O caminho na estrada era tedioso e cansativo. Estavam há o quê? Quatro horas viajando, no mínimo, e o céu já estava clareando. Pequenas manchas rosadas se formavam no horizonte, às vezes escondidas pelas árvores e às vezes pelas montanhas verdes das fazendas. O que, de certa forma, era agradável.
Bruna continuou apoiada no vidro, com os cachos escuros se soltando do coque improvisado que fez antes de sair de casa, provavelmente, a presilha que escolheu não aguentaria até o final da viagem. “Que ótimo”, pensou, observando o próprio reflexo na janela e ouvindo a voz de sua mãe em seus pensamentos.
Luís, o motorista, a olhou pelo retrovisor, talvez imaginando o mesmo que ela, porém se limitou a ajustar o ar-condicionado em silêncio. A culpa não era dela, já que não foi avisada da viagem até o rapaz estar parado em frente ao apartamento no meio da noite.
De repente, seu celular vibrou no bolso da jaqueta. Era mais uma mensagem de seus pais perguntando se já havia chegado, como se ela soubesse dizer. Então, Bruna revirou os olhos e deixou o celular no mudo.
Ainda tentou espiar o GPS do motorista, mas não dava para ver quanto tempo faltava até aquele lugar. Sem opção, a menina virou de lado, jogando as pernas sobre o banco de couro, e mais uma vez o rapaz atrás do volante observou pelo espelho em silêncio. Talvez não tivesse importância, afinal o carro era dela, não era? Mas a imagem do carro freando bruscamente e a arremessando na estrada veio à tona. Ela respirou fundo duas vezes, tentando não ficar inquieta no banco de trás, até que acabou ajeitando a postura virada para frente, bem presa ao cinto de segurança, como deve ser. Luís olhou novamente pelo espelho e Bruna teve a impressão de vê-lo relaxar os ombros.
O sol já estava alto no céu quando o carro parou e a menina acordou com o motorista falando com um homem na guarita, que indicou o caminho com má vontade. Ela deu de ombros e virou-se para a janela outra vez. Dava para ver seus cachos se desfazendo pelo vidro, além do extenso gramado do lado de fora. Era como um gigantesco campo de golfe, com a grama verde e bem aparada.
A primeira vez que passou por aquele lugar foi exatamente daquele jeito. Se lembrava de ficar olhando o horizonte enquanto seu pai lia o panfleto do colégio, animado com a pista de corrida e a área de ginástica. Ela nem chegou a ver essas coisas, já que acabou em uma sala cheia de alunos para fazer a prova. Todos mantinham as cabeças-baixas, encarando páginas de livros, resumos e anotações, como se suas vidas dependessem daquilo.
Ela se lembrava de como o medo a atingiu naquele dia, não tinha se preparado para a prova e nem sequer sabia que teria que fazê-la. Apenas entrou no carro conforme sua mãe mandou.
“É só mais uma competição”, ela repetia para si mesma, tentando acalmar os nervos antes de se sentar na primeira fileira. Preferia assim, longe de distrações, somente ela e o som ritmado do relógio. E no instante em que o livro de questões foi entregue, Bruna já estava focada.
Ela leu uma atrás da outra, marcando o gabarito sem hesitar, e obrigando os alunos do lado a tentar acompanhar sua velocidade. Mas era impossível acertar qualquer uma das alternativas com aquele ritmo.
A menina logo atrás de Bruna abriu um pequeno sorriso ao ver o espanto dos colegas, então fechou seu próprio livro de questões e se levantou. Ela deu uma boa olhada nas respostas de Bruna e para os olhares em pânico dos outros alunos, entregou o gabarito para o professor e saiu com os cabelos vermelhos balançando na altura dos ombros.
Mas dessa vez, Luís nem passou perto do prédio espelhado. Ele virou à esquerda na primeira bifurcação e passou por uma casa de dois andares no meio do campo aberto. Tudo o que Bruna conseguiu ver com os carros de luxo parados no meio fio e uma quadra improvisada no outro lado da rua. Continuaram por mais alguns minutos, voltando para a imensidão de grama aparada até que a próxima residência surgiu. Luís estacionou atrás de uma SUV preta com placa do Rio de Janeiro. Quem viria tão longe dirigindo?, pensou ela.
Bruna desceu do carro amassando os cachos com as mãos para reduzir o estrago enquanto o motorista pegava suas malas. A casa em si parecia simples para um colégio de elite, apesar dos carros importados parados na frente.
Ela olhou atentamente para o sobrado, porém os vidros espelhados não a deixavam espiar o lado de dentro. Tudo o que podia ver era a garagem espaçosa demais para os dois carrinhos elétricos estacionados, iguais aos que seu pai usava nos jogos de golfe.
Então, puxou a mala até a calçada, odiando a si mesma por colocar uma calça jeans em pleno verão. Os cachos soltos esquentavam a base do pescoço até o meio das costas e ela balançava a camiseta para sobreviver àquele sol escaldante.
— Argh, esperava mais…
Bruna reconheceu a voz atrás dela. Fazia muito tempo desde que viu Gabriela pela última vez, em algum evento beneficente ou naquelas festas acadêmicas que seus pais as obrigavam a ir.
— Está nessa também? — ela abriu, timidamente, um sorriso sem dentes.
A menina parou ao seu lado, se abanando com a mão e as bochechas pareciam ainda mais vermelhas com aquele vestido preto justo. Para piorar, Gabi estava de meia-calça escura e um par de coturnos, que normalmente eram usados no inverno. Pelo menos, a blusa xadrez estava amarrada na cintura, deixando os braços pálidos à mostra.
— Era isso ou colégio militar… Mas vendo agora, talvez eu devesse ter escolhido a segunda opção — Bruna soltou o ar pelas narinas e mordeu o lábio para conter o riso — E como você veio parar aqui?
— Minha mãe acha que vai ser bom para os estudos…
Gabi concordou com a cabeça, apesar do meio sorriso e dos olhos levemente cerrados.
