a vida às vezes é de uma urgência irritante. o que só comprova que o que somos depende exatamente daquilo que vivemos. levante a mão quem discorda disso e vamos engendrar um excelente diálogo. eu começo dizendo que perdi a conta de quantas semanas não consigo fazer meu prossiga na cultura dos seus dias. que obviamente é um movimento da minha vida independente, apenas, da mesa de café da manhã. mas cuja simbologia da mesa de café da manhã é essencial para mim, porque significa que se eu consegui tomar meu café com calma, vou conseguir qualquer outra coisa no dia.
falhei, tenho falhado miseravelmente. na semana que passou me peguei várias vezes, surpreendida, comendo em pé na pia da cozinha. mal consigo reler a frase anterior. co-mer em pé na pia da co-zi-nha. minha cozinha é linda. vocês devem ter acompanhado quando a conquistei, no ano passado. sou apaixonada por ela. mas comer em pé na pia é de longe uma das últimas coisas que pensei quando a planejei e sonhei. ela foi feita para fazer bolos, pães, fartos cafés da manhã. nunca para concentrar o triste desvio da vida no qual me vejo desolada ingerindo qualquer alimento com pressa, pela preguiça, pelo cansaço, pelo desânimo de tirar cinco minutos para arrumar uma simples mesa. mas os dias estão urgentes e todas as minhas frentes de trabalho estão me atropelando da pior forma possível. eu realmente achei que voltar para a sala de aula não seria um passo tão arriscado assim, que eu daria conta, como dei, em tudo da minha vida. e de fato, tenho dado até aqui. o custo, sempre alto, agora ficou maior: não consigo prosseguir na cultura do meu café da manhã. tem trabalho demais pra fazer, para além das aulas, é óbvio, mas parece que assumir as aulas foi a gotinha que caiu lentamente no copo cheio que nem precisava da gota para transbordar. transbordei. fui para além da borda que me limitava e entendi que eu tinha limites.
mas não arrisque pensar que estou me lamuriando, tão pouco reclamando. estou constatando apenas que o que somos depende daquilo que vivemos. enquanto vivo esse novo presente tão repleto de demandas que exigem minha presença, vou reaprendo a prosseguir na cultura dos meus dias, redesenhando o que é a minha cultura e redescobrindo o que são os meus dias.
no dia 15 vou lançar meu primeiro ebook. e para vocês, confesso: há aqui um pouco de medo e frustração. não, frustração nem é a palavra certa. mas também não sei qual é exatamente a palavra que podemos usar para dizer que um livro digital tem uma imaterialidade tão extensa, que não importa quantas pessoas adquiram e leiam e gostem: eu vou sentir o vazio de quem não lançou o livro físico. e não importa quanto eu tenha gastado nele (e acredite, foi muito) há ali uma sensação de que poderia ter gasto mais e feito a versão impressa. talvez porque eu o veja como uma obra da qual tanto me orgulhe que deveria ter materializado esse orgulho? pode ser. mas a verdade é pungente: não cabia, não nesse novo ritmo da cultura dos meus dias, adicionar todo a demanda que um livro físico exige: gráfica e venda virtual (com o adendo de depois, ainda ter que embalar e enviar pelos Correios). na minha vida atual, ainda que eu sofra de síndrome de mulher maravilha, adicionar mais essa atividade seria exigir de mim mais do que eu dou conta de dar. e isso nem é o movimento de uma pessoa que aprendeu a dizer não, é apenas o reflexo de uma pessoa pedindo socorro para si mesma: eu não posso ser tão irresponsável comigo assim.
então, lançar em ebook, agora, é uma forma de atender a pressa que o processo criativo exige: dar lume ao texto. mas é também uma forma de não dar peso a mim.
o livro é voltado para quem quer viver ou está vivendo a vida acadêmica: seja graduação, mestrado ou doutorado. e para quem neste contexto, está pedindo socorro para si e para os outros. entrei na faculdade no ano de 1999 e desde então tenho vivenciado e experienciado tudo o que é estar inserido e imerso neste contexto. se tem algo nessa vida sobre o qual posso falar com propriedade é a respeito de como sobreviver a esse meio, com saúde mental, cumprindo prazos e ainda assim curtindo o processo. então, talvez, possa ajudar você (ou algum conhecido seu que esteja passando por este caminho).
você que faz parte dessa comunidade tão perto do meu coração, tem desconto ao adquirir. e estou avisando de uma vez, para não correr o risco de você perder a notícia. assim, caso se interesse pelo ebook que será lançado dia 15, basta usar o cupom PERTODOS2 (sim, perto do esse dois) e gozar desse carinho, em forma de agradecimento e retribuição, que direcionei a você.
a você, inclusive, estendo um outro agradecimento. que tenho repetido em demasia, mas ainda de forma insuficiente: muito obrigada por estar aqui. você apoia meu trabalho de tantas formas ao participar da comunidade. você está permitindo que eu consiga rever com cuidado as tantas demandas que tenho para, no futuro próximo, reduzi-las e, quem sabe, conseguir retomar a cultura dos meus cafés da manhã (ainda que o café seja caro e a liberdade pequena).
se você está assinando a recompensa “para marcar”, não deixe de me avisar quando seu primeiro marcador chegar por aí? enviei tudo na semana passada e sigo ansiosa para saber se estão chegando logo.
essa semana não tem nenhum link. por enquanto. mas tem um poema, que vai como presente, como agradecimento e como partilha:
E POR VEZES
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos
David Mourão-Ferreira, MATURA IDADE, edição Arcádia (somente em Portugal).
lindo demais para merecer apenas a minha leitura.
desejo a você uma excelente semana. e espero que esteja lendo “Caderno proibido” da Alba, para nosso encontro do dia 31.
um beijo
Ju, Popodo e Ágata