Apresentação: “subversões”
Agora sou maldito, tenho horror à pátria. O melhor é dormir, completamente bêbado, na praia.
(“Sangue Ruim”, Arthur Rimbaud)
No dicionário, o termo “subversão” é definido como oposição e perturbação: oposição diante de normas, condutas, maneiras de compreender e perceber op mundo; perturbação diante do socialmente convencional, do estabelecido por uma coletividade definida, pela tradição e pelas crenças da maioria. Os subversivos, buscam, portanto, solapar as bases daquilo que foi estabelecido, por tradições políticas, religiosas ou mesmo civilizacionais. É a contestação definitiva, total, de certa forma.
Assim, renovando nosso compromisso com o pensamento herético, a Raphus Press orgulhosamente apresenta nossa nova linha de publicações voltada aos grandes subversivos de todas eras e épocas: SUBVERSÕES. Por outro lado, nessa nova série, aproveitaremos nossos conhecimentos e experiência em formatos artesanais e diferenciados para a confecção de edições únicas. Da mesma forma, ilustres convidados produzirão paratextos exclusivos para cada edição.
E inaugurando nossa série SUBVERSÕES, teremos três autores decisivos para o pensamento crítico relacionado à política, estética e entendimento da realidade: William Morris, Antonio de Hoyos i Vinent e Aleister Crowley. Na forma do ensaio e da prosa breve (com pendores visionários e poéticos), esses três autores realizaram um notável processo de subversão, que será conhecido com mais profundidade através de obras traduzidas pela primeira vez para o português: Ensaios de Contestação, de William Morris; Príncipes e Princesas do Sonho e da Dor, de Antonio de Hoyos y Vinent; A Droga, de Aleister Crowley. Descreveremos abaixo cada um dos livros de nosso projeto, mas é necessário destacar que cada um deles, ao seu modo, impulsionou a consciência crítica coletiva à época e no futuro.
SUBVERSÕES: as edições
Inaugurando a série SUBVERSÕES, teremos três livros — uma coletânea de ensaios (de William Morris), um coletânea de contos (de Antonio de Hoyos y Vinent), além de um conto (de Aleister Crowley), acompanhado de ensaio reflexivo escrito por Jonathan Wood. São formatos, gêneros e abordagens diferentes, que resultam em livros bastante instigantes. Além de traduzir, editar e publicar obras de impacto e densidade considerável, inacessíveis ao público brasileiro e mesmo falante do português, buscamos, com as nossas edições (descritas detalhadamente na próxima seção) manter algo do espírito incendiário dos panfletos subversivos de todas épocas e paragens, material utilizado para difundir ideias que, ao ameaçar o status quo, impulsionavam a humanidade adiante.
Ensaios de Contestação, de William Morris, traz três de seus célebres ensaios/palestras, que ele costumava ministrar para uma ampla gama de pessoas (de colecionadores de livros a trabalhadores em ligas socialistas e anarquistas), tratando de temas relacionados às questões políticas de seu tempo, suas experiências com a adesão ao socialismo e anarquismo, suas preocupações com a herança dos monumentos históricos ameaçados pela sanha capitalista, suas reflexões a respeito de uma sociedade dominada pela mercadoria ou sobre a libertação do esforço mecânico, brutal e alienante que o sistema capitalista denomina “trabalho”. Como é possível ver, temas bastante contemporâneos expostos nos três ensaios que traduziremos: “Antes e agora”, “Improviso” e “Trabalho útil versus esforço inútil”. O livro trará ainda ensaio de contextualização, assinado pelo editor.
Panfleto original de Useful Work versus Useless Toil, de William Morris.
Príncipes e Princesas do Sonho e da Dor, de Antonio de Hoyos y Vinent, é um conjunto de três contos que está na terceira parte de uma coletânea maior, Los cascabeles de Madame Locura (1916). Nesses contos sobrecarregados de uma atmosfera malsã e tenebrosa — em que as evocativas descrições, plenas de elementos lúbricos, violentos e grotescos, usuais na literatura decadentista, dotam tal prosa de um fluxo visionário —, surgem estranhos personagens cuja nobreza é índice de seu próprio declínio. Provavelmente um reflexo da visão de Hoyos y Vinent, um aristocrata de nascimento que logo militaria ao lado dos anarco-sindicalistas da FAI (Federación Anarquista Ibérica) ainda antes da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), algo que condenaria o autor à miséria e ao ostracismo — e depois, à morte, em 1940 —, com a vitória do general Franco e dos fascistas espanhóis.
Capa original do livro Los cascabeles de Madame Locura (1916).
A Droga, nossa terceira recompensa, é um relato visionário de Aleister Crowley no qual os efeitos extasiantes e pavorosos de uma droga mística experimental são sentidos e descritos. Publicado originalmente em 1908, na The Idler Magazine, XXXIV (76), o conto de Aleister Crowley é um dos primeiros a tratar da intoxicação química de forma mais complexa — e esse tratamento permitiu ao autor trabalhar com uma linguagem deslumbrante, visionária, tão evocativa de beleza quanto de horror. Uma narrativa que causa espanto também pela estrutura e por seu twist filosófico, contara, nesta edição, com ensaio a respeito da relação entre Aleister Crowley e as drogas, escrito por Jonathan Wood.