De repente, um rapaz se juntou a elas. A pele bronzeada e os cabelos dourados mostravam que vinha de longe e ele se apresentou como Tomás, o dono do BMW preto parado ali em frente. Gabi revirou os olhos, assim como Bruna, estava cansada de tipinhos como aquele, porém o surfista pareceu não perceber.
Mais adiante, Bruna reconheceu os cabelos ruivos levemente ondulados na altura dos ombros, que pareciam labaredas embaixo daquele Sol. Não sabia o nome dela, mas já tinha visto aquele rosto algumas vezes. E, quando pensou em perguntar, a porta da frente se abriu.
Uma mulher saiu do sobrado com uma carranca e um apito prateado pendurado no pescoço. O qual ela usou com afinco para ensurdecer os pobres coitados na calçada. O coque justo quase escondia os cabelos escuros e o conjunto vermelho de moletom a deixavam ainda mais masculinizada.
— Bem-vindos ao colégio Estrela de Elite… Aqui vocês serão testados ao limite e somente os melhores dos melhores chegarão ao final do semestre — ela os encarou por alguns instantes, mas se queria assustá-los, precisava se esforçar mais — Sou a professora Renata e espero vocês hoje a tarde aqui na entrada, para a nossa primeira aula.
Do mesmo jeito que veio, ela desapareceu dentro da casa, deixando os alunos sozinhos naquele Sol quente com as sobrancelhas franzidas e as bocas entreabertas. Até que alguém apareceu.
O menino incrivelmente magro desceu da garagem até a calçada e, diferente da professora, tinha um enorme sorriso no rosto. Havia algo familiar naquele topete cacheado com as laterais raspadas, ou talvez fosse as sobrancelhas grossas em contraste com a pele caramelo. Bastou um olhar para Gabi para ter certeza de que não era a única a reconhecê-lo. Até a pinta em cima do lábio parecia conhecida, mas não sabia de onde.
Ele se apresentou como André, o membro do conselho de classe, e entregou os panfletos com os horários das aulas. Porém, conforme ele falava sobre o colégio, Bruna estava inquieta, se sentindo observada através das vidraças espelhadas e um formigamento brotou na ponta dos dedos.
— Por aqui, vou mostrar a casa para vocês — André foi na frente e os ombros de Bruna relaxaram.
A porta da garagem se abria para uma sala de estar, grande o bastante para acomodar dois sofás, um de três lugares que ficava de frente para a porta e outro de dois lugares ao lado dela. Era quase uma sala de passagem com vista para o gramado da frente e que levava para o refeitório à esquerda. Parecia até um pouco vazia com o tapete circular no centro e um aparador sem enfeites encostado na única parede livre.
Quando Bruna deu por si, André estava atravessando o amplo espaço integrado do refeitório com a cozinha, em direção à porta no final do cômodo. Ele explicou que naquele corredor estavam a biblioteca, a sala de estudos, a monitoria, a sala de jogos e a escada para os dormitórios, para onde seguiu tranquilamente.
— Não estou gostando disso — ela não percebeu o menino de olhos puxados e bolsa de couro se aproximando.
Então, olhou na mesma direção que ele, onde um pequeno grupo os observava de cima a baixo. O mais alto, de jaqueta de couro, permanecia com os braços cruzados e o corpo ancorado na mesa de sinuca, enquanto um rapaz de moletom amarelo e a menina de azul se apoiavam em seus próprios tacos. Nenhum deles tentou disfarçar, quase como se quisessem que os calouros ficassem desconfortáveis.
E no andar de cima não foi muito diferente, assim que pisaram no topo da escada se viram diante de um longo corredor com portas abertas. Por onde passavam, podiam sentir os olhares curiosos os acompanhando, como se fossem os animais de um zoológico. Alguns dos alunos colocavam as cabeças para fora do quarto, outros se apressaram para bater a porta, mas nenhum foi cumprimentá-los.
— Junto com os horários das aulas, está a lista com os quartos de vocês — André parou de repente — Fiquem à vontade para se instalarem, vejo vocês lá embaixo em uma hora!
Por sorte, ou quase, Bruna e Gabi acabaram no mesmo dormitório, o último do corredor ao lado da janela. Mas elas não eram as únicas, assim que abriram a porta, se depararam com uma garota sentada em uma das camas.
A maquiagem bem feita evidenciava os lábios carnudos e o nariz levemente arrebitado, entretanto, o olhar expressivo analisou as duas dos pés à cabeça no instante em que entraram no quarto.
— Parece que somos colegas de quarto — Gabi arrastou sua mala até a cama embaixo da janela e se jogou sobre os lençóis.
— To vendo — a menina continuou folheando o livro em seu colo — Sou a Bia, inclusive…
— Eu sou a Bruna — ela se dirigiu para a única cama livre — A doida ali é a Gabi.
Bia concordou com a cabeça, sem tirar os olhos das páginas brancas, e ela aproveitou para dar uma olhada ao redor. O quarto em si não era tão grande, se comparado ao que tinha em casa, e além do guarda-roupa que ia de uma parede a outra, elas tinham uma pequena cômoda ao lado da porta.
— O banheiro fica aonde? — Bruna tentava controlar os cachos rebeldes com a presilha frouxa.
— No meio do corredor, à direita — mais uma vez ela foi sucinta.
— Você está brincando, não tá? — Gabi sentou bruscamente com os olhos arregalados.
Bia respirou fundo e fechou o livro com um baque.
— Não, mas bem que eu queria… Dividimos o banheiro do corredor com todos os pixotes.
— Com o quê? — Gabi estava ficando impaciente.
— Com os pixotes… André não falou pra vocês?
— Ele não disse quase nada, na verdade — Bruna cruzou os braços.
— Que ótimo representante de turma — ela revirou os olhos — É como eles nos chamam aqui… Para diferenciar dos queridinhos dos professores.
Gabriela olhou para Bruna com as sobrancelhas franzidas e, então, de volta para Bia, que não parecia nada contente. Ela prendeu as longas tranças em um coque, agarrou o livro em cima da cama e andou até a porta.
