Desde o momento que passei a viver em meus sonhos, quando tornei-me contemporâneo dos séculos vindouros, passei a não reconhecer a morte em seu aniquilador disfarce assumido na sociedade atual.
(Le Vampire Passif, Gherasim Luca)
Introdução: a criatura ideal
Não é exagero afirmar que o imaginário humano é assombrado por uma imensa miríade de criaturas, entidades e seres extraordinários. Essa galeria de seres, que poderíamos denominar bestiário humano, possui suas idiossincrasias, suas nuances. Esse inventário, evidentemente, possui flutuações, mudanças e transformações, uma vez que se trata quase de um traço constante do imaginário humano. Reação instintiva de uma espécie de sentidos limitados, que passa boa parte de sua existência dormindo indefeso, diante da amplitude aparentemente infinita (e perigosa) da noite, talvez? Enfim, seja por motivos antropológicos ou evolutivos, o bestiário humano nos acompanha desde tempos imemoriais. E desse bestiário imenso, surgem as criaturas que parecem persistir em nosso imaginário por alguma influência quase diabólica — esse é o caso dos vampiros.
Criaturas ancestrais, constituídas de inúmeras camadas imagéticas e narrativas, os vampiros são criaturas esplêndidas, estranhamente imortais, pois, quando parecem esquecidas, ressurgem dos recônditos da mente humana como um remorso, um crime cuja culpa não foi suprimida ou um terrível pressentimento. Assim, em Relicário 02, prestamos nossa homenagem a esse insigne habitante de nossos piores pesadelos e digno representante do acervo conhecido como bestiário humano.
Sobre a Relicário 02
Segundo a definição dicionarizada, “relicário” pode ser um “local (caixa ou cofre) para guardar relíquias” ou aquelas medalhinhas com relíquias devocionais que as pessoas religiosas carregam no pescoço (por fé ou proteção). Pois bem, a Relicário da Raphus Press — conceito desenvolvido por Alcebiades Diniz Miguel e Fábio Waki — temos a recuperação dos dois sentidos, em formato livro: um almanaque, esquadrinhando elementos de estranhezas horror das mais diversas fontes e formas, como uma caixa de relíquias tão raras quanto sinistras, eventualmente quase sagradas.
A Relicário 02 terá o mesmo formato do primeiro volume, com as dimensões 15 x 27 cm. Como no primeiro volume, todo o almanaque será totalmente ilustrado por um único artista em domínio público — espécie de síntese visual de tudo o que está no livro. Neste caso, o escolhido foi Eugène Atget (1857-1927), arrebatador pioneiro da fotografia que soube captar as nuances mais sombrias de Paris, um universo potencialmente vampírico por excelência.
No sumário de Relicário 02, teremos o seguinte:
- A Terra além da Floresta: Fatos, Figuras e Imaginações da Transilvânia, de Emily Gerard (autora vitoriana escocesa, cujas coletâneas de lendas da Transilvânia tiveram influência no Drácula, de Bram Stoker);
- O Vampiro, de Jan Neruda (jornalista, escritor, poeta e crítico de arte, representante do “Realismo Tcheco”);
- O Vampiro, Rosa Vertner Johnson (poeta e romancista estadunidense, a primeira autora sulista a chamar a atenção nacionalmente em pleno século XIX);
- A Vampira, de Rudyard Kipling (grande autor britânico, redescoberto recentemente por conta do trailer para o filme Extermínio: A Evolução, que utilizou o recital de um dos poemas de Kipling)
- Vampira, de Bertrande Harry Snell (autor novaiorquino que colaborou, como no caso deste poema, com a célebre revista Weird Tales);
- As mulheres de chifres e A dama bruxa, Lady Jane Wilde (mãe de Oscar Wilde, talentosa compiladora de contos populares irlandeses que já apareceu, pioneiramente, na primeira edição de Relicário, retorna com narrativas que inspiraram a criação vampírica de Bram Stoker);
- Da mastigação dos mortos em suas tumbas (excertos), Michael Ranft (apresentação aos leitores brasileiros dessa obra pioneira do vampirismo — e de sua interpretação racionalista —, utilizando o texto em latim cotejado pelas edições espanhola e francesa);
- Fome, de Fábio Waki (pesquisador e tradutor, nome conhecido da Raphus Press pelas excelentes traduções e ficções, oferece um conto brilhante abordando, desde ângulos inusuais, o vampirismo).
Outras recompensas da campanha
Como segunda recompensa da campanha, temos um material extremamente raro: o Livro Vitoriano de Sangue, também conhecido como Durenstein, um livro de colagens produzido pelo próspero homem de negócios vitoriano John Bingley Garland. Oferecido como presente de casamento para sua filha, Amy, em 1854, esse volume inacreditável de colagens devotas salpicadas por sangue apresenta os limites mais extremos da estética pré-rafaelita ao mesmo tempo que antecipa em mais de cinquenta anos o surrealismo. Era um item importante da singular biblioteca do escritor Evelyn Waugh, que se encontra atualmente no Harry Ransom Center na Universidade do Texas, em Austin. Nossa edição será um fac-símile em tamanho um pouco menor que o fólio original (30,5 x 48,3 cm), impressão colorida em papel couchê, com uma introdução de Alcebiades Diniz Miguel, “Templo Impresso, Sangrento”. Abaixo, a capa e um exemplo das colagens de John Bingley Garland

A terceira recompensa será uma espécie de presente de Natal aos apoiadores, uma vez que as recompensas anteriores, impressas, só devem estar prontas de fevereiro em diante: o ebook Inquietações, em que apresentamos aos leitores brasileiros uma grande autora vitoriana que foi injustamente relegada ao esquecimento. Trata-se de Violet Hunt (1862-1942), militante sufragista (pelo direito ao voto das mulheres) e feminista, que cresceu em ambiente pré-rafaelita, dominado por figuras como John Ruskin e William Morris; recebeu, inclusive, proposta de casamento de Oscar Wilde. No livro eletrônico, teremos dois de seus contos mais instigantes da coletânea Tales of the Uneasy, publicada em 1911. Em “Prece”, uma perda motiva a prece do título, com consequências imprevisíveis. Já “A Carruagem” apresenta um grupo de estranho em uma viagem tenebrosa. Assim, damos aos leitores brasileiros uma pequena amostra das qualidades narrativas de Hunt, mas, ano que vem, faremos uma campanha focada exclusivamente nela.
