Introdução: Halloween e relicário de horrores
Como outras festas populares, o Halloween possui uma origem complexa, ancestral e intrincada, na qual tradições cristãs se confundem com crenças pagãs — de origem celta, especialmente — em uma síntese que se transformou pelo processo histórico na singular e multinacional festividade que temos nos dias de hoje. Recuperação do festival celta da colheita e de ano novo dos celtas, o Samhaim, ou comemoração cristã que representou muito mais a deturpação do passado pagão? Impossível determinar. O que sabemos hoje, com certeza, é que esse significado original da cerimônia se transformou em uma espécie de comemoração universal da possibilidade de apreciarmos o horrorífico e a estranheza — que se materializam em narrativas, nas quais tanto o horror quanto o estranho possuem presença garantida.
Para celebrar essa capacidade tão humana de contar histórias espantosas, de exorcizar os terrores pela celebração narrativa, oferecemos este Relicário, em seu primeiro volume, cujo subtítulo é Assassinatos, Aparições e Horrores Ancestrais. Trata-se de um almanaque, um receptáculo de escritos espantosos e aterrorizantes, tão essenciais para que possamos lidar, de forma mais tranquila e cuidadosa, com tantos outros terrores reais e cotidianos.
Além da Relicário, apresentamos também um novo formato para os pesadelos intrincados que usualmente oferecemos a nossos apoiadores na forma impressa: Fantasmagoria, nossas narrativas sônicas de terror, absolutamente inéditas e originais, para gelar a espinha através de insinuantes sonoridades.
Relicário
No dicionário, Relicário pode designar um local para armazenamento de relíquias preciosas ou, mais que isso, sagradas. Esse também é o título do primeiro almanaque de variedades da Raphus Press — centrado no horror, mantemos tanto a ironia quanto os sentidos múltiplos de “preciosidade”, uma vez que nossa Relicário será o santuário de obras incomuns, bizarras, apavorantes e singulares.
Neste primeiro volume, teremos uma imensa variedade de textos aterrorizantes:
- poemas (“Daimonizomenos” de Arthur Benson);
- cartas (as três célebres cartas canonicamente atribuídas ao assassino serial vitoriano conhecido pela alcunha de Jack, o Estripador);
- panfletos (um material nesse formato relatando como as violações de sepulturas e roubos de corpos em Edimburgo, no ano de 1711, tornaram-se uma epidemia)
- contos (são quatro: o singular relato “Uma manifestação fantasmagórica”, assinado por Um Clérigo; o assustador antepassado do folk horror, escrito por W. B. Yeats, “Regina, Regina, Pigmeorum, Veni!”; a perturbadora narrativa breve “Gabriel-Ernest” de Saki (H. H. Munro); e uma narrativa popular sobre bruxaria ancestral irlandesa compilada por Jane Francesca Wilde (Lady Wilde), mãe de Oscar Wilde, “A mulher de chifre”);
- testemunhos (o célebre relato do reverendo Samuel Willard, de Massachussets — que inspirou tanto os ideólogos das perseguições de Salem Increase e Cotton Mather, além do diretor de cinema Robert Eggers em seu filme A Bruxa (The Witch, 2015) — a respeito de uma jovem criada aparentemente possuída pelo diabo);
- uma introdução, “Dos ambientes adequados”, escrita pelo editor Alcebiades Diniz Miguel.
Cada um desses textos trará introdução contextualizando sua produção. O material terá tradução realizada pelas habilidosas mãos de Fábio Waki e também por Alcebiades Diniz Miguel, o editor.
Nosso Relicário terá 44 páginas aproximadamente, em dimensões de 15 x 27 cm. As páginas serão ilustradas pelas belas e estranhas gravuras de Odilon Redon, além de trazerem alguma aparição monstruosa de vez em quando – as monstruosidades vão surgir sem aviso, ao final de um parágrafo ou no meio do bloco de texto, como nos antigos mapas medievais e renascentistas em que monstros eram ao mesmo tempo elementos decorativos e presságios daquilo que o viajante encontraria naquelas paragens. Abaixo, alguns exemplos desse nosso almanaque: capa, página de rosto e sumário.
Capa de Relicário, Vol. I.
Frontispício da edição.
Sumário do almanaque.
A Relicário terá algumas recompensas adicionais: um ex-voto com a gravura “...et celui qui était monté dessus se nommait la Mort“, de Odilon Redon e uma sobrecapa de proteção para o almanaque, impresso em serigrafia e com um trecho de um dos contos de Jane Francesca Wilde (Lady Wilde), retirados de seu saboroso livro a respeito das lendas e aparições celtas.