— Perguntem isso pro André… Eu estou muito ocupada! — e assim, sem mais nem menos, ela bateu a porta atrás de si. E Gabi revirou os olhos.
Em seguida, com as malas desfeitas, o cabelo devidamente preso e um shorts no lugar das calças, Bruna finalmente estava pronta para descer atrás do representante de classe. Porém, no momento em que Gabriela abriu a porta, seu telefone tocou e ela teve que atender. Sentiu um frio na barriga ao ver o número comercial na tela e nem viu a colega sair do quarto quando apertou a tecla verde, com o coração sambando no peito.
— Alô? — sua voz saiu fraca.
— Até que enfim! Quer matar sua mãe de preocupação? — o barulho da cidade ao fundo era reconfortante.
— Não, claro que não…
— Tem mais de uma hora que Luís te deixou no colégio… Quando ia me avisar?
— À noite, agora estou conhecendo a escola, mãe.
— Alguém te reconheceu?
— N-não — ela hesitou.
— Ótimo! Continue discreta… É para o seu bem!
— Eu sei, mãe…
— Eu estou fazendo o que é melhor pra você, Bruna, mais tarde você vai me agradecer!
— Tá bom, mãe, mas eu preciso ir — ela respirou fundo.
— Tudo bem, continue assim e vamos chegar às semifinais!
Bruna sorriu para o telefone. Apesar de tudo, tinha alguns meses para se preparar e estava confiante desta vez.
Quando finalmente conseguiu desligar, percebeu que o corpo estava tenso e a cabeça um pouco aérea. Ela piscou algumas vezes para o quarto ficar em foco novamente e respirou fundo antes de sair para o corredor.
O silêncio da casa era intimidador, ainda mais com todas as portas fechadas e o andar vazio. De repente, o som da maçaneta girando chamou sua atenção e um rapaz saiu de um dos quartos mais adiante. Ele olhou de relance para ela, mas apenas ergueu as mangas da blusa cinza até a altura dos cotovelos e foi embora.
Bruna apertou o passo até as escadas, mergulhando no corredor apertado do primeiro andar, onde vários olhares a seguiram através da porta de vidro da sala de jogos. Ela preferiu ignorar as risadinhas, passando para a cozinha até ver André encostado em uma das mesas.
Era possível ver a carranca de Gabriela de longe. O surfista carioca estava ao lado dela tagarelando sobre os lugares que frequentava e o quanto dinheiro o pai dele tinha, mas enquanto Gabi parecia irritada, André sorria e concordava com a cabeça, como se realmente estivesse interessado. A ruiva próxima a eles e o menino ao lado dela também pareciam entediados com aquela conversa fiada e ficaram aliviados com a chegada de Bruna.
— Acho que você é a última! — André virou as costas para o surfista e ela sorriu sem graça — Venham, vou mostrar o restante pra vocês…
Ele atravessou a cozinha, passando pela geladeira de duas portas e o fogão de indução, até um corredor lateral simples que ia para os fundos da casa. Logo de cara eles viram os mesmos alunos de antes ao redor da mesa de sinuca, só que dessa vez estavam separados por uma porta de vidro de correr.
Já do outro lado do quintal, havia uma edícula com grandes janelas iguais às da sala de estar. Ao abrir a porta, André mostrou a sala de aula, onde ficariam a maior parte do tempo e o banheiro compartilhado logo em frente. Ainda tinha uma terceira porta no corredor estreito que levava para uma despensa.
A última parada foi no velho contêiner encostado no muro da casa, que servia como depósito para os equipamentos esportivos, peças de bicicletas e outras coisas que os alunos jogavam ali dentro. No geral, aquilo funcionava como um armazém de tralhas antigas e que poderiam ser úteis.
— André, o banheiro lá em cima é compartilhado mesmo? — Gabi não ligava a mínima para aquilo tudo.
— É sim… Só entre os pixotes, pelo menos — ele seguiu de volta para dentro da casa, usando a sala de jogos como um atalho.
— Entre o quê? — a menina ruiva se colocou entre eles.
— Pixotes? Ah, é como eles nos chamam aqui — ele deu de ombros.
Gabriela estava pronta para começar uma discussão, mas assim que André abriu a porta do refeitório, ela ficou sem fala. As mesas estavam cheias e, de repente, todos os olhares se viraram para eles, como se estivessem entrando em um abatedouro.
— Aqui nós preparamos nossa própria comida — o conselheiro de classe não percebeu a hesitação entre os novatos — Lavamos nossa própria roupa e fazemos nossos horários.
— Tá de brincadeira, né? — o surfista riu de nervoso e uma das mesas à frente deles explodiu em risos.
— O bebezão não consegue se virar sozinho? — o rapaz de jaqueta preta se destacou.
— Deixa eles em paz, Navarro — André revirou os olhos.
— Ah, não! A mamãe ficou brava! — seus cachos chacoalharam junto com o peito que subia e descia numa risada grossa e contagiante.
— Por aqui — André continuou andando — Vocês podem usar tudo. As panelas, os utensílios, as comidas… Tudo é compartilhado. E se quiserem alguma coisa que não temos, só colocar na lista de compras da coordenadora.
Ele apontou para uma lista presa na porta da geladeira com a data daquela semana. Além de doces e energéticos, alguém pediu salmão, geleias e até temperos que Bruna nunca havia ouvido falar.
— Agora é por conta de vocês — o sorriso de André não era o suficiente para tranquilizá-los — Só estejam prontos para a aula da Renata às quatorze horas. E não se atrasem!
Assim que o rapaz se afastou, o grupo dos novatos se dispersou. A garota de cabelos ruivos foi recebida em uma das mesas mais ao fundo do refeitório. O menino asiático desapareceu de vista e o surfista se juntou ao grupo masculino perto da porta do corredor.
Gabi cruzou os braços e revirou os olhos, arrancando uma risada estrangulada de Bruna.
— Vem — ela cutucou a amiga com o cotovelo — Vamos comer alguma coisa.