Como usual, o ebook estará disponível exclusivamente para todos os apoiadores da campanha, independente da contribuição, após seu término.
Todos esses materiais da campanha serão detalhadamente apresentados mediante vídeos no canal RES FICTA. Aliás, já temos um, abordando o estranho livro sobre “cadáveres devoradores” de Michael Ranft, abaixo:
O retorno: Relicário 01
Nada mais adequado que aproveitar o lançamento de Relicário 02 para relançar o primeiro volume — grande sucesso da Raphus Press que, desde 2022, nunca foi reimpresso. Assim, traremos de volta, em toda sua glória, essa nossa primeira aventura pelas coletâneas complexas e variadas, mais ou menos temáticas e razoavelmente livres para exprimir os gostos e obsessões dos compiladores.
Além de Relicário 01, traremos o roteiro de A Investigação, em formato bilingue. Quem quiser essa nossa aventura pelas audionarrativas (com algumas participações especiais), basta seguir o link abaixo:
Status do projeto
Boa parte dos textos já está traduzido (com exceção de Michael Ranft e dos contos de Violet Hunt). Assim, nosso foco será na edição e diagramação dos materiais das recompensas.
Sobre os tradutores e organizadores
Alcebiades Diniz Miguel é professor, tradutor, pesquisador e escritor, tendo por especialidade as narrativas, a criação de histórias, o registro de universos fantásticos em forma de narrativa. Bacharel em linguística pela USP, realizou mestrado, doutorado e pós-doutorado na Unicamp e na USP, tendo, nesse percurso, passado por um estágios de pesquisa na Brunel University, na British Library e na Fundação Biblioteca Nacional, onde realizou minucioso trabalho analítico em torno da imprensa simbolista brasileira. Realizou traduções para diversas editoras como Sol Negro, Carambaia, Sebo Clepsidra, Ex Machina, Novo Século e Perspectiva, de autores como Gérard de Nerval, H. G. Wells, Dolfi Trost, Nathanael West, Arthur Machen, Henry James, Robert Aickman e Thomas de Quincey. Algumas de suas pesquisas/traduções, de obras escritas por J. G. Ballard e Xul Solar, permanecem inéditas.
Fábio Waki é Bacharel em Estudos Literários e Mestre em Linguística - Estudos Clássicos pela Universidade Estadual de Campinas e Doutor em Materialidades da Literatura pela Universidade de Coimbra. É atualmente Pesquisador de Pós-Doutorado FAPESP na Cátedra de Estudos Irlandeses W.B. Yeats no Departamento de Letras Modernas - Inglês da Universidade de São Paulo. Foi Pesquisador Visitante nos Departamentos de Inglês da King’s College London, da Universidade de Estocolmo e da Universidade da Califórnia em Los Angeles. No momento se dedica à influência da cultura clássica sobre Oscar Wilde e o Esteticismo Britânico e às concepções de crítica que ele elaborou no contexto dessa corrente.
Sobre a editora
Nos últimos anos, a Raphus Press dedicou-se a lançar obras únicas tanto em termos de forma quanto de conteúdo. São edições breves, cuja extinção, por assim dizer, é rápida – ou seja, logo ficam fora de catálogo e como não costumamos fazer reimpressões, deixam seus vestígios no mundo real e virtual. Por isso nossos livros são únicos, artesanais, com elementos formais diferenciados que buscam tornar a experiência de leitura única. Já no quesito conteúdo, nosso foco sempre foi um certo tipo de ficção fantástica experimental, brutal e feroz que ganhou diversas denominações – neodecadentismo, Ficção Hiperimaginativa (FHi), etc. Por conta da natureza do material em si e das editoras obscuras aos quais esse tipo de criação está vinculado, seus autores, advindos das mais diversas e remotas paragens (incluindo Israel, Groelândia, Dinamarca...) optaram por utilizar o inglês como língua franca em seus manuscritos.
A Raphus publicou seus livros exclusivamente em inglês por algum tempo, mas chegou o momento de trazer para o leitor brasileiro toda a riqueza dessas novas tendências do fantástico, da ficção terrorífica e da literatura especulativa em português! Nesse sentido, e dando continuidade ao projeto que iniciamos com a campanha bem-sucedida de O Baluarte Tomado, narrativa visionária de Damian Murphy, seguida pela campanha para lançamento das inovadoras visões poéticas e narrativas em Cartes de Visite,de Mark Valentine e Dádiva, de D P. Watt, depois a prosa tensa de Justin Isis em A Neve e a poesia solar de Jonathan Wood em Dias de Sol. Já em 2020 tivemos a narrativa de uma outra Europa escrita por Mark Valentine e John Howard, Restos de Sombra, além da ficção especulativa extremamente densa de Brian Evenson com Mater. Um de nossos últimos projetos: a poesia de horror cósmico, através de seu expoente atual mais importante, Wade German, com seu Incantations/Sortilégios.











