Quem pensa que quadrinhos, e principalmente o Batman, é um assunto menor e de divertimento raso, muda completamente de ideia ao ouvir a autoridade com que Laluña Machado apresenta o tema.
Com três prêmios HQ Mix em sua estante, participação em livros e exposições de sucesso e considerada a maior especialista de Batman do Brasil, Laluña tem tanto base documental quanto suporte de pesquisa para garantir essa autoridade - por sua vez, existe a necessidade da especialista em tornar seu caminhar investigativo e aprofundamentos cada vez mais conhecidos e acessíveis, entendendo a responsabilidade social em dividir seus estudos com o mundo.
É por meio desse objetivo que ela apresenta o livro GOTHAM PENSA, em campanha aqui no Catarse, no qual ela expõe seus ensaios sobre sociedade, filosofia e história, tomando o Batman como fio condutor de sua visão, dissecando o Homem Morcego para entender como ele é fruto e influenciador de seus tempos.
Em entrevista a Avoante Editora, Laluña fala sobre seu objeto de pesquisa e o que podemos esperar do livro.
1. Por que, dentre tantos personagens, a escolha do Batman para sua pesquisa?
O Batman é um personagem que me acompanha há muitos anos, mas o que sempre me interessou nele não foi apenas a figura do herói ou a popularidade da franquia. O Batman é um objeto cultural extraordinariamente rico para pensar a sociedade. Ao longo de mais de oitenta anos, ele atravessou diferentes momentos históricos, dialogando com transformações políticas, econômicas, filosóficas e sociológicas profundas.
Quando observamos a trajetória do personagem, percebemos que ele permite discutir temas como violência urbana, justiça, desigualdade social, medo, memória, trauma, tecnologia, vigilância, construção das cidades e até mesmo os limites éticos do poder. Gotham City, por exemplo, não é apenas um cenário fictício. Ela funciona como uma metáfora para diversas inquietações da modernidade e da vida urbana.
Além disso, o Batman é um personagem extremamente plástico. Cada geração o reinventa de acordo com suas próprias preocupações. Isso faz dele uma fonte privilegiada para compreender não apenas a história dos quadrinhos, mas também a história das ideias. Minha pesquisa parte justamente dessa perspectiva: entender o Batman como um fenômeno cultural capaz de revelar muito sobre a sociedade que o produz, o consome e o transforma continuamente.
2. Como esse livro se diferencia dos outros nos quais você trabalhou, como "Mulheres em Quadrinhos" ou "A História dos Quadrinhos dos EUA"?
Este é, sem dúvida, o livro mais pessoal que já escrevi.
Em trabalhos anteriores, meu papel era organizar grandes processos históricos, discutir movimentos culturais, agentes do mercado editorial e trajetórias coletivas. Neste livro, embora o rigor acadêmico continue presente, existe algo diferente: ele é também um encontro entre a pesquisadora e a leitora que eu fui durante toda a vida.
Talvez pela primeira vez o público tenha acesso à forma como eu realmente penso o Batman e, em certa medida, como eu penso os próprios quadrinhos. O livro não foi construído para repetir consensos estabelecidos pela indústria cultural ou pela crítica especializada. Ele apresenta minhas perguntas, minhas inquietações e minhas interpretações sobre o personagem.
Outro aspecto importante é que tive total autonomia intelectual para desenvolver essa abordagem. Isso me permitiu construir uma análise que respeita minha formação em História Cultural, minhas referências teóricas e minha maneira particular de enxergar os quadrinhos como documentos históricos e artefatos culturais. O resultado é uma obra que carrega muito da minha identidade como pesquisadora, professora, escritora e leitora.
3. O que podemos esperar, nesse livro, sobre o Batman que não vimos antes?
Acho que o leitor vai encontrar, antes de tudo, a minha forma de ler o Batman. Não apenas como personagem, mas como um fenômeno cultural capaz de provocar reflexões muito maiores do que normalmente vemos nas discussões sobre quadrinhos.
Ao longo do livro, estabeleço diálogos que fazem sentido para as perguntas que eu mesma fui construindo durante a pesquisa. Lima Barreto me ajudou a pensar as oligarquias que controlam Gotham. Angela Davis aparece nas reflexões sobre a Mulher-Gato e as questões de marginalização e poder. Malcolm X foi uma referência importante para analisar Jace Fox, o Batman negro. Já Renato Nogueira contribuiu para que eu pudesse olhar para a relação entre Alfred e Bruce Wayne a partir do afeto, do cuidado e dos vínculos que se constroem entre eles.
Não é um livro sobre curiosidades do Batman ou uma simples cronologia do personagem. É um livro sobre as perguntas que o Batman me permitiu fazer ao longo dos anos como pesquisadora, professora, leitora e historiadora. Talvez o que exista de mais novo nele seja justamente isso: um Batman visto através das lentes da História Cultural e das inquietações que sempre orientaram o meu trabalho.
Com textos adicionais de Manoel Taylor, PJ Brandão, Anderson Shon, Andreza Delgado e uma entrevista com Athena Finger, neta de Bill Finger, co-criador do Batman, e desenhos de Jefferson Costa, a campanha para GOTHAM PENSA vai até o fim de julho e possui recompensas exclusivas e a partir de R$ 35 já é possível adquirir a versão digital do livro.
Você pode conhecer e apoiar a campanha através do link: https://catarse.com.br/gotham_pensa.