Elas deram uma boa olhada na geladeira e se surpreenderam com a variedade. Poderiam preparar qualquer coisa, no entanto, Bruna nunca usou um fogão na vida, sua dieta estritamente balanceada era preparada pela cozinheira da casa desde que ela se conhecia por gente. E duvidava muito que Gabriela soubesse cozinhar qualquer coisa que não fosse macarrão instantâneo.
Elas acabaram optando pelo fácil e juntaram o que tinha disponível em duas fatias de pão de forma. Não que fosse uma refeição aprovada por sua nutricionista, mas servia para aquele momento. Embora ela não estivesse com fome, na verdade, não sentia a mínima vontade de comer desde que precisou se afastar dos treinos.
Quando estavam quase terminando, o moleque de jaqueta preta se aproximou.
— Saiam da frente, pixotes, estão atrapalhando o caminho! — ele ficou cara a cara com Gabi, que permaneceu imóvel na frente da geladeira, atraindo todos os olhares.
— Quero ver você me tirar — ela cruzou os braços com toda calma do mundo e ele bufou.
— Você não sabe com quem está se metendo, esquisita…
Ele deu um passo para frente com os punhos cerrados, mas Gabriela continuava impassível. Bruna estava pronta para intervir, até que o garoto de blusa cinza apareceu para escoltar o amigo. Seus olhares se cruzaram de novo e Bruna enrijeceu.
— Para com isso, Navarro, quer perder pontos de novo? — Apesar de ser mais baixo que o outro garoto, ainda conseguiu empurrá-lo sem dificuldade de volta para a mesa ao lado da janela. Então, Gabriela foi medida de cima a baixo pelos mauricinhos daquele grupo, o que a fez sorrir com as covinhas aparentes.
— Você realmente é meio esquisita, sabe? — Bruna apoiou o quadril na bancada, tentando soltar os ombros tensos.
— E ele ainda não viu nada…
Ela riu sem pudor algum ao ver Navarro a encarando com os braços cruzados e os lábios contraídos num bico irritado, quase infantil.
De repente, André se aproximou mordendo o canto da boca. A jaqueta de sarja estava com as mangas arregaçadas até os cotovelos, deixando ele menos formal e mais parecido com os outros adolescentes. Ele enfiou as mãos nos bolsos da calça, erguendo os ombros até quase encostar nas orelhas e abriu um meio sorriso.
— Você não faz ideia do tamanho da treta que se meteu…
Rapidamente a expressão de Gabi se fechou e todo seu corpo congelou. Bruna quase pôde ouvir o coração dela dar um salto e conseguia visualizá-la indo para cima do pobre garoto.
— Isso foi in-crí-vel! — o sorriso de André se alargou, enrugando a ponta do nariz — Venham, vocês precisam sentar com a gente, a galera vai adorar vocês!
Os ombros de Gabi relaxaram e ela acompanhou o garoto até uma mesa de seis lugares no meio do refeitório, onde os amigos dele conversavam despreocupados. Bruna, em contrapartida, hesitou, puxando o prato contra o estômago. A pequena voz em sua mente parecia uma sirene, a lembrando de que não havia tempo a perder e que precisava manter o foco.
— Bru, você não vem? — André sorriu para ela com as covinhas adoráveis de suas bochechas e suas pernas voltaram a se mover.
Se havia um grupo eclético naquele colégio, com certeza estava naquela mesa. Além de André, que se vestia como um mauricinho, ainda tinha uma garota de descendência asiática, que parecia ter saído de um conto de fadas. Fernanda, como eles a apresentaram, usava uma blusa bege clarinha com estrelas douradas bordadas à mão. As mangas, quase transparentes, eram soltinhas e bufantes, já o cabelo, bem escuro, estava preso num rabo de cavalo elaborado com pequenas tranças e, com o que as meninas podiam jurar ser, um toque de glitter. Sua maquiagem não era nada discreta, mas evidenciava as maçãs do rosto altas e o olhar cativante que parecia sorrir para elas.
O garoto ao lado dela parecia o completo oposto. A pele mais dourada parecia harmonizar com os cachos castanhos cheios e volumosos. Os lábios grossos e bem desenhados não passaram despercebidos por Bruna e sorriam galantes, revelando os dentes impecáveis. Ele se apresentou como Daniel, estendendo a mão provida de anéis, como um perfeito cavalheiro.
A camisa preta folgada estava com o último botão aberto, deixando os colares e correntes dourados à mostra no peito descoberto. Gabriela chegou a cutucar Bruna com o cotovelo para que tirasse os olhos do menino por um momento e ela sentiu o calor subir pelo pescoço. Daniel riu, apoiando o braço na cadeira vazia ao lado, ficando ainda mais à vontade.
— Quem é aquele imbecil, afinal? — Gabi ancorou o queixo sobre a palma da mão, encarando André com aqueles olhos azuis-escuros.
E se Bruna tivesse que chutar, diria ser o filho mimado de algum empresário. Embora pudesse dizer o mesmo sobre quase todos naquele colégio.
— Navarro? — André limpou os cantos da boca com o guardanapo perfeitamente dobrado — É um dos favoritos dos professores… Um dos estrelas mais arrogantes.
Gabi estreitou os olhos e a boca ficou ligeiramente aberta, então Fernanda falou pela primeira vez.
— Vocês vão saber o que são estrela e pixote depois da aula da professora Renata — sua voz soou como o canto de um rouxinol.
De acordo com André, elas deveriam se preparar porque todos os alunos levavam as aulas muito a sério e podiam ficar extremamente competitivos durante os jogos.
— No jogo de queimada do ano passado, queimaram a Fernanda de propósito, só pra poderem ganhar da gente…
— É por isso que eu odeio fazer grupo com eles — Fernanda revirou os olhos.
Durante a conversa, elas acabaram descobrindo que Fernanda era filha de um cantor famoso e muitas de suas músicas eram composições dela. Mas que seu maior desafio agora era se lançar no mercado literário e, por isso, acabou entrando para o colégio, para estudar com Nicolas, um professor conceituado e escritor renomado.