Periódico em que foi publicado o conto "The Drug", de Aleister Crowley.
Os livros e as Recompensas
Para esta campanha, nosso planejamento está direcionado para recompensas bem simples, com a opção ao apoiador por escolher as distintas “subversões”, ou talvez abraçar as três de uma vez. Ensaios de Contestação e Príncipes e Princesas do Sonho e da Dor serão brochuras no formato usual utilizado pela Raphus Press para esse tipo de publicação: ambos terão 13 x 20 cm, orelhas de 7 cm e por volta de 60-70 páginas de miolo, entre textos e paratextos. Impressão de ótima qualidade em papel pólen de boa gramatura, para facilitar a vida do leitor.
A capa de Princesas do Sonho e da Dor será eclética — com reproduções de —, para reproduzir algo do alucinatório universo visionário do autor. As artes internas serão reproduções das gravuras do artista belga Armand Rassenfosse (1862-1934), repletas de luxuriante decadência.
Capa de ríncipes e Princesas do Sonho e da Dor.
Já Ensaios de Contestação terá em sua capa e nas artes internas, criações do ilustrador e pintor socialista Walter Crane (1845-1915), ele mesmo um contemporâneo e eventual colaborador de Morris, tanto na editora Kelmscott Press quanto nas discussões e divulgação de eventos de natureza socialista, tanto na Europa quanto no resto do mundo.
Capa de Ensaios de Contestação.
Por fim, A Droga seguirá nosso novo padrão: as concertinas com vários dobras, como empregamos na edição de Heathman Ldg, de Brian Evenson. Tal versátil disposição faz com que, de um lado, seja possível ler a narrativa de Crowley e, do outro o ensaio de Jonathan Wood. No caso desta concertina, serão oito pranchas (geradas pelas dobras) de 15 x 20 cm, impressão frente e verso. Nas capas de cada um dos lados de leitura, reproduções do pintor, desenhista e ilustrador alemão Adolph Friedrich Erdmann von Menzel (1815-1905). As imagens históricas e realistas de Menzel são carregadas de certas estranheza alucinante, que ilustram perfeitamente o mundo de intoxicação evocado por Crowley.

Para cada uma dessas recompensas, destacamos o minucioso trabalho de tradução e pesquisa (que será comentado em notas específicas), algo que se prolongou dos textos em si para a direção de arte, responsável pelo resgate de material sugestivo que estivesse em sintonia com cada uma das obras. Nesse sentido, destacamos que tais edições — como usual na Raphus Press — são artesanais, exigindo considerável planejamento com gráficas e outros prestadores de serviços: tudo para entregar ao leitor uma verdadeira experiência de leitura.
Produção até o momento
Os materiais de nossa primeira aventura em SUBVERSÕES estão em diferentes estágios de produção. Os ensaios/conferências de William Morris e os contos de Antonio de Hoyos y Vinent já estão sendo traduzidos, enquanto A Droga, de Aleister Crowley, está em estágio de revisão. Aguardamos o texto de Jonathan Wood, a finalização das traduções demais paratextos para prosseguir com a diagramação e, posteriormente, envio para a gráfica.
Os Autores
Aleister Crowley (1875-1947) foi poeta, escritor, ocultista e crítico social inglês. Estudou filosofia e literatura inglesa no Trinity College, em Cambridge. Vinculou-se, em 1898, à célebre Ordem Hermética da Aurora Dourada, organização mística que congregou, entre outros, Arthur Machen, Algernon Blackwood, Edith Nesbit e W. B. Yeats, antes de fundar suas próprias ordens, pautadas pela filosofia ocultista forjada por Crowley em pessoa, a Telema. Escreveu amplamente a respeito de ritualísitica e processos místicos a partir de pontos de vista variados e complexos. Contestador da moral convencional e dos valores religiosos impostos, defendia uma liberdade social, moral e psíquica quase absoluta. Foi apelidado pela imprensa britânica em sua época the wickedest man in the world (“o homem mais depravado do mundo”).
Antonio de Hoyos y Vinent (1884-1940), escritor e jornalista espanhol ligado ao decadentismo espanhol. De origem aristocrática, recebeu sua educação em Viena e na Universidade de Oxford. Dândi e homossexual, passeava pelas ruas de Madri ostentando trajes e comportamento exóticos. Foi amigo da escritora Emilia Pardo Bazán, que o introduziu ao mundo literário madrilenho. Anarco-sindicalista, militava na CNT-FAI (Confederación Nacional del Trabajo/Federación Anarquista Ibérica) desde antes da Guerra Civil Espanhola, de 1936 a 1939. Essa militância foi fatal: com a vitória de Franco, foi perseguido e lançado ao ostracismo e à miséria. Morreu pobre, cego, surdo, quase paralítico, abandonado tanto por velhos amigos quanto por sua família.