Fantasmagoria: horrores sonoros
A célebre adaptação radiofônica de A guerra dos mundos, romance originalmente escrito por H. G. Wells em 1898, realizada por Orson Welles e seu grupo de teatro Mercury Theatre, ocorreu no Halloween; assim, às 20 horas do dia 30 de outubro de 1938, o público americano experimentou o terror na forma de pretensa invasão marciana. O mais curioso é que não se tratava de uma “pegadinha” bem urdida pelo futuro diretor de Cidadão Kane: a adaptação constava da programação e nem era a primeira realizada pelo companhia teatral de Welles para a empresa de rádio CBS. Foi a atmosfera criada pelo Mercury Theatre, através do trabalho de atores, diretor e sonoplastia, que gerou o efeito terrorífico inesperado.
Retomando essa venerável tradição — atualizada na recente série de TV Calls, produzida pela AppleTV em 2018, criação de Fede Álvarez inspirada, por sua vez, em produção francesa, de Timothée Hochet — a Raphus Press tem orgulho em apresentar Fantasmagorias, nossa nova experiência em terror narrativo. Serão produções breves, feitas como as antigas radionovelas ou da forma como histórias de terror eram reproduzidas no passado ancestral: pelo som, pela maneira como a trama se desenrola pelos diálogos e demais interações sonoras entre os personagens. Esse terror sugestivo ainda possui um efeito considerável em nossa mente, por atiçar a imaginação a projetar os horrores apenas sugeridos por diálogos reveladores e estranhezas aurais evocadas pela sonoplastia.
E a primeira experiência nesse horror que oferecemos é Investigação, com roteiro de Alcebiades Diniz Miguel e Fábio Waki. Trata-se de uma história de obsessão, engano, paranoia e invocação dos pesadelos ancestrais que costumam acometer a humanidade: um homem poderoso, desconfiando que sua jovem esposa o trai, resolve contratar um detetive para investigar o caso. Tal investigação, contudo, levará a um beco sem saída de pavor. Será a primeira aventura da Raphus Press em produções audiovisuais, mas prezaremos pela qualidade: atores serão contratados, equipamentos adquiridos, sonoplastia desenvolvida especialmente para o episódio, além de haver igualmente intensa e longa preparação em termos de produção. Assim, acreditamos que em maio do ano que vem tal produção estará disponível em nosso canal no Bandcamp. Nossos apoiadores no Catarse — na modalidade —, contudo, terão acesso antecipado a esse material e também a entrevistas e making ofs.
Contudo, além disso, projetamos um item ainda mais exclusivo: o roteiro original, com o acabamento artesanal da Phonte88, em um estojo no formato de uma capa de EP (Extended Play), os velhos discos de vinil de duração menor, com 25 x 25 cm. O formato de disco vai aludir a certas experiências nessa área, usuais das gravadoras independentes brasileiras nos anos 1980-90. O roteiro impresso será uma edição limitada e numerada, exclusiva da campanha.
Capa do roteiro original Investigação, na forma de um Extended Play.
Capa do "encarte" interno, em que estará o roteiro.
Invasão de pesadelos
Um dos livros mais justamente celebrados da Raphus Press foi uma pequena obra-prima da poesia weird, centrada nos horrores cósmicos: Crias de Hypnos / Children of Hypnos de Hypnos / Children of Hypnos, de Wade German. Lançamos essa campanha em 2020 foi uma das primeiras de nossa editora a ser muito bem sucedida, passando de 100%. Até hoje vários leitores elogiam essa edição — a primeira em que empregamos a fonte Golden, derivada da tipografia de William Morris na Klmscott Press —, que se esgotou rapidamente mesmo do estoque de nossos parceiros, distribuidores nos EUA como Mark Ziesing. Pois bem, comemorando o lançamento do primeiro volume de Relicário e do nosso projeto Fantasmagoria, faremos a reedição desse livro tão especial. Serão poucos livros, disponíveis apenas aos apoiadores da campanha em pacotes especiais.
Recompensas
1) Relicário, volume 1: nesta modalidade, o apoiador receberá o almanaque de horror da Raphus Press.
2) Relicário, edição especial: os apoiadores desta categoria terão acesso à edição especial do almanaque, com sobrecapa (impressa em serigrafia), ex-voto especial e também acesso aos making ofs e demais materiais do episódio Investigação, da série Fantasmagoria.