O jeito que os olhos de Fernanda se iluminavam quando ela falava sobre seus poemas era contagiante, mantendo até Gabi entretida no assunto.
De repente, um grupo de alunos passou pela mesa deles e Gabriela deu um tranco para frente, batendo o peito contra a mesa pesada. Ela se virou numa explosão, pronta para avançar como um animal selvagem, até que seus olhos encontrarem os de Navarro.
Ele estava encostado no batente da porta com os braços cruzados e um sorriso de canto de boca, só isso foi o suficiente para o sangue da menina ferver.
— Você vai se arrepender tanto disso… — seus punhos estavam fechados e colados ao lado do corpo para não enterrá-los naquela barbicha falhada no queixo dele.
Mas, ao invés de responder, ele tentou conter o riso, deixando o ar escapar pelas narinas, e saiu para a garagem. Gabi bufou, jogando o corpo de volta na cadeira.
— Deixa isso pra lá, é melhor — Fernanda tentou sorrir.
— De jeito nenhum!
— Ela… — Daniel ergueu os ombros — Meio que está certa.
— Navarro é o pior de todos! — disse André — Ela merece dar o troco, gente…
Fernanda se encolheu na cadeira conforme os três discutiam como se vingaram de Navarro. Embora a conversa não tenha durado muito, pois Beatriz se sentou na última cadeira abruptamente. Ela olhava para todos os lados com a respiração pesada, silenciando o grupo em poucos segundos.
André observou em silêncio, enquanto Daniel a encarava confuso e Fernanda parecia querer uma explicação dos amigos.
— Eu estava aqui o tempo todo, tá bom? — os olhos de Bia estavam levemente arregalados e os gestos eram duros e expressivos.
Eles mal tiveram tempo de concordar quando uma menina alta e loira passou atrás da cadeira de Daniel. Ela tinha um sorriso perfeitamente desenhado, um furinho delicado no queixo e uma voz aguda e suave, que preencheu o silêncio.
— Finalmente te achei! Não vai com a gente para a sala de estudos? — a menina apontou com o polegar para os três ou quatro amigos que a esperavam em frente ao corredor. A novata de cabelos ruivos era um deles e parecia bem à vontade ali.
— Talvez depois — Bia ergueu os cantos dos lábios carnudos, o suficiente para parecer um sorriso — Estou passando um tempo com minhas novas colegas de quarto…
— Ah — a menina olhou para Gabriela e Bruna com o nariz empinado, mas sorriu ao se despedir deles sem se apresentar.
E, assim que a porta do corredor se fechou, Bia desabou sobre a mesa, fazendo o grupo se entreolhar preocupado.
— O que você está fazendo? — disparou Gabriela.
— Argh — ela se levantou com dificuldade, tirando as tranças do rosto — Não aguento mais a Sarah!
— Achei que vocês fossem melhores amigas! — André riu descaradamente, mas a menina se limitou a encará-lo com os olhos cerrados.
— Já tentou falar com ela? — Daniel apoiou a bochecha sobre a mão.
— E dizer o quanto ela é chata? Sim, já tentei — Bia cruzou os braços, contraindo os lábios sem paciência.
— Pode ficar aqui, se quiser — todos imediatamente se viraram para Fernanda, infelizmente nenhum contente com a proposta. Era óbvio que aquilo não daria certo, mas Bruna achou melhor continuar em silêncio.
— Se bem que a gente já estava indo… Precisamos nos preparar para a aula — André já estava se levantando.
— Da Renata? — Bia soprou o ar com pesar — Ela sempre pega pesado no primeiro dia…
Então, Bruna sentiu as mãos formigarem. Não era possível prever o que a esperava, mas seu coração batia acelerado, ansioso para descobrir. Sentia falta dessa adrenalina.
Pouco antes do relógio marcar quatorze horas, eles se dirigiram para a parte da frente da casa, onde Navarro e o restante do grupinho estrela estava reunido. Bruna podia sentir aqueles olhares hostis a encarando dos pés à cabeça, analisando e procurando por seus pontos fracos. Instintivamente, ela relaxou os ombros e começou a contar a respiração em silêncio. Um, era para esvaziar a mente, dois, para focar no objetivo, três, manter a calma.
— Será que é? — ela podia ouvir os cochichos logo atrás dela.
— Pode ser! Disseram que se aposentou, coitada! — as risadinhas foram ficando mais altas.
Quatro, para visualizar o percurso, cinco para encontrar equilíbrio. Então, sua respiração foi cortada ao dar de encontro com o garoto de cinza outra vez. Ele estava sentado no chão da garagem com os olhos vidrados nela.
— É óbvio que não é ela! Essa aí tem cara que compra roupa no brechó! Deve ser bolsista, com certeza! — a loira ao lado dele gargalhava sem o menor pudor.
Aos poucos, mais alunos foram se juntando ali na frente e Renata finalmente apareceu. Seus passos eram pesados e decididos, embora os movimentos fossem ágeis e elegantes, algo que não se espera de alguém como ela.
— Já estão todos aqui? — a professora mal encarou os alunos antes de continuar — Ótimo. O jogo de hoje é tão simples, que nem a Fernanda vai conseguir estragar…
A menina abaixou a cabeça, evitando a pressão dos estrelas sobre ela.
— Quero que se dividam em times. Estrelas, vocês serão os caçadores e pixotes… Tentem sobreviver até às vinte e duas horas — Renata riu — A regra é simples, o caçador te tocou, você está fora! Se algum pixote sobreviver até eu soprar o apito, a vitória é deles!
Todos estavam extremamente focados em Renata, com os olhos estreitos e os músculos rígidos, prontos para começar a correr. Então, Bruna passou a sentir uma corrente elétrica na base da coluna irradiar cada pedacinho de seu corpo, como se uma energia nova se apossasse dela e estivesse sedenta por velocidade.
— Vou dar uma vantagem para vocês, pixotes… Vocês têm cinco minutos até eu dar a partida, por isso, corram o mais rápido que puderem!
