossetti. Mas ela foi além desse papel passivo e desenvolveu seus talentos em pintura e poesia, com ajuda de Rossetti e de seu amante "platônico", John Ruskin. Seu destino, contudo, seria trágico.
Simeon Solomon (1840-1905) foi um artista e escritor britânico, associado diretamente ao movimento pré-rafaelita. É reconhecido pelas formas vaporosas e espiritualizadas de suas pinturas, bem como pelas descrições da comunidade judaica inglesa à época e do desejo pelo mesmo sexo, dois temas que lhe eram bastante caros. Como outros da fraternidade, estudou na Royal Academy, onde conheceu Dante Gabriel Rossetti. Sua carreira, contudo, logo se encerrou: seria preso e condenado por sodomia em 1873 e 1874, antecipando o destino igualmente infamante de Oscar Wilde. Após tais condenações, sua obra (pintada e escrita) desapareceria das galerias e livrarias, mas seria preservada por colecionadores célebres — figuras como Oscar Wilde, John Addington Symonds, Conde Eric Stenbock e Walter Pater.
Colaboradores do projeto
Luiz Fernando Lunardello (tradutor) é nordestino, pai, professor, tradutor, autor e revisor. Depois de não se encontrar no Direito, foi para as Letras. Criou a @nerdenglish Consultoria Linguística, em 2007 e já trabalhou em mais de mil publicações científicas internacionais; recentemente tem se enveredado para suas paixões: literatura e quadrinhos, trabalhando com criadores independentes e editoras como BRASA e Da Rosa. Seu trabalho como crítico de literatura e cinema é feito no @baiaodacaveira e também é membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Norte. Sua ficção envolve sertões e terrores. Às vezes misturando os dois. É autor de Vingue Seus Mortos (KDP, 2023), Um Novo Cósmico (KDP, Escuro Medo, 2023), Mundiça (Diário Macabro, Dossiê Insetos, 2024) e A Perdição (Espada & Feitiçaria, Tábula, 2024).
Alcebiades Diniz Miguel (editor, tradutor) é professor, tradutor, pesquisador e escritor, tendo por especialidade as narrativas, a criação de histórias, o registro de universos fantásticos em forma de narrativa. Bacharel em linguística pela USP, realizou mestrado, doutorado e pós-doutorado na Unicamp e na USP, tendo, nesse percurso, passado por um estágios de pesquisa na Brunel University, na British Library e na Fundação Biblioteca Nacional, onde realizou minucioso trabalho analítico em torno da imprensa simbolista brasileira. Realizou traduções para diversas editoras como Sol Negro, Carambaia, Sebo Clepsidra, Ex Machina, Novo Século e Perspectiva, de autores como Gérard de Nerval, H. G. Wells, Dolfi Trost, Nathanael West, Arthur Machen, Henry James, Robert Aickman e Thomas de Quincey. Algumas de suas pesquisas/traduções, de obras escritas por J. G. Ballard e Xul Solar, permanecem inéditas.
Sobre a Raphus Press
Nos últimos anos, a Raphus Press dedicou-se a lançar obras únicas tanto em termos de forma quanto de conteúdo. São edições breves, cuja extinção, por assim dizer, é rápida – ou seja, logo ficam fora de catálogo e como não costumamos fazer reimpressões, deixam seus vestígios no mundo real e virtual. Por isso nossos livros são únicos, artesanais, com elementos formais diferenciados que buscam tornar a experiência de leitura única. Já no quesito conteúdo, nosso foco sempre foi um certo tipo de ficção fantástica experimental, brutal e feroz que ganhou diversas denominações – neodecadentismo, Ficção Hiperimaginativa (FHi), etc. Por conta da natureza do material em si e das editoras obscuras aos quais esse tipo de criação está vinculado, seus autores, advindos das mais diversas e remotas paragens (incluindo Israel, Groelândia, Dinamarca...) optaram por utilizar o inglês como língua franca em seus manuscritos.
A Raphus publicou seus livros exclusivamente em inglês por algum tempo, mas chegou o momento de trazer para o leitor brasileiro toda a riqueza dessas novas tendências do fantástico, da ficção terrorífica e da literatura especulativa em português! Nesse sentido, e dando continuidade ao projeto que iniciamos com a campanha bem-sucedida de O Baluarte Tomado, narrativa visionária de Damian Murphy, seguida pela campanha para lançamento das inovadoras visões poéticas e narrativas em Cartes de Visite,de Mark Valentine e Dádiva, de D P. Watt, depois a prosa tensa de Justin Isis em A Neve e a poesia solar de Jonathan Wood em Dias de Sol. Já em 2020 tivemos a narrativa de uma outra Europa escrita por Mark Valentine e John Howard, Restos de Sombra, além da ficção especulativa extremamente densa de Brian Evenson com Mater. Um de nossos últimos projetos: a poesia de horror cósmico, através de seu expoente atual mais importante, Wade German, com seu Incantations/Sortilégios.