William Morris (1834-1896) foi homem de múltiplos talentos: designer têxtil, tipógrafo, poeta, romancista, conferencista, ensaísta, editor, tradutor e ativista socialista e pela conservação de monumentos históricos. Teve formação em estudos clássicos por Oxford, momento no qual seria influenciado pela Idade Média. Apoiou e nutriu laços de amizade com membros da Irmandade Pré-Rafaelita, tendo seu nome, por outro lado, vinculado ao movimento Arts and Crafts e ao design/arquitetura como entendidos contemporaneamente. Considerado um dos primeiros socialistas da Inglaterra, trabalhou com Marx e Engels, que viviam no exílio, para a fundação de organizações como a Liga Socialista, em 1884. Em 1891, funda a editora Kelmscott Press, que buscava recuperar a tradição dos incunábulos e manuscritos medievais, mas com uma abordagem, tecnológica e de design, pertencente à vanguarda.
Colaboradores
Alcebiades Diniz Miguel é professor, tradutor, pesquisador e escritor, tendo por especialidade as narrativas, a criação de histórias, o registro de universos fantásticos em forma de narrativa. Bacharel em linguística pela USP, realizou mestrado, doutorado e pós-doutorado na Unicamp e na USP, tendo, nesse percurso, passado por um estágios de pesquisa na Brunel University, na British Library e na Fundação Biblioteca Nacional, onde realizou minucioso trabalho analítico em torno da imprensa simbolista brasileira. Realizou traduções para diversas editoras como Sol Negro, Carambaia, Sebo Clepsidra, Ex Machina, Novo Século e Perspectiva, de autores como Gérard de Nerval, H. G. Wells, Dolfi Trost, Nathanael West, Arthur Machen, Henry James, Robert Aickman e Thomas de Quincey. Algumas de suas pesquisas/traduções, de obras escritas por J. G. Ballard e Xul Solar, permanecem inéditas.
Jonathan Wood vive em Londres e é proprietário da Arbor Vitae Press; também escreveu e publicou uma série de pequenas criações impressas, bastante procuradas, que incluem 6 edições do jornal literário esotérico Through the Woods, bem como quatro volumes de poesia do premiado poeta anglo-galês, Nigel Humphreys. Sua própria ficção foi amplamente publicada por editoras como Zagava, Ex Occidente/Mount Abraxas, Raphus e Egaeus, enquanto seus artigos e ensaios sobre literatura saíram pela Private Libraries Association e pela Tartarus Press. Colecionador de livros inveterado e negociante de livros ocasional, nos últimos trinta e cinco anos especializou-se nos obscuros caminhos da literatura, no universo dos livros raros de Londres. Jonathan, atualmente, trabalha na lista biográfica de sua produção literária, e também em diversos projetos de prosa sinistra.
Sobre a editora
Nos últimos anos, a Raphus Press dedicou-se a lançar obras únicas tanto em termos de forma quanto de conteúdo. São edições breves, cuja extinção, por assim dizer, é rápida – ou seja, logo ficam fora de catálogo e como não costumamos fazer reimpressões, deixam seus vestígios no mundo real e virtual. Por isso nossos livros são únicos, artesanais, com elementos formais diferenciados que buscam tornar a experiência de leitura única. Já no quesito conteúdo, nosso foco sempre foi um certo tipo de ficção fantástica experimental, brutal e feroz que ganhou diversas denominações – neodecadentismo, Ficção Hiperimaginativa (FHi), etc. Por conta da natureza do material em si e das editoras obscuras aos quais esse tipo de criação está vinculado, seus autores, advindos das mais diversas e remotas paragens (incluindo Israel, Groelândia, Dinamarca...) optaram por utilizar o inglês como língua franca em seus manuscritos.
A Raphus publicou seus livros exclusivamente em inglês por algum tempo, mas chegou o momento de trazer para o leitor brasileiro toda a riqueza dessas novas tendências do fantástico, da ficção terrorífica e da literatura especulativa em português! Nesse sentido, e dando continuidade ao projeto que iniciamos com a campanha bem-sucedida de O Baluarte Tomado, narrativa visionária de Damian Murphy, seguida pela campanha para lançamento das inovadoras visões poéticas e narrativas em Cartes de Visite,de Mark Valentine e Dádiva, de D P. Watt, depois a prosa tensa de Justin Isis em A Neve e a poesia solar de Jonathan Wood em Dias de Sol. Já em 2020 tivemos a narrativa de uma outra Europa escrita por Mark Valentine e John Howard, Restos de Sombra, além da ficção especulativa extremamente densa de Brian Evenson com Mater. Um de nossos últimos projetos: a poesia de horror cósmico, através de seu expoente atual mais importante, Wade German, com seu Incantations/Sortilégios.