O sorriso de Renata ficou ainda maior com o desespero dos pobres coitados e, rapidamente, o grupo de Navarro encostou as mãos na parede da garagem. Até Fernanda estava preparada encarando os pixotes, quando a professora começou a contagem regressiva. E em questão de segundos, os alunos se dispersaram correndo o máximo que podiam para todos os lados.
Bruna e Gabi correram para dentro, sem saber ao certo para onde estavam indo, se perdendo de André e Daniel no meio da confusão.
Três outros garotos subiram as escadas correndo para se esconderem no segundo andar e, no momento que Bruna se preparou para segui-los, Gabi a puxou de volta com mais força do que aparentava ter.
— Por aí, não! Eles vão nos encurralar lá em cima.
— Pra onde, então? — elas finalmente ouviram o apito de longe.
— Lá fora, rápido!
Elas atravessaram o corredor estreito como um jato, ignorando os olhares por entre as frestas das portas. A ideia de Gabi era chegar aos fundos e ficar atrás do armazém, onde não haveria como ficar contra a parede.
Mas, assim que pisaram na sala de jogos, ouviram os gritos vindos da cozinha e Navarro entrou no corredor. O sorriso arrogante cantava vitória cedo demais e Bruna quase podia ouvir o ranger de dentes de Gabriela.
— Tranca a porta! — gritou ela e Bruna bateu a porta de vidro no mesmo instante, porém não havia chave alguma.
Sem perder tempo, ela puxou Gabi através da porta traseira, deixando o olhar flamejante de Navarro para trás e correndo para a sala de aula.
— Se abaixem! — ordenou um garoto no fundo da classe e elas obedeceram.
Ele não estava sozinho, estava de mão dada com uma menina miúda e magrela, com uma grande mancha marrom embaixo do olho direito, que se destacava em sua pele morena.
Não havia tempo para apresentações, os gritos lá fora pareciam se aproximar a toda velocidade e elas precisavam sair dali, mas pode onde? Bruna olhou em volta com o coração batendo acelerado e cogitou pular a janela atrás delas.
— Pela saída dos fundos — sussurrou a menina que ajeitava o rabo de cavalo.
Dava para ouvir os passos ecoarem no lado de fora enquanto eles se arrastavam até o outro lado da sala. Faltava pouco menos de três carteiras quando a porta se abriu violentamente e duas meninas correram para dentro. Bruna reconheceu a loira de imediato, levantando num pulo e puxando Gabi para a salinha dos fundos. O casal estava logo atrás delas, driblando a dupla de estrelas pelas mesas, mas assim que colocaram os pés no quintal outra vez, ouviram o grito. Bruna quase virou para trás, mas Gabriela a empurrou em direção ao corredor lateral.
Não existia lugar seguro. A cada porta que abriam ou em cada canto em que viravam, davam de encontro com um dos estrelas. Já estava escurecendo e elas foram encurraladas por Navarro e outro rapaz na garagem.
Gabi estava sem fôlego, sentindo os pulmões queimarem a cada lufada de ar e as pernas começaram a falhar. Só deu tempo de ouvir aquela gargalhada insuportável antes de sentir a mão pesada em seu ombro.
— Ah, não! — Bruna parou de repente, mas a amiga fez sinal para que continuasse, tirando a mãozona de Navarro de cima dela.
Então, a menina deu à volta no carrinho elétrico e correu de volta para a sala de estar, sendo seguida pelo rapaz de amarelo que corria como um atleta. Enquanto isso, Gabi era escoltada pelo arrogante de Navarro até a calçada, onde Renata e os outros pixotes aguardavam.
André parecia tão irritado quanto ela, apoiando a bochecha na mão fechada, resmungando qualquer coisa para si. Beatriz, Sarah, o casal que encontrou nos fundos e o surfista insuportável também estavam sentados no meio fio em silêncio, só esperando Gabi se juntar a eles.
Bruna conseguiu despistar o menino no segundo andar, passando por baixo do corrimão antes que ele a visse, porém, quando desceu o último degrau, foi puxada para dentro da sala de estudos escura com a boca tapada.
Daniel a segurou ainda mais firme no momento que as duas meninas estrelas passaram pela porta entreaberta. O olhar cansado e o rosto reluzente de suor quase escondiam a beleza delas, que apesar de exaustas, ainda estavam com a maquiagem e o cabelo impecáveis. Foi quando Bruna se tocou do quão acabada ela deveria estar na frente de Daniel, que ainda estava com a mão em sua boca.
— Ahn… Daniel — ela sussurrou com a voz abafada, deixando o ar quente tocar a palma da mão dele.
Então, ele a soltou lentamente, evitando fazer qualquer ruído com suas pulseiras prateadas revestidas de couro e sentou cansado no banco acolchoado preso à parede. Bruna se juntou a ele, sentindo o peso do corpo dobrar sob aquela almofada. Ainda não havia percebido como as plantas dos pés doíam ou como sua camiseta estava encharcada de suor. Ela riu da ironia.
Por que sempre tinha que estar desgrenhada perto dos caras? Não se lembrava da última vez que usou um vestido ou que teve tempo para se preocupar com qualquer coisa que não fossem os treinos.
Suas mãos caíram ao lado do corpo dolorido e, de repente, seus dedos encontraram os dele, que não se afastaram. Pelo contrário, se entrelaçaram delicadamente.
O toque frio dos anéis dele em suas falanges eram revigorantes e o calor de suas mãos juntas era tentador. Ela queria chegar mais perto e talvez ele também, mas um barulho no corredor os fez levantar num pulo.
Seu corpo inteiro protestou, porém, a mente estava em estado total de alerta, focada e pronta para correr quando a porta se abrisse. E, quando ela o fez, eles se viram diante de um garoto de descendência asiática muito bem-arrumado, apesar do cabelo levemente espetado para todos os lados.
Ele parecia cansado, como se calculasse o quanto teria que correr para alcançá-los e, por isso, foi tão fácil driblá-lo. Ou, pelo menos, fácil para ela, já que Daniel quase foi pego ao passar pela porta. No entanto, eles mal tiveram tempo de recuperar o fôlego quando o rapaz de camiseta amarela e a menina de cabelos loiros atravessaram a sala de jogos.
