Sou Paulo Duarte, cineasta, artista visual e produtor executivo brasileiro. Minha relação com o cinema começou em 1997 e, desde então, venho construindo uma trajetória independente entre cinema, artes visuais, poesia, performance e experimentação.
Ao longo desses anos, trabalhei com diferentes suportes, processos e formas de produção, acompanhando também as transformações do próprio cinema — da película e do vídeo às tecnologias digitais contemporâneas. Mais do que uma profissão, o cinema tornou-se para mim uma maneira de investigar a experiência humana através da imagem, do som, do corpo, da memória e do encontro.
Sou fundador da Guajupiá Filmes, produtora criada para desenvolver e realizar projetos cinematográficos e artísticos de caráter autoral, e criador do Cinema Arquetípico, pesquisa que venho desenvolvendo a partir da ideia do cinema como experiência viva: um campo em que roteiro, acaso, presença, imagem, som e processos simbólicos podem se encontrar.
Minha filmografia reúne trabalhos realizados em diferentes momentos dessa trajetória, entre eles Constantinopla, Nitrato de Prata, Cambralha, Cabocla Tupinambá, Ave Marie, Afrodite e Demihomo.
Esses filmes vêm encontrando espaços de circulação no Brasil e no exterior. Trabalhos meus passaram por instituições e mostras como a Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro — MAM Rio, Centro Cultural Banco do Brasil — CCBB e Mostra do Filme Livre, além de seleções e circuitos internacionais.
Em junho de 2025, por exemplo, a Cinemateca do MAM Rio realizou uma sessão de Cambralha (2012) acompanhada de Nitrato de Prata (2010), retomando dois trabalhos importantes da minha trajetória.
Mas existe um projeto que atravessa praticamente toda a minha vida cinematográfica: Flor de Lótus.
Comecei a filmar a artista Eliane Duarte em 1997. Eliane era artista visual, poeta e minha mãe.
Durante anos, minha câmera acompanhou seu trabalho, seu corpo, seus processos criativos, suas obras, seus textos e sua maneira profundamente singular de existir através da arte. As filmagens continuaram até 2006 e constituíram um arquivo cinematográfico produzido ao longo de quase uma década.
Naquele momento eu não poderia compreender inteiramente o que aquelas imagens se tornariam.
Com o passar dos anos, o material deixou de representar apenas o registro de uma artista e passou a revelar uma obra cinematográfica sobre arte, corpo, memória, feminino, criação, passagem do tempo e permanência.
Eliane construiu uma produção artística na qual pintura, objeto, tecido, costura, corpo e palavra frequentemente ultrapassavam suas fronteiras tradicionais. Sua trajetória passou pela Escola de Artes Visuais do Parque Lage, e sua produção integrou o circuito das artes visuais brasileiras.
Depois de sua morte, preservar esse conjunto de imagens, textos e memórias tornou-se também uma responsabilidade.
Foi desse encontro entre filho, cineasta, artista e arquivo que nasceu Flor de Lótus.
O filme não pretende construir simplesmente uma biografia convencional. Ele nasce das próprias imagens realizadas entre 1997 e 2006 e dos escritos deixados por Eliane, procurando permitir que sua presença continue existindo cinematograficamente.
Há algo fundamental para mim nesse processo: não falar por Eliane quando ainda podemos ouvi-la, vê-la e encontrá-la nas imagens.
Por isso, Flor de Lótus procura preservar sua voz, seus gestos, seus silêncios, sua relação com as obras e sua maneira de ocupar o espaço. O arquivo não funciona apenas como documentação do passado. Ele constitui a matéria viva do filme.
Hoje, depois de quase três décadas desde as primeiras filmagens, estamos trabalhando para concluir essa obra e fazê-la finalmente chegar ao público.
A campanha no Catarse nasce desse objetivo.
Os recursos arrecadados serão fundamentais para as etapas necessárias à finalização e circulação do filme, permitindo transformar um arquivo preservado durante décadas em uma obra cinematográfica concluída e preparada para encontrar espectadores.
Minha trajetória no cinema sempre esteve ligada à produção independente e à convicção de que determinadas obras precisam existir mesmo quando não seguem os caminhos mais fáceis ou convencionais de realização.
Flor de Lótus talvez seja a expressão mais profunda dessa convicção.
É um filme iniciado em 1997 que atravessou minha própria história como cineasta.
É também a tentativa de preservar e fazer circular a obra e a presença de uma artista brasileira cuja produção merece continuar sendo vista, pesquisada e descoberta.
Depois de tantos anos guardando, organizando e trabalhando sobre essas imagens, chegou o momento de fazê-las circular.
Finalizar Flor de Lótus significa transformar memória em cinema — e permitir que essa história continue viva através de novos olhares.