3) Relicário, edição especial + Investigação: Além das recompensas que estão na categoria anterior, os apoiadores aqui terão acesso ao volume especial do roteiro de investigação, edição especial, artesanal, produzida pela Phonte88 no formato de um antigo EP em vinil.
4) Invasão de pesadelos: comemorando o Halloween, aproveitamos para relançar, em edição limitada à campanha, nossa edição de Crias de Hypnos, de Wade German.
4) Pacote Totalidade Horrorífica: Todas as recompensas em um pacote de refinados pesadelos.
Sobre os tradutores e roteiristas
Alcebiades Diniz Miguel é professor, tradutor, pesquisador e escritor, tendo por especialidade as narrativas, a criação de histórias, o registro de universos fantásticos no papel. Bacharel em linguística pela USP, realizou mestrado, doutorado e pós-doutorado na Unicamp e na USP, tendo, nesse percurso, passado por um estágios de pesquisa na Brunel University, na British Library e na Fundação Biblioteca Nacional, onde realizou minucioso trabalho analítico em torno da imprensa simbolista brasileira. Realizou traduções para diversas editoras como Sol Negro, Carambaia, Sebo Clepsidra, Ex Machina, Novo Século e Perspectiva, de autores como Gérard de Nerval, H. G. Wells, Dolfi Trost, Nathanael West, Arthur Machen, Henry James, Robert Aickman e Thomas de Quincey. Algumas de suas pesquisas/traduções, de obras escritas por J. G. Ballard e Xul Solar, permanecem inéditas.
Fábio Waki é Bacharel em Estudos Literários (2012) e Mestre em Linguística/Estudos Clássicos (2015) pela Universidade Estadual de Campinas e estudante de doutorado em Materialidades da Literatura (2016) na Universidade de Coimbra. Foi pesquisador visitante nos Departamentos de Inglês da King’s College London (2015) e da Universidade de Estocolmo (2018) e na Biblioteca Nacional da Suécia (2018). É especialista em Literatura Clássica e Literatura Inglesa, bem como em Crítica Criativa e Investigação Artística Literária.
Sobre a editora
Nos últimos anos, a Raphus Press dedicou-se a lançar obras únicas tanto em termos de forma quanto de conteúdo. São edições breves, cuja extinção, por assim dizer, é rápida – ou seja, logo ficam fora de catálogo e como não costumamos fazer reimpressões, deixam seus vestígios no mundo real e virtual. Por isso nossos livros são únicos, artesanais, com elementos formais diferenciados que buscam tornar a experiência de leitura única. Já no quesito conteúdo, nosso foco sempre foi um certo tipo de ficção fantástica experimental, brutal e feroz que ganhou diversas denominações – neodecadentismo, Ficção Hiperimaginativa (FHi), etc. Por conta da natureza do material em si e das editoras obscuras aos quais esse tipo de criação está vinculado, seus autores, advindos das mais diversas e remotas paragens (incluindo Israel, Groelândia, Dinamarca...) optaram por utilizar o inglês como língua franca em seus manuscritos.
A Raphus publicou seus livros exclusivamente em inglês por algum tempo, mas chegou o momento de trazer para o leitor brasileiro toda a riqueza dessas novas tendências do fantástico, da ficção terrorífica e da literatura especulativa em português! Nesse sentido, e dando continuidade ao projeto que iniciamos com a campanha bem-sucedida de O Baluarte Tomado, narrativa visionária de Damian Murphy, seguida pela campanha para lançamento das inovadoras visões poéticas e narrativas em Cartes de Visite,de Mark Valentine e Dádiva, de D P. Watt, depois a prosa tensa de Justin Isis em A Neve e a poesia solar de Jonathan Wood em Dias de Sol. Já em 2020 tivemos a narrativa de uma outra Europa escrita por Mark Valentine e John Howard, Restos de Sombra, além da ficção especulativa extremamente densa de Brian Evenson com Mater. Um de nossos últimos projetos: a poesia de horror cósmico, através de seu expoente atual mais importante, Wade German, com seu Incantations/Sortilégios.
Status do projeto
Para a Relicário, mais de 60% do texto já está traduzido, faltando a edição e diagramação. Já Fantasmagoria está com o roteiro pronto — após o financiamento pelo Catarse, já planejamos as gravações e posterior edição desse material. O almanaque Relicário deverá ser lançado no início de fevereiro de 2023 enquanto o áudio de Investigação deverá sair em maio de 2023.