Bruna correu para a cozinha, porém Dani não foi tão rápido e acabou sendo pego. Então, ela ouviu a risada de Navarro vinda do corredor lateral e desviou a rota para a garagem, com o menino de amarelo em sua cola.
Com Navarro de um lado e o garoto do outro, não havia saída. O coração de Bruna batia pesado no peito e tudo ao seu redor pareceu desacelerar. De repente, ela podia ver tão claro quanto o dia e sua mente calculava rapidamente os pontos de fuga.
Eles estavam se aproximando depressa e a garota se colocou em movimento. Correu o mais rápido que pôde, pegou impulso no capô do carrinho e saltou, assim como fez a vida inteira, ouvindo as vozes surpresas estranguladas na calçada.
Foi tudo tão rápido que os colegas pixotes mal tiveram tempo de acompanhar e, de repente, Bruna estava em cima do muro do corredor, equilibrada como se sua vida dependesse daquilo.
— É ela mesmo! — ela escutou alguém dizer de longe.
— Rá, ela deve estar fugindo das semifinais! — a menina loira do time dos estrelas apareceu na porta da cozinha.
Bruna respirou fundo. “Um para focar” ela repetiu em sua mente, “dois para relaxar”, ela continuou, dando os primeiros passos em direção ao quintal. “Três para manter o equilíbrio”, ela manteve a respiração ritmada com as contagens até chegar ao telhado da sala de aula.
— Vai atrás dela, Matheus! — escutou Navarro gritar do corredor.
— Você tá de brincadeira, né? — era o rapaz de camiseta amarela.
Bruna colocava um pé na frente do outro, dosando o peso de seu corpo em cada telha em que pisava. Já estava quase na beirada quando um baque soou atrás dela, quase a fazendo perder o equilíbrio. Os meninos colocaram uma escada para alcançá-la, mas ainda havia uma saída: chegar ao contêiner ao lado da varanda e escalar até o segundo andar.
Tudo o que ela tinha que fazer era saltar do telhado para a estrutura de metal há poucos passos de distância, mas se errasse o pulo… Ela não queria pensar nisso.
Se apressou para chegar na borda com Matheus em seu encalço. Suas mãos suavam com o calor intenso, porém ela precisava saltar, O menino estava se aproximando depressa e suas pernas pareciam não obedecê-la, os gritos lá embaixo eram eufóricos e a sufocavam de ansiedade.
— Acabou, pixote! — Matheus estava há dois passos dela.
Então, antes que os dedos dele tocassem em seu ombro, Bruna saltou, aterrissando bruscamente na estrutura metálica e rolando até o meio do contêiner com o corpo doído. Já podia ver a varanda à sua frente, a visão estava um pouco embaçada, mas não podia parar agora. Ela se levantou a tempo de ver o garoto de blusa cinza subir pela escada, que agora estava apoiada no contêiner. Os olhos castanhos dele estavam fixos nela como um falcão, porém, de um segundo para o outro, suas sobrancelhas franziram e as linhas de expressão ficaram ainda mais fundas.
— Está esperando o que, Pedro? — Matheus estava observando do telhado, calculando se pularia para lá ou não.
— Você não tem para onde correr — a voz grave dele pareceu fazê-la despertar e ele deu um passo para trás — Você está bem?
— Sim — a visão turva de Bruna começou a escurecer, mas ela não podia parar, estava perto demais.
— Ei! — Pedro correu na direção dela, a puxando para longe da beirada pouco antes dela desabar em seus braços — Ela precisa ir para a enfermaria… Agora!
A menina simplesmente amoleceu diante de seus olhos e, tudo o que Pedro teve tempo de fazer, foi puxá-la para seu colo. Ela parecia pálida, sua pele estava quente e o peito subia e descia devagar demais. Ele teve que agir rápido para levá-la até o prédio principal no centro do campus.
— Navarro, pega ela! — Pedro a jogou lá de cima e o amigo a segurou sem a menor dificuldade, por sorte, o contêiner era mais baixo que o telhado.
Enquanto ele descia as escadas, Renata se aproximou como se nada tivesse acontecido e soprou o apito, marcando a vitória dos estrelas. Mas Pedro não se importou, apenas tirou a menina dos braços de Navarro e seguiu para a garagem, onde o Eletro de dois lugares estava estacionado.
— Onde pensa que vai, Pedro? — ele não percebeu Renata em sua cola.
— Levá-la na enfermaria…
— Você não vai colocar essa menina em um carro de golfe — ela o encarou com aquele olhar feroz — Vem, meu carro está estacionado aqui na frente.
Não demorou para que a enorme construção envidraçada aparecesse diante deles e logo estavam atravessando o corredor da enfermaria. As paredes brancas com meio revestimento azul lembravam um hospital e Pedro apertou a menina ainda mais contra o peito. Ele se recusou a colocá-la na cadeira de rodas e ficou ao lado do leito durante a noite inteira, observando as gotas de soro caírem lentamente na mangueira presa à mão dela.
Renata já tinha ido embora quando a enfermeira Maria se aproximou. Ela trazia consigo um café expresso da cafeteira da recepção e umas bolachas de água e sal da sala dos professores.
— Estou impressionada… Você se manteve bem calmo — ela sentou ao lado dele — Daria um ótimo médico.
— Não sou muito fã de hospitais…
— É uma pena. Você parece levar jeito pra isso.
Maria se levantou para chegar a menina pela terceira ou quarta vez, antes de deixar a sala. E Pedro continuou encarando o soro gotejar com as pernas inquietas, dessa vez faria tudo certo.
Os olhos de Bruna começaram a se abrir, lenta e dolorosamente, como se tivesse sido atropelada por um caminhão. As imagens ainda não se formavam claramente à sua frente, porém reconheceu a blusa cinza do garoto ao seu lado. Pedro, não era? Ele estava com a cabeça baixa, apoiando a testa sobre os dedos entrelaçados, e Bruna tentou chamá-lo, mas sua voz não saiu da garganta. Então, tudo se apagou novamente e quando acordou, Pedro não estava mais lá.
— Ela acordou.
A sala parecia mais clara e menos gelada do que antes, embora o cheiro de lavanda ainda estivesse ali, a deixando enjoada. Bia estava ao pé da cama enquanto Gabi a encarava do outro lado do cômodo com os braços cruzados.
— Que droga aconteceu lá em cima!? — a voz de Gabriela era ríspida e severa.
— Então os boatos são verdade!? — era Beatriz.
— Quê? Do que estão falando? — Bruna tentou se levantar, mas a agulha no dorso de sua mão a impediu — Onde eu tô!?
— Deixem a menina respirar — uma mulher toda vestida de branco entrou no cômodo com uma bandeja — Você está na enfermaria, querida.
— Ela já pode ir? — Gabi cruzou os braços impaciente.
— Pode… — dessa vez a enfermeira se virou para a professora — Todo ano, mesma coisa, né, Renata?
— Eles são competitivos — a mulher deu de ombros e a enfermeira revirou os olhos.
Não havia motivo para manter Bruna mais tempo na enfermaria, então, após assinar a autorização, a professora a levou de volta para a casa, onde os olhares pareciam segui-la pelos corredores, sussurrando e apontando seu grande fracasso, um lembrete de que precisava se esforçar para chegar ao pódio.
E depois de um banho gelado merecido, ela amarrou os cachos para cima, colocou o short folgado de moletom e saiu em busca de Gabriela. A casa estava quieta outra vez, sem ninguém nos corredores ou na sala de jogos.
Mas no momento em que Bruna entrou na sala de estar, encontrou Pedro deitado no sofá de frente para a porta, lendo um livro velho e amarelado. Ela congelou por alguns minutos, ensaiando os passos que daria para chegar à garagem, com um turbilhão de pensamentos invadindo sua mente.
— Ahn… Pedro — ele baixou o livro com cuidado, marcando a página com o polegar — Eu… Queria te agradecer.
— Não foi nada — sua atenção voltou para as folhas envelhecidas, como se Bruna nem estivesse mais ali, a obrigando seguir seu caminho sem dizer mais nada.
E assim que a menina passou pela porta da frente, Pedro baixou o livro novamente, a vendo se juntar aos outros pixotes com os cachos balançando na altura do pescoço. Ele respirou fundo, tentando se concentrar na leitura, mas toda hora que ouvia a risada dela lá fora, se pegava encarando aquele sorriso tímido. Até que finalmente se deu por vencido e deixou a sala de estar, deixando o livro sobre o assento do sofá. Um detalhe que não passou despercebido por Bruna, que sentiu o sorriso se dissolver no segundo que Pedro bateu a porta atrás de si.
— Argh, de novo? — resmungou Gabi, chamando sua atenção.
De repente, a menina de longas tranças correu até eles com o olhar afiado e um sorriso confiante. Ela estava usando uma blusa frente única preta com uma saia lápis justa ao corpo, que transmitia seriedade. E, sem se importar, sentou no chão da garagem junto com eles e André olhou para Gabi com uma das sobrancelhas arqueadas, como se conversassem telepaticamente.
— Não estou fugindo da Sarah, desta vez — Bia revirou os olhos
— Então, o que veio fazer aqui? — Daniel tinha aquele sorriso charmoso que tirou toda a atenção de Bruna da conversa.
Bia olhou para cada um deles em silêncio até os cantos dos lábios se curvarem para cima, formando uma pequena covinha na bochecha.
— Fiquei sabendo que a aula de amanhã será do Nicolas…
— E? — Gabi deu de ombros.
— Precisamos nos preparar — disparou André, fazendo o sorriso de Bia se alargar.
— E pra quê? — disse Daniel — Ninguém consegue vencer a Fernanda.
— Talvez tenha alguém — todos os olhares se voltaram para Beatriz — Vamos, os outros estão na biblioteca!
Eles levantaram num pulo, desaparecendo do lado de dentro da casa e deixando as meninas para trás.
— Essa galera é muito competitiva… — Bruna se levantou com dificuldade.
— É… Acho que vou gostar daqui — o sorriso de Gabi era capcioso.
Elas se entreolharam por alguns instantes e Bruna sorriu também. Então, as duas correram para dentro, prontas para o próximo embate com os estrelas e dispostas a fazer de tudo para ganhar.





Os estrelas estavam reunidos na mesa de sempre e Renan tagarelava sobre a novata de cabelos ruivos enquanto Fernanda se remexia na cadeira, claramente incomodada. Ela não era a única, Ana Clara encarava Pedro com o nariz empinado e lábios muito contraídos, como se tentasse se manter em silêncio diante de uma corte.
— Pedro, você ergueu a mão primeiro…
Apesar de adorar ler livros clássicos e antigos, Pedro odiava ler 'sobre' eles, admirava o talento e o bom uso das palavras, mas não dava a mínima para a situação de vidas deles ou o quanto foram importantes para as escolas literárias. Então, se manter acordado nas aulas de Nicolas sempre foi um desafio e, talvez, Bruna tenha percebido.
Apesar do quarto estar igual, não parecia mais o mesmo. Sua gaveta de relógios ainda estava ao lado da cama, assim como a estante de livros de Pedro continuava atrás da porta. Porém, a prateleira de medalhas e outras tralhas de Matheus não estavam mais ali. Era como se alguém tivesse passado uma borracha no amigo deles e qualquer vestígio dele desapareceu daquele cômodo, com exceção da única foto que eles tinham pendurado junto aos pôsteres de filmes e músicas que colecionavam.
Não dava mais para se esconder naquela sala. Eram quase oito horas da noite e o motorista chegaria a qualquer momento, porém, ele não conseguia voltar. A luz da lua disputava o espaço com as luzes que vinham de dentro da casa, um lembrete do que o esperava no lado de dentro e o que teria que deixar para trás no momento em que o carro estacionasse na calçada.




